“Vamos lutar e vamos vencer”: o compromisso pan-africanista por trás da luta por reparação

03/09/2026 |

Nzinga Assata

Nzinga Assata relembra três décadas de organização pela justiça reparatória durante webinário da MMM e do Capire

Afrikan Emancipation Day Reparations March

Recebi meus nomes quando devolvi aos escravizadores os nomes deles. Fiz a mudança por meio de deed poll.1Deed poll é o procedimento legal por meio do qual uma pessoa muda de nome no Reino Unido. Nzinga é uma homenagem à rainha guerreira de Angola que lutou contra os portugueses quando eles chegaram para roubar a terra. Meu segundo nome é uma homenagem a Assata Shakur, uma das principais mulheres do movimento dos Panteras Negras nos Estados Unidos. Ela viveu exilada em Cuba e faleceu recentemente. Barack Obama, um homem negro, colocou uma recompensa de um milhão de dólares por sua captura quando chegou ao poder.

Estou muito envolvida com a luta por reparação desde 2001. Em 2002, um grupo de 96 pessoas do Reino Unido, junto com outras 200 do Canadá e dos Estados Unidos, além de pessoas do Caribe e africanas de várias partes do mundo, se reuniu em Christ Church, Barbados. Ali criamos o Congresso Global Africano [Global Afrikan Congress – GAC], uma organização dedicada à luta por reparação. O objetivo era criar núcleos de pessoas africanas lutando por reparação em todo o mundo africano. Foi assim que começamos, e o GAC continua realizando esse trabalho até hoje.

Aqui no Reino Unido, realizamos os 21 Dias contra o Racismo, com o Brasil. Durante 21 dias, promovemos atividades em diálogo com o país. Também convidamos uma pessoa do Brasil para participar como palestrante da conferência sobre reparação organizada pelo companheiro Glenroy, secretário do Sindicato Nacional dos Trabalhadores Ferroviários, Marítimos e de Transportes (RMT, na sigla em inglês). Todos os anos, o RMT apoia a realização de uma conferência sobre reparação na Inglaterra.

No âmbito internacional, o GAC realizará uma conferência da família na Gâmbia a partir de 6 de outubro de 2026. Ao longo dos anos, fomos ao Suriname, à Gâmbia, a Gana e a Zanzibar, difundindo a luta por reparação.

A agenda pela reparação

Bernie Grant, um dos primeiros parlamentares negros deste país, coordenou um grupo de africanos na década de 1990. Eles se reuniram na Nigéria e formularam a agenda pela reparação. A publicação se chama Os fatos sobre a reparação para a África e os africanos na diáspora [The Facts on Reparations to Africa and Africans in the Diaspora] e foi elaborada pelo Grupo de Personalidades Eminentes sobre Reparações. Eram todos líderes africanos. Entre eles estava o professor Dudley Thompson, que foi embaixador da Jamaica na Nigéria.

Eles realizaram um trabalho extraordinário, apontando o que todas e todos nós precisamos fazer, em diferentes partes do mundo, para exigir justiça reparatória pelos danos infligidos aos povos africanos. Estamos espalhados pelo mundo, em vez de estarmos no continente africano. Como isso aconteceu? Quem é responsável? Precisamos responsabilizar aqueles que causaram isso.

Também temos a campanha Pare o Maangamizi2Maangamizi é uma palavra em suaíli utilizada pelo movimento por reparação na Grã-Bretanha para nomear o genocídio e o ecocídio cometidos contra os povos africanos por meio da escravização, da colonização e de seus efeitos contínuos. O nome completo da campanha é “Stop the Maangamizi: We Charge Genocide/Ecocide!” [Parem o Maangamizi: denunciamos o genocídio/ecocídio!] (SMWeCGEC). e a Marcha por Reparações do Dia da Emancipação Africana, realizada todos os anos em 1º de agosto. Pessoas de toda a Inglaterra se reúnem para dar visibilidade ao trabalho que vem sendo realizado em torno da reparação. Encerramos com uma marcha que parte de Windrush Square,3Windrush Square, em Brixton, no sul de Londres, recebeu esse nome em referência ao navio que, em 1948, levou ao Reino Unido o primeiro grande grupo de trabalhadores caribenhos convidados a participar da reconstrução do país no pós-guerra. Posteriormente, seus filhos e netos, nascidos no país, tiveram seus documentos retirados e foram deportados.em Brixton, e segue até o Parlamento britânico. No início, entregava-se uma petição com assinaturas, exigindo que se chegasse a uma decisão sobre a justiça reparatória.

A Declaração de Durban e o crime contra a humanidade

Em 2009, organizamos um simpósio sobre reparação em Clapham e conseguimos que as Nações Unidas nos doassem 50 exemplares da Declaração e Programa de Ação de Durban. O documento evidencia os danos que foram causados e contém 219 pontos.

Um deles afirmava que a escravidão deveria ter sido sempre considerada um crime contra a humanidade. Como vocês sabem, recentemente Gana conseguiu que as Nações Unidas reconhecesse que a escravização dos povos africanos sempre foi um crime hediondo, um dos piores crimes contra a humanidade. Agora temos esse reconhecimento como um ponto de partida para avançar na luta por reparação. Como resultado disso, recentemente tivemos uma fala do secretário-geral da União Africana, que esteve no Parlamento britânico.

Companheiras à frente da luta dentro do Parlamento

Bell Ribeiro-Addy é hoje uma das principais parlamentares na luta por reparação e, todo mês de outubro, organiza, junto com outras ativistas, uma conferência sobre reparação na Casa das Pessoas Amigas [Friends House], em Euston. Existe também o Grupo Parlamentar Multipartidário para Reparações Africanas [All-Party Parliamentary Group for Afrikan Reparations]. Temos uma companheira guerreira chamada Esther Stanford-Xosei. Ela é advogada e tem sido uma das principais impulsionadoras dessa luta, participando de programas de televisão e rádio e de muitos debates sobre reparação.

A reivindicação da CARICOM e um centro na Jamaica

Há muito trabalho sendo realizado aqui no Reino Unido. Em julho, a Comunidade do Caribe (CARICOM)4A CARICOM, Comunidade do Caribe, criou sua Comissão de Reparações em 2013 e adotou, em 2014, um plano de dez pontos dirigido aos Estados europeus que lucraram com a escravização e o genocídio dos povos originários. O plano exige um pedido formal e completo de desculpas, um programa de repatriação, um programa de desenvolvimento para os povos indígenas e instituições culturais, medidas para enfrentar a crise de saúde pública, a erradicação do analfabetismo, um programa de conhecimento africano, reparação psicológica, transferência de tecnologia e cancelamento da dívida. O Reino Unido é um dos Estados aos quais o plano se dirige, e Charles III continua sendo chefe de Estado de vários países caribenhos. Por isso, a delegação apresenta a reivindicação diretamente a ele, e não apenas ao governo britânico. veio apresentar ao Parlamento seu plano de dez pontos e suas reivindicações. E, no dia 6 de setembro, o grupo completo de representantes da luta por reparação no Caribe virá falar com Charles. Eu não o chamo de rei porque ele não é meu rei, mas é assim que o chamam.

O objetivo é apresentar a Charles e à família real deste país sua reivindicação por reparação. Na Jamaica, foi criado um centro de reparações na Universidade das Índias Ocidentais, que coordena o trabalho em torno da reparação no país. A professora Verene Shepherd é uma das principais coordenadoras desse centro.

Esse é o nosso trabalho, e quero compartilhar com vocês o Compromisso Africano:

“Vamos nos lembrar da glória de nossos ancestrais e honrar a luta de nossos mais velhos. Vamos nos empenhar para trazer novos valores e uma nova vida ao nosso povo. Teremos paz e harmonia entre nós. Vamos amar, compartilhar e criar. Vamos estudar e escutar, escutar para aprender, aprender para ensinar. Vamos cultivar a autossuficiência. Vamos lutar para reerguer e unificar nossa terra ancestral, a África. Vamos criar muitas crianças para nossa nação. Teremos disciplina, paciência, dedicação e coragem. Viveremos de forma exemplar, abrindo um novo caminho para nosso povo. Seremos livres e teremos autodeterminação. Somos um povo africano. Vamos lutar e vamos vencer.”

Nzinga Assata é militante pan-africanista no Reino Unido, onde integra o Global Afrikan Congress (GAC). Este texto é uma edição de sua fala pública no webinário “Feminismo popular e antirracista por reparação e pelo bem viver”, organizado pela MMM, pelo Capire e pela ALBA Movimentos, em 26 de julho de 2026.

Traduzido por Liz Stern

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