No cenário global contemporâneo, dois paradigmas antagônicos de desenvolvimento da Inteligência Artificial disputam a hegemonia tecnológica e delineiam futuros radicalmente distintos.
De um lado, o modelo concentrado no oligopólio das Big Techs, cuja dominação se estrutura sobre o controle financeirizado da cadeia de valor tecnológica, a integração orgânica com o complexo militar-industrial e a apropriação privada de dados como mercadoria estratégica. Este modelo, sustentado por capital especulativo e orientado para a acumulação de poder geopolítico, perpetua relações de dependência tecnológica que subordinam o Sul Global à condição de fornecedor de matérias-primas, trabalho precarizado e dados não remunerados — configurando aquilo que podemos denominar extrativismo digital.
Em contraposição, emerge o modelo chinês de “novas qualidades das forças produtivas”, que concebe os dados como fator de produção a serviço de um projeto de modernização centrado no povo e conduzido pelo Estado sob direção do Partido Comunista. Enquanto o paradigma estadunidense orienta o desenvolvimento tecnológico pela lógica da acumulação privada, onde a IA serve primordialmente aos interesses de valorização financeira, controle geopolítico e maximização de lucros para um oligopólio corporativo, a estratégia chinesa subordina a tecnologia ao objetivo de beneficiar a população, promovendo inclusão, desenvolvimento sustentável e soberania nacional.
Como assinalou Tica Moreno, da Marcha Mundial das Mulheres, durante o Fórum Acadêmico do Sul Global, em novembro de 2025: “Precisamos que o povo e o Estado sejam sujeitos do desenvolvimento da tecnologia e não apenas usuários dos pacotes prontos, dos marcos prontos, dos modelos prontos da inteligência artificial.” Esta afirmação sintetiza um dos principais desafios do Sul Global: superar a condição de meros consumidores de tecnologia para nos constituirmos como produtores de nossas próprias ferramentas digitais.
Essa contradição se manifesta com igual intensidade no campo agrícola. Corporações transnacionais como John Deere, BASF e Microsoft implementam sistemas de Internet das Coisas e Inteligência Artificial que aprofundam a concentração fundiária e viabilizam a captura de dados de centenas de milhares de hectares. Em paralelo, o modelo proposto para a agricultura familiar camponesa resume-se a aplicativos de baixa complexidade, focados na coleta de dados em troca de “recomendações” que impulsionam a venda de agrotóxicos, ou no endividamento mediante aplicativos de fintechs [tecnologias voltadas para finanças].
É nessa disputa que surge a Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia (IARAA), concebida como instrumento na luta pela massificação da agroecologia. Desenvolvida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e pela Marcha Mundial das Mulheres, e impulsionada pela Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobab), a iniciativa se articula a outras frentes de soberania tecnológica popular construídas no âmbito da cooperação sino-brasileira, tais como a mecanização adaptada à agricultura familiar, a produção de bioinsumos em grande escala e alta qualidade, e o desenvolvimento de cadeias produtivas alimentares. A inteligência artificial constitui agora uma nova trincheira articulada à essa construção.
Construção coletiva: metodologia e princípios
A metodologia de construção da IARAA reflete os princípios de organização popular que caracterizam os movimentos que a desenvolvem. Enquanto os grandes modelos de inteligência artificial se apropriam e se beneficiam privadamente do conhecimento produzido pela humanidade, a IARAA reconhece e valoriza, por princípio, a dimensão e o esforço coletivo da produção desse saber. O projeto assume que o conhecimento agroecológico foi gestado pelos povos, comunidades e organizações populares ao longo da história. Instituições de pesquisa e universidades também são sujeitos relevantes na produção e sistematização desse conhecimento. Um dos maiores desafios da construção da IARAA consiste justamente em reunir todo esse acervo em formato escrito para que ele sirva como base de conhecimento da IA, uma vez que se encontra disperso em múltiplos repositórios e, por vezes, existe apenas na forma oral.
Para a construção das bases técnicas e políticas, constituiu-se uma equipe de especialistas em agroecologia oriundos dos movimentos e representando todas as regiões do Brasil. Este coletivo trabalhou na elaboração da base de conhecimento que alimenta a ferramenta e também desenvolveu as instruções que orientam e garantem o rigor conceitual, científico e técnico da agroecologia, assim como o caráter produtivo, organizativo e de luta nas respostas da IARAA. A construção coletiva contínua desses aspectos é fundamental para assegurar que a ferramenta não reproduza a lógica do agronegócio nem promova pacotes tecnológicos homogeneizadores, mas fortaleça as práticas agroecológicas diversas e territorialmente contextualizadas.
A construção de uma ferramenta que incorpore essas características e princípios exige metodologias inovadoras de desenvolvimento. Esse processo pressupõe, por um lado, formação e capacitação técnica da militância dos movimentos populares, gerando as condições para que atuem ativamente na concepção, desenvolvimento e validação da ferramenta. Por outro lado, demanda que os programadores aprofundem sua compreensão sobre os fundamentos políticos, teóricos e práticos da agroecologia, garantindo assim que esse arcabouço seja traduzido adequadamente em funcionalidades, arquitetura e interfaces que efetivamente ampliem as capacidades de ação e articulação dos sujeitos agroecológicos. Trata-se, portanto, de um processo de construção que reconhece a indissociabilidade entre concepção técnica e projeto político, recusando hierarquizações entre as etapas de desenvolvimento. Dessa forma, a ferramenta traduz os princípios agroecológicos e se transforma em sua implantação e uso.
Uma IA para potencializar a organização popular
A IARAA rompe com a lógica da interação individual, passiva e atomizada que caracteriza as ferramentas comerciais. Seu propósito fundamental não é se esgotar em um diálogo isolado entre usuário e máquina, mas sim atuar como um catalisador das organizações populares, fortalecendo suas lutas territoriais e a sistematização coletiva do conhecimento agroecológico.
A ferramenta visa fortalecer o processo de massificação da agroecologia, compreendida pelos movimentos populares como perspectiva estratégica de projeto político e enfrentamento à crise ambiental imposta pelo agronegócio. Socializar o acúmulo de conhecimento agroecológico constitui uma das tarefas fundamentais nessa batalha.
Arquitetura técnica: RAG e modelos de código aberto
A IARAA opera através de uma arquitetura tecnológica baseada em RAG (Retrieval Augmented Generation), que combina a capacidade de recuperação de informações com a geração de linguagem natural. Primeiro, modelos de linguagem avançados processam e interpretam a pergunta feita em linguagem natural, identificando os conceitos-chave e o contexto da consulta. Em seguida, o sistema busca em bases de conhecimento especializadas — construídas e validadas por movimentos populares — informações técnicas e práticas que se relacionam diretamente com a questão apresentada. Na sequência gera a resposta propriamente dita, onde o modelo de linguagem articula as informações recuperadas em um texto fluido e compreensível. Por fim, o sistema apresenta a resposta, combinando o rigor técnico das bases de conhecimento com uma comunicação acessível e contextualizada, de acordo com o fluxo desenhado pela equipe.
Diferente dos chatbots comerciais que simplificam respostas e homogeneizam práticas, a IARAA está sendo programada para considerar a diversidade de biomas, sistemas de produção, organização social e condições materiais dos territórios. A ferramenta não pretende substituir o conhecimento técnico e popular existente, senão amplificá-lo e facilitar sua circulação entre diferentes territórios e gerações.
O projeto prevê que a IARAA dialogue com as necessidades concretas de quem consulta. Se uma família agricultora enfrenta um problema de pragas em seu cultivo de feijão no semiárido nordestino, a ferramenta não oferecerá uma receita genérica baseada em agrotóxicos, senão que considerará alternativas agroecológicas viáveis para esse contexto específico, recuperando experiências de outros territórios com condições similares e conectando com conhecimentos técnicos validados pela prática popular.
Fase atual e implementações
Em sua fase atual (beta), a IARAA disponibiliza três perfis de busca — Semeadura, Mutirão e Quintal Produtivo —, cada qual desenhado para atender necessidades distintas dos sujeitos agroecológicos.
O perfil Semeadura foi concebido para quem está no campo e busca informações sobre práticas cotidianas de cultivo. Já o Mutirão orienta-se para a assistência técnica, metodologias participativas e trabalhos com grupos. Ambos os perfis oferecem respostas mais robustas em questões de caráter agronômico, como manejo agroecológico do solo, manejo de pragas e doenças, e restauração ecológica — áreas eleitas pelos especialistas em agroecologia dos movimentos como as de maior interesse nos territórios. O perfil Quintal Produtivo, por sua vez, está pensado para estudo e pesquisa, contemplando buscas sobre conceitos, fundamentos políticos da agroecologia e aprofundamento teórico.
Do ponto de vista técnico, a Semeadura e o Mutirão funcionam com a arquitetura RAGFlow — mecanismo de código aberto focado na compreensão profunda de documentos —, integrada ao modelo de linguagem Claude, da Anthropic. O Quintal Produtivo opera com a Meta-RAG, arquitetura experimental desenvolvida exclusivamente para a IARAA, que emprega múltiplos agentes de automação trabalhando em conjunto com os modelos MiniMax M2.1 e GLM-4.7. Esses dois últimos são de código aberto e desenvolvidos na China.
O plano para o futuro contempla a ampliação das capacidades da IARAA para outras áreas do conhecimento, orientando-se não apenas para sanar dúvidas individuais, mas também para auxiliar processos coletivos como o planejamento produtivo de cooperativas, facilitar formações técnicas nas escolas de agroecologia, sistematizar experiências de diferentes territórios e contribuir na elaboração de materiais educativos.
Dessa forma, a IA não se converte em instrumento de individualização do conhecimento, mas em tecnologia que fortalece os vínculos comunitários e a organização popular. A construção de alianças com instituições públicas de pesquisa, universidades comprometidas com a extensão rural e organismos de cooperação internacional será fundamental para garantir a continuidade do desenvolvimento da IARAA.
Perspectivas e desafios
A IARAA representa um passo importante na construção de alternativas tecnológicas desde os movimentos populares do Sul Global. Contudo, enfrenta desafios. Desenvolver e manter sistemas de IA demanda capacidade computacional significativa. A cooperação Sul-Sul, particularmente com a China, pode desempenhar um papel estratégico neste campo.
Há também o desafio da apropriação social das tecnologias digitais, o que requer processos formativos contínuos junto às bases dos movimentos. Além disso, o avanço da luta no campo da soberania digital necessita vir acompanhado de lutas e vitórias no conjunto da agenda dos movimentos. Como advertiu Maria Gomes, militante do MST, a mecanização e a inteligência artificial só terão impacto real se vierem acompanhadas de capacitação, geração de renda, acesso à água e melhoria das condições de vida. A tecnologia não é neutra nem suficiente por si mesma: ela integra um projeto político mais amplo de conquistas e transformações na vida da classe trabalhadora.
A IARAA se inscreve nesse horizonte estratégico, demonstrando que é possível e necessário que os movimentos populares ocupem o espaço do desenvolvimento tecnológico — não como receptores passivos de inovações alheias, mas como sujeitos históricos capazes de forjar suas próprias ferramentas de libertação.

Natália Lobo é militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM). Paula Veliz é pesquisadora da Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobab) e militante da Federação Rural para a Produção e o Arraigamento da Argentina. Carolina Cruz é da Frente de Tecnologia da Informação do MST. Este texto foi publicado originalmente na revista América Latina em movimento nº 559, de fevereiro de 2026, pela Agência Latino-americana de Informação (ALAI) e pelo Observatório Latino-americano de Geopolítica.
