Em 2025, durante a 6ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres, realizamos uma formação sobre economia feminista na Tanzânia. Reunimos quase 30 jovens feministas. Na semana passada, recebi uma ligação de uma das participantes dessa formação. Ela me contou o quanto aquela formação foi marcante para ela, pelos conhecimentos e habilidades que adquiriu. Esse é um dos vínculos diretos que construímos entre nossas companheiras e o movimento.
A economia feminista é uma prioridade para nós na Tanzânia. Acreditamos que, quando as mulheres têm condições de gerar sua própria renda, conseguem enfrentar melhor diversas formas de violência, incluindo a violência de gênero e a pobreza. Por isso, trabalhamos para fortalecer nossas capacidades e também as das mulheres ao nosso redor, por meio da formação em empreendedorismo e educação financeira. Além da paz, das mudanças climáticas e de outras questões, esses são alguns dos nossos temas centrais neste momento. Hoje celebramos o Dia Internacional da Mulher Africana e diversas atividades acontecerão em todo o continente.
No continente africano, as mulheres são profundamente afetadas pelas mudanças climáticas, mas há um problema na forma como essa realidade é comunicada: o discurso dominante faz parecer que são as mulheres as responsáveis pela destruição do meio ambiente. Elas acabam sendo culpabilizadas porque, por exemplo, cortam lenha para suas casas. No entanto, segundo nossos dados, na Tanzânia as mulheres são responsáveis por cerca de 80% da produção de alimentos e das atividades agrícolas cotidianas. Por isso, quando o clima se torna instável, quando não chove ou há períodos de seca, são elas as mais afetadas, economicamente, socialmente e fisicamente. Além disso, ainda convivemos com conflitos políticos: há conflito armado na República Democrática do Congo, e guerras civis no Sudão e em partes da Somália. É uma realidade muito dura, e as mulheres são marginalizadas e profundamente impactadas por essas questões.
Um dos principais desafios que encontramos na comunicação e na construção de narrativas, enquanto desenvolvemos esse trabalho sobre adaptação às mudanças climáticas e liderança das mulheres, é que a mídia não dá visibilidade ao protagonismo das mulheres na proteção do meio ambiente, nem reconhece que são elas que desenvolvem conhecimentos e estratégias para enfrentar os impactos das mudanças climáticas. Minha organização, a Associação de Mulheres da Mídia da Tanzânia em Zanzibar (TAMWA-ZNZ), trabalha para conscientizar as comunidades sobre adaptação às mudanças climáticas e atua com mulheres multiplicadoras, responsáveis por formar outras mulheres. Ao mesmo tempo, trabalhamos com a mídia para dar maior visibilidade às vozes das mulheres. Capacitamos um grupo de cerca de 30 jornalistas para produzir reportagens sobre mulheres e mudanças climáticas. Elas produzem reportagens mostrando como as mulheres são protagonistas no enfrentamento da crise climática, como lidam com seus impactos, quais são as leis e as políticas públicas relacionadas ao tema e outros aspectos fundamentais dessa realidade.
Trabalhamos com todos os tipos de veículos de comunicação, desde a mídia tradicional até as rádios comunitárias, que estão muito presentes nas comunidades, além das redes sociais. Em muitos casos, a comunicação acontece inclusive nos idiomas locais.
Nas aldeias, muitas mulheres não querem falar por diferentes razões. Por isso, jornalistas precisam assumir o compromisso de garantir que essas histórias incluam todas as vozes. Devido ao sistema patriarcal e à forma como a sociedade está organizada em muitos países africanos, as mulheres são educadas para serem mães, esposas e permanecerem no espaço doméstico, e não para exercer liderança ou falar em público. Precisamos, portanto, reafirmar a importância de suas vozes.
Também capacitamos as mulheres para dialogar com a mídia e utilizar os meios de comunicação para contar suas histórias e denunciar os desafios que enfrentam. Hoje, são elas que procuram jornalistas. Essas mulheres têm capacidade de conectar diferentes questões. Elas podem falar sobre mudanças climáticas, mas vão muito além disso. Denunciam a violência de gênero, os problemas na área da saúde e a ausência de políticas públicas.
Eu também sou jornalista e faço parte da equipe de comunicação da Marcha Mundial das Mulheres na Tanzânia, que integra a equipe de comunicação da África. Procuro incentivar essas mulheres, essas jovens feministas, a seguirem firmes em sua atuação. Durante muitos anos fui uma apresentadora de rádio bastante conhecida e procuro colocar essa experiência a serviço do fortalecimento das jovens feministas, para que ocupem espaços, se posicionem e façam suas vozes serem ouvidas.

Sophia Ngalapi, conhecida no movimento como Binti, é jornalista de Zanzibar, na Tanzânia. Integra a Coordenação Nacional da Marcha Mundial das Mulheres na Tanzânia e o Comitê Internacional da organização, representando a África anglófona. Trabalha na Associação de Mulheres da Mídia da Tanzânia (TAMWA) com direitos das mulh
