A luta anti-imperialista e contra as guerras é uma agenda central da Marcha Mundial das Mulheres. Por um lado, as mulheres são muito afetadas pelas guerras em todo o mundo: com o deslocamento da população, a destruição de infraestruturas, casas e territórios, e a reconstrução de lares e comunidades com muito trabalho de cuidado para sustentar a vida. Por outro, o imperialismo instrumentaliza a opressão das mulheres, se valendo de um feminismo liberal para justificar guerras e intervenções.
O exemplo recente foi contra o Irã, com a alegação de que a guerra imperialista levaria democracia e liberdade às mulheres. O que efetivamente aconteceu foi um ataque à soberania de um povo. A ofensiva imperialista não tem nenhuma relação com a liberdade das mulheres, pelo contrário: a soberania dos povos é uma base para a autonomia de todas as mulheres, não só das poucas mulheres da elite.
Vivemos uma escalada do imperialismo dos Estados Unidos relacionada, em parte, à perda de sua hegemonia econômica diante da ascensão de outras economias do Sul Global, sobretudo a chinesa. Diante dessa perda, o império busca recompor seu domínio pela força, pela guerra e pelo militarismo. Esse é um dos poucos campos em que os Estados Unidos ainda mantêm hegemonia muito mais ampla do que outros países do mundo.
A América Latina, particularmente, ocupa um lugar central na atual estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, apelidada de “doutrina Donroe”. Esse nome se refere à doutrina Monroe, que afirmava a necessidade de controlar a América Latina para assegurar o poder imperialista dos Estados Unidos. Essa é novamente uma linha central da política de segurança nacional de Donald Trump: impedir que a América Latina se relacione econômica e politicamente com a China, que é identificada como principal concorrente dos EUA.
A energia como arma de guerra
Essa estratégia dos Estados Unidos foi consolidada como uma prática no início do ano, com a agressão à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, seguida do fortalecimento do bloqueio a Cuba. Nos dois caso, a questão energética é central para compreender o avanço estadunidense: na Venezuela, busca-se o domínio sobre o petróleo; em Cuba, a proibição de que outros países comercializem energia com a ilha faz com que a pobreza energética se torne arma de guerra.
A centralidade da questão energética nas dinâmicas de guerra e militarização na América Latina não estava tão evidente quando os processos de articulação dos movimentos sociais em torno da transição energética justa começou na região. Essa é uma mudança importante da conjuntura para entender o lugar do tema energético nas transformações da região e do mundo.
Desde o início do ano tem havido apagões frequentes em Cuba. A falta de energia é um problema muito concreto e real, provocada pelo bloqueio. E a maneira mais concreta de enfrentá-lo agora é com painéis solares, tecnologia que permite gerar energia mais rapidamente, de forma quase imediata após a instalação, por não exigir infraestruturas tão extensas.
O desafio para os movimentos populares é ampliar a solidariedade material, e não apenas no discurso. Dentro da campanha da ALBA Movimentos, está a arrecadação de recursos para o envio dos painéis solares para Cuba, que conecta o tema da energia à solidariedade concreta com o povo cubano. É também uma experiência que pode nos ensinar sobre as possibilidades de geração de energia autogestionada em contextos tão difíceis como esse.
A transição energética das corporações transnacionais
Outra dimensão dessa disputa é o que as transnacionais chamam de “transição energética”. As mesmas empresas que prometem descarbonização seguem explorando combustíveis fósseis como nunca antes, e agora avançam também sobre o setor de energias renováveis, expandindo-o para territórios da agricultura familiar e camponesa.
Não há transição de fontes de energia, mais sim uma expansão. A quantidade total de energia produzida no mundo cresce, servindo majoritariamente para alimentar o agronegócio, a mineração e as big techs, com seus centros de processamento de dados intensivos em consumo de energia e água. O capital é estruturalmente cada vez mais demandante de energia. Não há transição efetiva enquanto a lógica do crescimento ilimitado e da acumulação capitalista continuar sendo o motor da política energética.
É por isso que dizer “energia para a vida” não é o mesmo que defender o atual modelo de energia renovável tal como ele está sendo implementado em nossos territórios.
“Energia renovável, sim, mas não assim” é a palavra de ordem que as mulheres do semiárido nordestino brasileiro têm levado às ruas e roçados há anos. Da Borborema, na Paraíba, ao agreste de Pernambuco, do litoral do Rio Grande do Norte ao Piauí, agricultoras, pescadoras, marisqueiras e quilombolas denunciam que a chegada dos parques eólicos significou rachaduras nas casas e cisternas, ruído permanente, adoecimento, morte de animais, restrição ao acesso à terra e à pesca, assédio e violência sexual. O Nordeste concentra mais de 85% da capacidade de produção de energia eólica do país. O que se chama de “energia limpa” chega aos territórios como mais uma forma de apropriação de territórios e precarização do trabalho.
As mulheres criticam o modelo de produção, reprodução e consumo que orienta essa forma de produção de energia, e não a geração de energia renovável em si. Enquanto as energias renováveis são produzidas no marco da concentração de terra, do controle corporativo, da privatização dos bens comuns e da exploração do trabalho, essa energia não será para o povo. Esse acúmulo da luta das mulheres do campo, das águas e da floresta é a base material da nossa proposta de soberania energética.
Energia para quê? E para quem?
Esse contexto nos desafia a colocar o tema da energia para a sustentabilidade da vida com mais centralidade em nossa agenda feminista. As perguntas que fazemos há muito tempo — energia para quê? E para quem? — são hoje muito atuais para compreender as mudanças necessárias no modelo energético. Nossos países precisam ter soberania energética como um componente fundamental da soberania popular.
Isso se relaciona, evidentemente, com as disputas eleitorais deste ano de 2026 na região: Brasil, Colômbia e Peru. Sabemos que, historicamente, quando a direita está no governo, a energia é privatizada, o trabalho é precarizado e a pobreza energética é parte da vida cotidiana da classe trabalhadora.
Minerais críticos: o novo cerco às nossas terras
O caso da Bolívia, neste momento, é exemplar. O “triângulo do lítio” (Bolívia, Chile e Argentina) concentra parte decisiva das reservas mundiais desse mineral, e os Estados Unidos têm articulado abertamente sua disputa por esses recursos, inclusive por meio da Reunião Ministerial sobre Minerais Críticos de 2026 e da chamada Iniciativa Escudo das Américas. Não por acaso, o atual governo de Rodrigo Paz, que reaproximou imediatamente a Bolívia de Washington, conta com o apoio explícito da Casa Branca em meio à crise política e econômica que sacode o país.
As chamadas terras-raras englobam alguns minerais cruciais para a nova era tecnológica, em que o processamento de dados digitais tem centralidade. Esses minerais são fundamentais para produzir os ímãs de alta densidade que são usados em carros elétricos, telefones celulares e componentes de computadores e servidores, mas também nas torres de geração de energia eólica. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras-raras do mundo.
Há uma continuidade entre o petróleo venezuelano, o lítio andino e as terras-raras brasileiras: em todos os casos, o que está em jogo é quem decide, controla e se beneficia com os bens comuns da nossa região. A defesa da soberania mineral também é parte da agenda feminista de soberania energética e popular, e ela não pode ser negociada como “contrapartida” da transição energética global do Norte
Soberania energética, alimentar e tecnológica
A soberania energética, alimentar e tecnológica está articulada em nossa agenda feminista. Na Marcha Mundial das Mulheres do Brasil, há alguns anos pensamos nessas três dimensões a partir do olhar da sustentabilidade da vida, da valorização do trabalho das mulheres e do feminismo popular.
A soberania tecnológica tem aparecido cada vez mais em nossa agenda, especialmente pela centralidade que a digitalização e a inteligência artificial estão adquirindo nas dinâmicas econômicas dos nossos países. Com as big techs estadunidenses, o império tem domínio econômico no campo do desenvolvimento tecnológico. Nossos países estão subordinados e dependentes nessa dinâmica. O ritmo com que isso avança é vertiginoso, com a integração automática de assistentes como o Gemini em todos os serviços do Google e modelos parecidos sendo impostos em todas as plataformas que usamos no cotidiano.
É um modelo voraz por dados, por energia, por água e por minerais. Esse modelo organiza nossas vidas sem que tenhamos decidido nada sobre isso.
Precisamos desenvolver nossa visão e nossas propostas sobre esse tema em aliança com os movimentos populares. No Brasil, temos articulado processos de educação popular, desenvolvimento e infraestrutura, como parte da construção de uma agenda política de luta por soberania digital popular. A IARAA, a Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia, é uma experiência coletiva concreta. Ela também aponta um caminho mais amplo: queremos, como movimentos, criar alternativas tecnológicas que consumam menos energia, menos água e extraia menos dados.
Para isso, é preciso afirmar que o desenvolvimento de ciência e tecnologia tem que ser orientada pelo Estado, com investimento público forte, sem ser delegado às big techs. Os povos e o Estado precisam ser sujeitos do desenvolvimento da tecnologia, e não apenas usuários dos pacotes e modelos prontos da IA que foram treinados pelo norte global a partir da extração e processamento dos dados do Sul Global.

A SOF Sempreviva Organização Feminista participa da construção do feminismo no Brasil. Compõe a secretaria da Marcha Mundial das Mulheres no país. Este texto foi produzido coletivamente com apoio da União Europeia.
