Desde o início da Revolução Bolivariana, em 1999, a Venezuela é alvo de ameaças e ataques que afetam não somente a economia, mas também a soberania do país, os processos comunicacionais e o bem-estar do seu povo. Isso ocorre por terem as maiores reservas de petróleo do mundo em seu território, mas, principalmente, porque o projeto popular revolucionário bolivariano possibilita uma outra forma de organizar a sociedade, baseada na participação popular. Esse modelo bate de frente com o projeto do capitalismo imperialista e neoliberal.
A América Latina vive uma disputa sem precedentes. Desde agosto de 2025, a região do Mar do Caribe enfrenta ataques das mais diversas formas. O governo estadunidense enviou submarinos nucleares e porta-aviões, instalou centros e radares para controlar o espaço digital e aéreo, lançou mísseis contra pescadores, mobilizou tropas terrestres e ocupou Porto Rico para treinamento militar. As tentativas imperialistas para tomar controle são caracterizadas pela militarização, demonstrações de força e um conjunto multifacetado de elementos golpistas. Todos esses elementos estão muito evidentes no caso da Venezuela.
Durante o Encontro de Comunicadores da ALBA, ocorrido em Caracas em maio de 2026, Blanca Eekhout, presidenta do Instituto Simón Bolívar e da Comissão das Comunas da Venezuela, argumentou que “a Venezuela continua a ser alvo de ataques, e não se trata apenas do bloqueio, da guerra econômica, das ameaças e do sequestro do presidente. Trata-se, sobretudo, da guerra cognitiva destinada a dividir a revolução bolivariana, a desmoralizar o povo venezuelano, mas, acima de tudo, a isolar ainda mais a Venezuela, não só no cenário mundial, mas também dos seus irmãos na América Latina”.
A guerra cognitiva que Blanca menciona é “uma forma não convencional de beligerância, que utiliza ferramentas cibernéticas para alterar os processos cognitivos e controlar a mente humana, as crenças e os comportamentos individuais e coletivos”, como escreveu a socióloga equatoriana Irene León no livro As tendências autoritárias do capitalismo [Las derivas autoritarias del capitalismo], com prefácio de Blanca.
Construindo a defesa dos ataques militares, comunicacionais e financeiros
O povo venezuelano tem vivo em sua memória o terror dos ataques de 3 de janeiro de 2026 e o luto pelas cem pessoas que morreram durante as investidas. Foram drones que sobrevoaram suas cabeças, seguidos por mais de cem aviões em voos rasantes, um barulho aterrorizante, enquanto cães latiam desesperadamente. Tudo isso sem saber o que estava acontecendo, apenas que o país estava sendo invadido.
Mísseis foram lançados contra comunidades, espaços militares, universitários e até um laboratório de matemática que fica muito perto de um reator nuclear. Esse reator, apesar de não funcionar há décadas, permanece com material radioativo. O povo entende que essa foi uma ameaça de que a catástrofe poderia ter sido ainda mais mortal. Os dados da destruição incluem vítimas de ataques cardíacos, 464 apartamentos danificados, 11 salas da Escola Ecológica destruídas, corte de energia elétrica e a morte de todos os animais de estimação do presidente.
Carolina Ortiz, liderança da Comunidade Simón Rodríguez, vive no primeiro complexo comunal urbano construído pelo governo de Chávez. Ela contou sobre a sua experiência no dia dos ataques: “quando amanheceu, quase todos os habitantes se reuniram chorando, conversando e pensando no que fazer. A primeira coisa que pensamos foi ir à Praça Bolívar e ver o que estava acontecendo”.
Na Comuna Simón Bolívar, um complexo enorme com prédios, murais coloridos e quadras de esporte no meio, onde crianças brincam e praticam esportes, conversamos com Oneyda Rosa, porta-voz das mulheres na comuna. Ela compartilhou o sentimento coletivo da sua comunidade: “muita tristeza e muita dor”. Carolina Ortiz concorda: “hoje em dia se sente esse vazio, sentimos falta de Maduro e Cília. Apesar de seguir vivendo o cotidiano, sentimos uma tristeza de não ter o nosso presidente. Mas seguimos o nosso trabalho, com confiança na presidenta encarregada Delcy Rodríguez e com esperança de que eles voltem logo para casa”.
O regime bolivariano sobreviveu aos ataques do dia 3 por causa da organização popular em comunas e comunidades. Após o sequestro de Cília e Maduro, a participação popular nas ruas foi massiva. Sobre isso, Blanca Eekhout compartilha: “fomos construindo caminhos graças à força da Revolução Bolivariana no seio do povo. Esse caminho chama-se comuna, democracia participativa e protagonista, poder popular organizado capaz de governar o território. É por isso que, ao longo de 27 anos, apesar de todas estas agressões, a revolução bolivariana continua a ser uma revolução viva e, mesmo em meio a essas adversidades, continuamos a garantir a paz e a governabilidade”.
Atualmente, o povo está organizando uma marcha massiva pelo país, chamada de Grande Peregrinação. Nessa caminhada, Alejandra Laprea, representante das Américas no Comitê Internacional da Marcha Mundial das Mulheres, enxerga uma possibilidade de reconstrução do tecido político a partir das regiões. Com um sentido de resistência também espiritual, o povo marcha rumo ao destino sagrado da liberdade.
Passado e presente
Hoje há 1044 sanções ativas contra a Venezuela impostas pelos Estados Unidos, Reino Unido, União Europeia e Suíça, além de outras medidas contra países que comercializem com o país caribenho. Ana Maldonado, coordenadora de relações internacionais da Frente Francisco de Miranda e integrante da ALBA Movimentos, propõe uma análise histórica sobre o retorno da Venezuela ao Fundo Monetário Internacional (FMI).
A Venezuela é um membro fundador do FMI e, nos anos 1980 e 90, recorreu várias vezes ao fundo para obter assistência, o que gerou grandes dívidas para o país. A crise oriunda desse ciclo de intervenções desencadeou nos protestos populares que conduziram à Revolução Bolivariana em 1999.
A Venezuela conseguiu pagar suas dívidas pendentes ao FMI e ao Banco Mundial em 2007, e cortou os laços com essas instituições. Naquela época, havia uma esperança de construir um Banco do Sul com sede na América Latina como alternativa. Mas, antes que este banco pudesse ser estabelecido, uma série de crises atingiu a região. Tais desequilíbrios foram provocados por uma queda nos preços das matérias-primas, a partir de 2014, e pelas novas rondas de sanções unilaterais que os EUA impuseram até 2018, quando companhias petrolíferas e empresas de transporte foram impedidas de negociar com a Venezuela.
Os bancos internacionais deixaram de fazer negócios com o país caribenho e confiscaram ativos venezuelanos dos seus cofres, como as 32 toneladas de ouro que seguem em um banco privado da Inglaterra. Outro bloqueio financeiro é em relação à moeda do FMI: os Direitos Especiais de Saque (DES), dos quais o governo venezuelano possuía 400 milhões de dólares em 2019. Em uma interferência direta na política do país, o FMI não permitiu que a Venezuela recebesse essa quantia, em uma violação ao espírito de cooperação internacional. Disseram que foi por ‘não saber quem era o presidente’, uma justificativa que se manteve mesmo durante a pandemia e a grave necessidade de usar o dinheiro na saúde pública.
Em abril deste ano, a presidenta encarregada, Delcy Rodríguez, readmitiu a Venezuela ao FMI após seis anos de bloqueio institucional. Ana Maldonado concordou que o FMI é um pilar das políticas de pilhagem imperialista. No entanto, Delcy afirma que o objetivo não é criar uma dívida para a Venezuela, mas que o país seja reconhecido e possa negociar. Esse passo abre caminho para o país receber as reservas congeladas e se defender da deslegitimação sofrida por parte da extrema-direita venezuelana.
Venezuela segue adiante em meio à dor, trabalho e esperança
Na prisão em Nova Iorque, Cília e Maduro estão sofrendo com condições precárias e violentas. A comida é de má qualidade e não há acesso a serviços de saúde. Até recentemente, Maduro era impedido de ter acesso a livros. Todo o povo latino-americano em solidariedade tem, desde então, o objetivo de fortalecer a campanha por liberdade nas ruas e redes. Ana Maldonado ressaltou que a solidariedade envolve um compromisso de compartilhar o que temos, não apenas o que está sobrando. Uma ideia que vem da aliança entre o povo venezuelano e o cubano, que têm uma conexão forte de solidariedade muito vinculada à saúde, já que todo o povo venezuelano já foi cuidado por algum médico cubano. As brigadas médicas cubanas foram fundamentais na atenção imediata à população afetada pelos terremotos de magnitudes 7.2 e 7.5 no dia 24 de junho de 2026 em centenas de cidades no país. Os tremores causaram perdas humanas e danos materiais sem precedentes, uma tragédia que conta com a solidariedade do povo.
Dessa aliança popular, nasce a tarefa de fortalecer campanhas e ações de solidariedade ao povo cubano, que está enfrentando as mesmas estratégias de fragmentação para invasão do imperialismo do governo de Trump. Os movimentos populares que atuam na região organizam o envio de medicamentos, alimentos e painéis solares para Cuba, fortalecendo o apoio material, político e comunicacional com a Venezuela.
Também nesse sentido, nos últimos meses, uma nova campanha venezuelana em solidariedade a Cuba foi lançada com o nome “Amor com amor se paga”. Ela parte do princípio de que o amor é um compromisso político concreto, vindo das ideias de José Martí e não um conceito abstrato. Martí, considerado um mensageiro da independência cubana, diz que o amor é esperança sincera, merecimento, respeito e uma força transformadora.
Essa campanha tem três fases: a primeira, denominada “Coração por coração – salvar vidas”, centrada na coleta de medicamentos prioritários; seguida por uma segunda fase focada na soberania energética, cujo nome é “Trump não pode bloquear o sol”, e o objetivo é coletar contribuições para a aquisição de painéis solares. A terceira etapa, na qual estamos agora, é chamada de “O milho da grande pátria”, que centra na coleta de alimentos essenciais para enviar ao povo cubano.
Esses povos têm a mesma luta de construção de um projeto socialista, com comunidades fortes e poder popular. A partir das ideias de José Martí e das experiências das mulheres venezuelanas, que controem a alegria como força política e organizativa, aprendemos que a resposta aos ataques imperialistas está na ousadia diária de sustentar a revolução socialista.
Com as feministas venezuelanas, aprendemos como praticar uma outra forma, centrada no bem-viver, de se organizar, produzir e construir comunidades feministas e antipatriarcais. Para defender a soberania venezuelana e cubana e denunciar os ataques, também precisamos dar atenção para o que os países têm de mais belo, fortalecendo redes de cuidado e solidariedade, com riso solto e sem soltar a mão.
Milagros Espinoza, comuneira da Comuna Socialista Simón Bolívar, compartilha que “aqui estamos nós, no dia a dia. Somos as mulheres da luta, da batalha, da vitória. Todos os dias dedicamos todo o nosso amor. A Venezuela é um país impregnado de amor. As venezuelanas têm na sua essência um grande amor pela nossa pátria, somos muito orgulhosas do nosso país. Sabemos que esse amor que corre nas veias é cada vez maior e sabemos que esta querida pátria, de amor e paz, será sempre nossa e para nós. Aqui, todos os países podem vir com amor e tranquilidade. Não vamos nos meter com eles, mas sim abraçá-los, porque somos povos irmãos.”
Capire esteve em Caracas em maio de 2026 no Encontro de Comunicadores da ALBA Movimentos para participar de uma cobertura colaborativa realizada em aliança entre 14 meios de comunicação da América Latina. Durante uma semana, ouvimos, dialogamos e contribuímos com a tarefa de romper o bloqueio comunicacional contra a Venezuela. Esse artigo é um dos materiais resultantes desse encontro.
