100 anos de Fidel Castro: a revolução das mulheres na revolução socialista

13/08/2026 |

Capire

Leia o discurso de Fidel proferido em 1974 no congresso da Federação das Mulheres Cubanas

Neste 13 de agosto de 2026, celebramos com as mulheres cubanas o centenário de Fidel Castro. Entre tantos aspectos de seu legado, hoje destacamos sua visão estratégica e comprometida com a organização e emancipação das mulheres como parte integral da revolução.

Desde o primeiro dia dessa revolução socialista, em 1 de janeiro de 1959, o pensamento e condução política de Fidel buscou a construção da igualdade das mulheres. Capire publica hoje um de seus discursos dirigidos às mulheres cubanas. Nesse discurso, Fidel mostra como a igualdade entre homens e mulheres não é uma consequência automática da revolução, mas uma revolução permanente na construção do socialismo, que precisa de definição política e do esforço de auto-organização das mulheres. Por isso, logo em 1960 e com a liderança de Vilma Espín, é fundada a Federação das Mulheres Cubanas (FMC), que hoje organiza milhões de mulheres.

O discurso mostra como a revolução impulsionou uma grande mobilização para ampliar a participação das mulheres no trabalho profissional, com formação em todas as áreas da sociedade. Fidel também compreendia que a responsabilização das mulheres pelo trabalho doméstico e de cuidados era um limite material para a igualdade. As lavanderias e cantinas coletivas, assim como as creches, aparecem como eixo fundamental das políticas sociais para, junto com a batalha ideológica, promover a possibilidade de autonomia e organização das mulheres.

Celebrar a vida e o legado de Fidel é defender o povo de Cuba, sua ousadia e determinação para construir o socialismo. Solidariedade, internacionalismo e anti-imperialismo são legados de Fidel que seguem vivos na firmeza com a qual o povo cubano enfrenta, hoje, o endurecimento do bloqueio criminoso imposto pelos Estados Unidos há mais de seis décadas para tentar, sem sucesso, minar o socialismo. As sanções foram aprofundadas neste ano de 2026 com um bloqueio energético que é um ataque contra a vida diária do povo, um genocídio silencioso que afeta as áreas mais sensíveis.

O impedimento da chegada de combustíveis força apagões de mais de 20 horas diárias. Os impactos no cuidado à saúde é enorme. O bloqueio a tecnologias e insumos faz com que 67 mil crianças não tenham seu esquema de vacinação atualizado, mais de 110 mil pacientes oncológicos não tenham acesso a tratamento adequado, 34 mil mulheres grávidas não tenham acesso a ultrassom no pré-natal e quase 100 mil cirurgias estejam em espera.

Nesse enfrentamento cotidiano, as mulheres cubanas sustentam a dignidade: andam a pé, organizam a comida e o cuidado, criam estratégias coletivas. O povo cubano mantém a prática dos princípios da solidariedade e internacionalismo, constitutivos do socialismo. Como aprendemos com Fidel, solidariedade é compartilhar o que temos, não o que sobra. Em todos os cantos da América Latina, enfrentando os avanços da extrema direita articulada internacionalmente, as organizações populares mobilizam a solidariedade e a fazem chegar a Cuba, organizando doações de medicamentos e outras formas de apoio.

Hoje celebramos o centenário de Fidel reforçando o compromisso com a defesa do povo cubano e da revolução socialista, o que significa a luta pelo fim do bloqueio. Publicamos abaixo um dos discursos que Fidel dirigiu às mulheres cubanas, extraído do livro Mulheres e Revolução, organizado por Yolanda Ferrer Gómez e Carolina Aguilar Ayerra e publicado pela FMC em 2010.

A compilação de textos começa onde começou a própria Revolução: em 1º de janeiro de 1959, em Santiago de Cuba, quando, durante sua primeira fala pública, Fidel se dedicou a denunciar as desvantagens enfrentadas pelas mulheres, afirmando que a revolução também seria para libertar as mulheres. Como Fidel também reconheceu em seus discursos publicados no livro, sem as mulheres a revolução socialista não teria sido possível.

Discurso no Congresso da Federação das Mulheres Cubanas

Havana, 29 de novembro de 1974, ano do 15º aniversário da Revolução

Queridas convidadas,

Queridos companheiros do partido e do governo,

Queridas companheiras da Federação das Mulheres Cubanas,

Chegamos ao fim deste belo Congresso, e não é fácil resumir um evento tão cheio de frutos e de esperanças.

Em primeiro lugar, este não foi um Congresso inteiramente nosso; o compartilhamos amplamente com uma delegação digna e representativa de mulheres revolucionárias do mundo todo.

A presença, neste Congresso, de companheiras tão renomadas como Fanny Edelman, Valentina Tereshkova, Angela Davis e Hortensia Bussi; a significativa presença das mulheres de povos irmãos da América Latina; a presença das mulheres árabes e, em especial, da delegação do heroico povo da Palestina; a presença das mulheres da Indochina, e entre elas as do mil vezes heroico povo vietnamita; a das mulheres coreanas, a das mulheres dos povos revolucionários e progressistas da África, a das mulheres de nossos países socialistas irmãos e a representação das mulheres trabalhadoras da Europa Ocidental, tudo isso não nos diz que aqui estão representadas as causas mais nobres e justas do mundo todo?

(…) Nos países socialistas, a mulher avançou um longo caminho rumo à sua libertação. Mas, se nos perguntarmos sobre nossa própria situação, nós, que somos um país socialista, que já temos quase dezesseis anos de Revolução, podemos afirmar que a mulher cubana alcançou, na prática, plena igualdade de direitos e que está absolutamente integrada à sociedade cubana?

Podemos analisar alguns dados, por exemplo. Antes da Revolução, 194 mil mulheres estavam empregadas. Dessas, segundo um relatório mencionado aqui, 70% faziam trabalhos domésticos. Hoje, temos três vezes mais mulheres trabalhando. O número de mulheres no setor público civil — que, como vocês sabem, abrange a maioria das atividades produtivas, dos serviços e da administração — chega a 590 mil mulheres, de um total de 2.331.000 pessoas empregadas. Ou seja, 25,3% dos trabalhadores são mulheres. No entanto, o número de mulheres que ocupam cargos de direção em todo esse aparato produtivo, de serviços e administrativo é de apenas 15%. Em nosso partido, a militância feminina subiu para 12,79%. Um número notavelmente baixo. E o número de mulheres que trabalham como quadros e funcionárias do partido é de apenas 6%.

Mas temos um exemplo ainda mais ilustrativo, relacionado às eleições para escolher as autoridades do Poder Popular na província de Matanzas. O número de mulheres que se candidataram foi de 7,6%, e o número de mulheres eleitas foi de 3% (…). Os números são realmente motivo de preocupação e devem nos fazer tomar consciência desse problema. Pois, nessas eleições, os candidatos foram indicados pelas massas, e as massas propuseram apenas 7,6% de mulheres como candidatas, embora as mulheres representem aproximadamente 50% da população. E as massas elegeram apenas 3% de mulheres.

(…) É claro que, se compararmos nossa situação atual com a que existia antes da Revolução, os avanços são enormes. Não é sequer possível fazer qualquer comparação entre a situação anteriormente vivida pela mulher e a que ela vive atualmente. Mas a situação encontrada pela Revolução justificou plenamente a criação da Federação das Mulheres Cubanas. Porque nossa experiência nos ensina que, quando um país subdesenvolvido como o nosso se liberta e começa a construir o socialismo, é necessária uma organização de massas como esta, uma vez que as mulheres precisam enfrentar inúmeras tarefas no seio do processo revolucionário. E é por isso que consideramos que a decisão de desenvolver esse movimento feminino, de criar essa organização que nasceu em 23 de agosto de 1960, foi realmente acertada, uma vez que as tarefas que essa organização tem desenvolvido não poderiam ter sido levadas adiante por outros meios.

O que teria sido do partido sem essa organização de mulheres? O que teria sido da Revolução?

(…) Basta lembrar que, entre essas tarefas, muitas delas eram de grande importância. Em primeiro lugar, as tarefas relacionadas à defesa da Revolução e da pátria, a luta contra o analfabetismo, a luta pela educação das filhas dos camponeses, a luta pela qualificação das trabalhadoras domésticas para empregos produtivos, a luta contra a prostituição, a luta pela integração das mulheres no mercado de trabalho, a luta pela criação de creches, as tarefas de apoio à educação, as campanhas de saúde pública, os trabalhos sociais, o aprofundamento da consciência política e ideológica das mulheres e a luta pelo desenvolvimento de um espírito internacionalista no contexto da mulher cubana.

Em todos esses campos, a Federação trabalhou e cumpriu, com êxito, todas as tarefas que lhe couberam. E somente as próprias mulheres teriam sido capazes de realizar essas atividades com tanta eficiência.

Mas agora, nesta etapa atual da Revolução, a mulher tem uma tarefa fundamental, uma batalha histórica a travar.

E qual é essa tarefa? Qual é essa batalha? Vocês conseguem responder?

Qual foi o eixo, o centro das análises e dos esforços deste Congresso? A luta pela igualdade da mulher! A luta pela plena integração da mulher cubana na sociedade!

Essa é, de fato, uma batalha histórica. E acreditamos que esse objetivo constitui, precisamente, o cerne deste Congresso, pois, na prática, a plena igualdade da mulher ainda não existe.

E isso nós, revolucionários, devemos compreender, assim como as próprias mulheres revolucionárias devem compreender. Sem dúvida, não é apenas uma tarefa das mulheres. É uma tarefa de toda a sociedade!

(…) E não vemos motivos para isso assustar ninguém, porque o que realmente devemos temer, como revolucionários, é ter que admitir a realidade de que ainda hoje não existe igualdade absoluta para a mulher no seio da sociedade cubana.

O que deve nos preocupar, como revolucionários, é que a obra da Revolução ainda não esteja completamente concluída.

Evidentemente, nessa falta de igualdade, nessa falta de integração plena, como disse, há fatores de ordem objetiva e fatores de ordem subjetiva. Tudo o que obstaculize a incorporação das mulheres ao trabalho dificulta esse processo de integração, dificulta esse processo de alcançar a plena igualdade. E vocês viram que é precisamente quando a mulher se incorpora ao trabalho, quando a mulher deixa de realizar as atividades tradicionais e históricas, que esses problemas começam a se manifestar.

Ao conversar com algumas companheiras delegadas a este Congresso, elas expressavam com grande satisfação e alegria que, nestes dias, muitos de seus companheiros haviam ficado em casa cuidando das crianças, para que elas pudessem vir ao Congresso. É inquestionável que, se essas mulheres não estivessem integradas à Federação, realizando esses trabalhos, se não fossem militantes da Revolução e se não estivessem participando deste Congresso, tal problema nunca teria se apresentado em seus lares, e nem sequer teria existido a oportunidade de que esses companheiros tomassem consciência de tal necessidade e de tais deveres.

Entre os fatores objetivos que ainda dificultam a incorporação das mulheres à superação e ao trabalho, assinalamos alguns aqui, como a falta de círculos infantis suficientes, de seminternatos suficientes, de escolas de bolsistas suficientes, os problemas relacionados com o horário de funcionamento das escolas1As iniciativas listadas dizem respeito a políticas públicas de educação criadas após a revolução. Os círculos infantis se referem à rede pública de creches criada em 1961 e administrada, em seus primeiros anos, pela própria FMC. Os seminternatos são escolas em regime de tempo integral, e as escolas de bolsistas são aquelas em regime de internato, com bolsa integral custeada pelo Estado., aos quais podemos somar fatores como a falta de empregos suficientes em todo o país para incorporar as mulheres ao trabalho e, evidentemente, o fato de que muitas mulheres não têm o nível de qualificação exigido para esses trabalhos produtivos.

Nessa ordem de coisas, no que se refere aos círculos infantis e à educação, para além dos grandes esforços que a Revolução fez nesses anos, nos próximos anos —particularmente no próximo quinquênio de 1976 a 1980 — será realizado um esforço ainda maior, em primeiro lugar, para satisfazer as crescentes necessidades educacionais do nosso povo e, ao mesmo tempo, para facilitar a incorporação das mulheres ao trabalho.

(…) Há outras questões que não foram mencionadas, pelo menos nas discussões do Congresso, como são as questões relacionadas com as lavanderias, etcétera, etcétera. Mas essas dificuldades de ordem material iremos resolvendo.

Restam agora outras dificuldades a que nos referíamos, de ordem subjetiva. E quais são essas dificuldades de ordem subjetiva? O problema de uma velha cultura, de velhos hábitos, de velhas mentalidades, de velhos preconceitos.

Há administradores que, por exemplo, sempre que possam dar emprego a um homem, não dão o emprego à mulher, por uma série de fatores: porque começam a pensar nos problemas de seu quadro de funcionários, nos problemas da maternidade, nas dificuldades que uma mulher possa ter para comparecer ao trabalho. As razões, os fatores, são muitos. Mas é fato que a mulher é discriminada nas oportunidades de emprego.

(…) É necessário que as regulamentações e a política do partido e das organizações de massas zelem por preservar e assegurar as possibilidades para que as mulheres se incorporem ao trabalho. Primeiro, é uma questão elementar de justiça; segundo, é uma necessidade imperiosa da Revolução, é uma exigência do nosso desenvolvimento econômico, uma vez que, em determinados momentos, a força de trabalho masculina não basta, não basta!

E é por isso que é preciso travar uma luta consequente contra essa mentalidade de discriminar a mulher nas possibilidades de emprego.

Vocês expuseram, aqui no Congresso, outros tipos de dificuldades que as mulheres têm, relacionadas com a casa, relacionadas com o cuidado das crianças e com os velhos hábitos. E vocês propuseram fórmulas para superar essas dificuldades.

(…) É válido perguntarmos quando teremos erradicado os hábitos milenares de pensar, quando teremos derrotado todos esses preconceitos. Não temos nenhuma dúvida de que esses preconceitos serão derrotados. Os conceitos de propriedade que existiam em nossa sociedade antes da Revolução também pareciam difíceis de vencer. E era impossível conceber a vida sem a propriedade privada. E hoje realmente não é possível conceber a vida sem a propriedade socialista dos meios de produção.

Mas restam muitos hábitos dos tempos em que a mulher era também uma propriedade dentro da sociedade. E esses hábitos de pensar precisam ser erradicados. (…) Acredito que todas as resoluções têm grande valor e grande importância. A resolução sobre a mulher trabalhadora, sobre a mulher jovem, a mulher camponesa, as donas de casa e o papel da FMC, o papel da família no socialismo; a resolução especial sobre a participação da mulher na cultura física, na recreação e nos esportes; a resolução sobre o Ano Internacional da Mulher, sobre a solidariedade, e o fervoroso chamado às mulheres cubanas, latino-americanas e de todo o mundo em solidariedade com o Chile. Todas essas resoluções são dignas deste Congresso.

Acreditamos que todos esses documentos devem ser protegidos e estudados. E estudados não só nos círculos da Federação, mas também pelas demais organizações de massas e pelo partido. Porque essas resoluções constituem um verdadeiro programa de trabalho para esta luta histórica, para esta batalha histórica que vocês têm pela frente, para o cumprimento desse dever revolucionário.

Porque, quando nossa Revolução for julgada nos anos futuros, uma das questões pelas quais nos julgarão será a forma como tivermos resolvido, em nossa sociedade e em nossa pátria, os problemas da mulher, ainda que saibamos se tratar de um dos problemas da Revolução que requerem mais tenacidade, mais firmeza, mais constância e mais esforço.

Sobre os preconceitos, já alguma vez contamos o que ocorreu na Sierra Maestra quando fomos organizar o Pelotão “Mariana Grajales”. Encontramos uma verdadeira resistência à ideia de armar aquela unidade de mulheres, o que nos lembra como estávamos ainda mais atrasados há alguns anos. Alguns homens acreditavam que as mulheres não seriam capazes de combater.

O certo é que a unidade se organizou, e as companheiras combateram excelentemente, com tanta coragem quanto poderia ter feito o mais valoroso dos nossos soldados.

(…) Nos dá satisfação ver a força da Revolução nas mulheres; comprovar a qualidade revolucionária das mulheres cubanas, a abnegação, a disciplina, o entusiasmo, a paixão pela Revolução, pelas ideias justas, pela causa justa das mulheres cubanas, demonstrando com isso suas virtudes que — como dissemos em outras ocasiões — são as virtudes que se exigem do militante revolucionário e que as mulheres possuem em grau muito alto. Por isso, acreditamos que nosso partido deve se nutrir mais dessa força, que nosso Estado deve se nutrir mais dessa força, que nosso aparato produtivo deve se nutrir mais dessa força.

A Revolução tem hoje nas mulheres cubanas um verdadeiro exército, uma impressionante força política. E por isso dizemos que a Revolução é simplesmente invencível. Porque quando a mulher adquire esse nível de cultura política e de militância revolucionária, significa que o país deu um salto político muito grande, que nosso povo se superou extraordinariamente, que a marcha da nossa pátria rumo ao futuro já não pode ser detida por ninguém. Só que cada vez deverá ser melhor, cada vez deverá ser superior. Por isso a Revolução é tão forte: por suas organizações de massas, pela consciência política do povo e por seu partido de vanguarda.

(…) Os grandes revolucionários contemporâneos sempre compreenderam o papel da mulher: Marx, Engels, Lenin. Lenin disse algo que se repetiu bastante aqui: que a vitória plena do povo não poderia ser alcançada se a completa libertação da mulher são fosse realizada.

E Martí, o Apóstolo da nossa independência, teve conceitos muito elevados e expressou coisas muito belas sobre a mulher. E não só belas, mas profundas e revolucionárias, como quando disse que as campanhas dos povos só são fracas quando nelas não se inscreve o coração da mulher; mas que, quando a mulher se estremece e ajuda, quando a mulher anima e aplaude, quando a mulher culta e virtuosa consagra o trabalho com o mel de seu carinho, a obra é invencível. Ou ainda quando disse que o alimento natural da mulher é o extraordinário. Ou quando expressou que a mulher, por instinto, avista a verdade e a precede. Ou quando exclamou que a mulher viverá em pé de igualdade com o homem, como companheira, e não a seus pés como um brinquedo bonito. Saibamos ser dignos seguidores das ideias de Marx, Engels, Lenin e Martí!

E sei que no coração dos revolucionários e no coração de todo o povo penetrarão profundamente as justas aspirações e os justos ideais de vocês, as mulheres cubanas.

Pátria ou morte! Venceremos!

Com o feminismo, construímos socialismo!

Introdução por Tica Moreno
Edição por Helena Zelic
Tradução do espanhol por Helena Zelic e Luiza Mançano

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