A Bolívia vive dias históricos de luta política nas ruas: grandes marchas indígenas, bloqueios de estradas e greves de fome em protesto contra o governo de Rodrigo Paz. As organizações populares exigem sua renúncia por ter traído o voto do povo que o levou à Presidência do Estado Plurinacional. O governo de Rodrigo Paz colocou-se a serviço de setores privilegiados ligados às grandes empresas privadas e aos interesses que impulsionam políticas neoliberais no sul da América Latina.
Paz deixou clara sua aliança com o chamado “Escudo das Américas”, sob a égide do governo dos Estados Unidos, que agora articula não apenas o discurso, mas também a ação dos governos contra os movimentos sociais e a soberania dos povos.
As medidas adotadas pelo governo boliviano contradizem as promessas feitas por Paz antes de assumir o cargo. Desde seu primeiro decreto, ele passou a beneficiar os ricos do país, acabando com o imposto sobre grandes fortunas. O presidente está impondo decretos sem respeitar o processo democrático, sem consulta, sem debate público, sempre em detrimento das populações mais empobrecidas. Sua política econômica abre as portas para as empresas transnacionais e para a ganância dos grupos poderosos locais.
Entre os pontos mais críticos desses planos estão a proteção e a promoção de investimentos para atrair capital estrangeiro com estabilidade jurídica e tributária por 15 anos, mecanismos de aprovação acelerada e a abertura de setores estratégicos, como mineração, combustíveis fósseis, agropecuária e transporte. Isso gerou, em resposta, uma grande mobilização popular que durou 16 dias, de 17 de dezembro de 2025 a 11 de janeiro de 2026. Assim, foi reafirmado que “a Bolívia não está à venda”.
Uma demonstração da luta do povo mobilizado foi a marcha indígena realizada na Amazônia boliviana. Essa mobilização resultou na revogação parcial, por parte do governo de Paz, de uma lei que pretendia reformar a estrutura agrária para favorecer grandes empresas do agronegócio e comerciantes de terras na parte oriental do país. Nessa linha, o objetivo era converter a “pequena propriedade” em “propriedade média”, sob o pretexto de facilitar o acesso ao crédito bancário. Na prática, isso se traduziria na expropriação de terras dos povos indígenas devido à impossibilidade de arcar com os juros bancários, que costumam ser abusivos.
A marcha dos povos indígenas da Amazônia boliviana inspirou a mobilização nacional da classe trabalhadora, do campesinato e dos setores populares urbanos organizados em torno da Central Operária Boliviana (COB), a Confederação Única dos Trabalhadores Rurais da Bolívia (CSUTCB), conselhos de bairro e movimentos “autoconvocados” que hoje realizam uma greve geral por tempo indeterminado, com bloqueio de rodovias em todo o país que já dura cerca de 40 dias.
A chamada “gasolina basura” (gasolina adulterada), que causou estragos na frota de veículos dos setores público e privado, foi um dos fatores que intensificou o conflito. O governo suspendeu o subsídio aos combustíveis, alegando uma emergência econômica. O resultado foi um aumento generalizado dos preços: transporte público, cesta básica, alimentos.
Luta popular e resistência à repressão
A indignação coletiva foi crescendo a cada dia, com mobilizações massivas em todo o país. Diversas comunidades aimarás e quéchuas se uniram às reivindicações dos sindicatos e das organizações comunitárias da Bolívia e se mantêm na luta.
Diante da força da rebelião popular, o governo boliviano escolheu ignorar e zombar dos manifestantes. A repressão não demorou a chegar e já causou a morte de um morador de uma comunidade no altiplano de La Paz. Entre os dias 1º de maio e 2 de junho, a Defensoria Pública registrou dez mortes (sete devido ao desabastecimento de alimentos e à falta de acesso à saúde nos pontos de bloqueio; três no contexto de confrontos durante as operações de liberação), 37 feridos e 365 pessoas detidas. Destas, 247 foram libertadas, 103 foram indiciadas criminalmente, 17 foram condenadas por meio de processo sumário, e o restante permanece em prisão preventiva ou domiciliar ou responde em liberdade.
Até o momento, as forças de segurança do Estado continuam prendendo líderes sindicais de forma arbitrária e violenta. Sabe-se que grupos de elite “encapuzados” estão promovendo essa ação em diferentes locais do conflito social vivido atualmente na Bolívia. Entre as ações violentas promovidas pelo governo está a participação de grupos ilegais protegidos pela polícia para desbloquear estradas e reprimir comunidades camponesas. Isso ocorreu na cidade de San Julián, em Santa Cruz de la Sierra, no último dia 6 de junho.
É importante denunciar que, entre os detidos, há mulheres que estão sendo presas, de forma claramente racista, pelo simples fato de exibirem símbolos próprios em suas vestimentas tradicionais, como a k’orawa.
No dia 8 de junho, o presidente Rodrigo Paz promulgou uma lei para decretar estado de exceção, no intuito de pôr fim ao conflito social e à suposta ação do “narcoterrorismo” na Bolívia. Para isso, recorre à ação direta da polícia e das forças armadas. Amparadas nesse decreto, as forças de segurança poderão usar armas de guerra para reprimir a resistência daqueles e daquelas que hoje protagonizam uma das mobilizações sociais mais massivas e prolongadas que os bolivianos já viram em décadas.
