na Maldonado faz parte da organização venezuelana Frente Francisco de Miranda e da articulação ALBA Movimentos, onde atua na diplomacia dos povos e no internacionalismo militante. Nessa conversa, que aconteceu durante o Encontro de Comunicadores da ALBA em Caracas, em maio de 2026, Ana fala sobre os processos de solidariedade internacional com a Venezuela, a história da ALBA como um projeto de unidade da Nossa América e o trabalho das mulheres na construção das comunas no país. Em 3 de janeiro de 2026, forças dos Estados Unidos atacaram instalações militares venezuelanas e sequestraram o presidente Nicolás Maduro e Cilia Flores, levando-os para território americano. Maldonado relata esse fato como uma agressão militar e descreve como as organizações populares constroem, a partir dos territórios, uma contranarrativa baseada na unidade.
Esta entrevista foi realizada antes dos terremotos que devastaram sete estados da Venezuela, com epicentro em Yaracuy e tendo La Guaira, Caracas e o Distrito Capital entre as regiões mais atingidas. Diante da tragédia, o povo venezuelano respondeu com o que Ana Maldonado menciona na entrevista: unidade popular, poder popular e as comunas no centro dos trabalhos de resgate e reconstrução, com as mulheres sustentando a vida nos territórios. No Capire, acompanhamos e apoiamos a campanha “Venezuela:Pela Vida!”, impulsionada pela ALBA Movimentos e pelas organizações populares, organizada para salvar vidas, apoiar as comunidades afetadas e mobilizar a solidariedade internacional dos povos. Colaborar com essa campanha significa apoiar essa determinação de lutar pela vida e pela paz.
Como a diplomacia popular e o internacionalismo se concretizam no cotidiano dos territórios? Como as mulheres participam desses processos e como isso contribui para a construção da paz?
A diplomacia dos povos pela paz sempre foi de grande importância para a Revolução Bolivariana. Desde o início, no processo constituinte, divulgamos que novos sujeitos, novos direitos e novas lógicas estavam sendo incorporados à Constituição. Entre esses novos sujeitos estavam as mulheres, as crianças e os adolescentes, a quem nunca mais chamamos de menores; os avós e as avós; as pessoas com deficiência e a população em situação de vulnerabilidade. E também a construção de um sujeito participativo, popular e protagonista, que é o povo: o cidadão e a cidadã com capacidade de participar não uma vez a cada cinco anos, mas de forma cotidiana em seu território.
Isso já estava reconhecido no processo constituinte de 1998 e em todo o conjunto de leis orgânicas do Poder Popular. Reconhecer a luta que vínhamos travando em nossos territórios, nas assembleias de bairro tão importantes nas décadas de 1980 e 1990, é um processo muito interessante.
Somos bolivarianos e bolivarianas, e o internacionalismo militante está em nossas raízes. Não concebemos a soberania nem a construção do poder popular senão no âmbito da união da Nossa América. Já na década de 1980, chegamos à conclusão de que não é possível fazer a revolução em um único país: não há independência, soberania nem autodeterminação se não as pensarmos dentro de um processo de unidade continental, do Sul global.
Quero falar aqui sobre algumas iniciativas de articulação orgânica que foram muito importantes. A ALBA Movimentos surgiu em 2007, em Tintorero, no estado de Lara, após a primeira cúpula da ALBA-TCP (Aliança Bolivariana para as Américas – Tratado de Comércio dos Povos). Foi ali que surgiu a preocupação do comandante Chávez: era importante criar uma instância para que os povos que desejassem aderir aos princípios da ALBA pudessem se reunir, mesmo que seus governos não estivessem articulados. Adotamos essa ideia em conjunto com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra do Brasil; os companheiros do Centro Martin Luther King de Cuba; além de nós, do movimento bolivariano.
A partir daí, esse processo se somou a outras articulações anteriores com sindicatos e associações de trabalhadores, inclusive com companheiros e companheiras dos Estados Unidos, do Canadá e da Europa, que atuavam em espaços mais tradicionais de organização em torno do trabalho e da luta sindical.
Por volta de 2016, após a conferência “Dilemas da Humanidade”, afirmamos que a articulação não deveria ser apenas continental, e sim abranger todos os continentes. Foi assim que a Assembleia Internacional dos Povos, que integra a África, a Europa e a Ásia, começou a ser concebida. Um marco muito importante, embora não se trate de um momento de fundação, ocorreu em 2019, quando foi realizada uma assembleia aqui na Venezuela em solidariedade à Revolução Bolivariana, em um ano marcado por muita pressão. Além disso, os movimentos de mulheres, como a Marcha Mundial das Mulheres, sempre estiveram organizados nessa articulação. O movimento negro e as relações Sul-Sul, entre a América do Sul e a África, vivem agora um momento importante: o pan-africanismo é cada vez mais nosso e mais próximo.
Desde o dia 3 de janeiro, recebemos sete brigadas. A primeira foi a do Processo de Unidade Popular do Sudoeste Colombiano: 57 companheiros que vieram por terra, em uma chiva (caminhão). Foi extraordinário. Eles permaneceram vários dias em uma escola da nossa organização e participaram de uma série de atividades para conhecer as comunas e os locais onde ocorreram os bombardeios, em La Guaira, em Caracas e em Ciudad Tiuna. Tivemos momentos de debate, análise e muita emoção, todo mundo dizia: “Essas pessoas vieram a pé”. Foram muitos dias de caminhada.
Depois chegaram outras sete brigadas com perfis diferentes. A maioria conseguiu participar de experiências de intercâmbio nos territórios, para ouvir diretamente como as pessoas vivenciaram os ataques de 3 de janeiro e quais são as principais preocupações do povo.
A principal preocupação é que nossa diplomacia dos povos e nosso internacionalismo sejam capazes de responder à ofensiva do império, que pretende nos dividir, nos desmoralizar e nos confundir. Estamos nesse processo. Ainda não o resolvemos, mas estamos construindo uma contranarrativa: estamos unidos. Apesar da superioridade militar e tecnológica dos Estados Unidos, após 127 dias de bloqueio naval — que perdura desde 3 de janeiro —, o império encontrou na Venezuela outro tipo de superioridade: nossa unidade popular. A agenda deles é a guerra fratricida; querem ver a gente se destruir mutuamente, como ocorreu na Ásia Ocidental nas décadas passadas, para que possam tomar o território com mais facilidade.
Neste momento, como a solidariedade internacional pode fortalecer, na prática, a soberania popular do povo venezuelano?
Acredito que essa seja a questão mais importante. Hoje, a solidariedade possui a força que sempre almejamos alcançar entre os povos: é um compromisso, não uma doação. Como diziam nossas referências, não se trata de dar o que sobra, mas de compartilhar o que temos. E o que temos? A mesma luta, uma causa comum: mostrar que o que nos move é um longo caminho para alcançar uma sociedade de comunalidade na Venezuela. Isso não acontece da noite para o dia. Há 26 anos resistimos e enfrentamos todos os tipos de guerra híbrida possíveis.
No que diz respeito à solidariedade, é muito importante comunicar esse processo. Precisamos melhorar os canais e as formas de comunicação. Aqui, adotamos o modelo proposto pelo presidente Nicolás Maduro: ruas, redes sociais, meios de comunicação e paredes. Incorporamos também a “rádio bemba”, ou seja, o boca a boca. No entanto, ainda não conseguimos criar mecanismos eficazes para comunicar ao exterior o que acontece aqui.
Atualmente, uma das nossas preocupações é que, assim como tentaram semear a falta de união, a desmoralização e a confusão na Venezuela, estão tentando fazer o mesmo com Cuba. Temos uma campanha para combater isso: “Amor com amor se paga”. O foco é fazer chegar ajuda material a Cuba.
Para você, qual é a atual situação da Venezuela?
Sempre dissemos que passamos por momentos complexos e decisivos, mas este é particularmente complexo. Fomos vítimas de uma invasão, de um ataque militar: 150 aeronaves, armas hipersônicas com temperatura de 3.500 graus para dissolver corpos. Foi alguma coisa atroz, dantesca, que culminou no sequestro do nosso presidente e da primeira-dama, e na morte de 32 companheiros cubanos e 47 venezuelanos. Essa ferida ainda está aberta. Isso nos causa muita indignação e tristeza, mas também nos motiva para continuar aperfeiçoando a luta.
Os Estados Unidos estão testando uma forma particular de ocupação: manter o nosso presidente sequestrado, sob ameaça. Em uma publicação que fizemos, o camarada Prabhat Patnaik fala sobre o modus operandi do imperialismo: aplicar uma série de sanções em uma guerra híbrida, específica para cada país. No caso da Venezuela, os Estados Unidos falam de três fases: estabilização, recuperação e transição, mas sempre após uma rendição total. Esse é o fator que lhes falta: a nossa rendição. Continuamos lutando. O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) continua governando os territórios junto com o povo patriótico, e são as comunas que abrem as portas das escolas, organizam o abastecimento de gás, a alimentação e os meios de produção.
O que eles querem é uma mudança de regime, uma rendição total, para que possam se apoderar dos nossos recursos e da condução política, de modo que tudo fique subordinado aos Estados Unidos. É por isso que este momento é tão decisivo. A direção política da revolução, a presidenta interina Delcy Rodríguez, a Assembleia Nacional, os ministros e o Executivo estão com a revolução nas mãos, sob uma pressão muito complexa. Desde a ordem executiva de Obama, de 9 de março de 2015, nossos recursos foram subtraídos, nossos ativos foram roubados e passamos a ser asfixiados. Como nação, fomos excluídos do sistema jurídico-financeiro: não podemos operar livremente nos mercados globais. Por isso, sob uma lógica de guerra, tivemos que acionar outros mecanismos.
O objetivo agora é exigir a libertação imediata do presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores, e garantir que o processo continue sendo conduzido com as comunas no centro. Conseguimos realizar a primeira consulta em 8 de março, Dia da Mulher, e a segunda já foi anunciada para julho.
É uma situação complexa, pois o imperialismo tenta se apropriar de tudo. Não é uma situação totalmente nova: temos reservas congeladas no Banco da Inglaterra; a empresa Citgo, nos Estados Unidos, está sob um regime de confisco que facilitou a interinidade de Guaidó em 2019; e a petroquímica Monómeros, na Colômbia, teve o mesmo destino. A diferença é que agora eles estão levando o petróleo, administrando-o e afirmando que serão eles que administrarão os nossos recursos. É mais um passo, mas é algo que já existia anteriormente.
Que lembrança, a partir de suas experiências internacionalistas, você gostaria de compartilhar neste momento histórico?
Quando, em 2005, o comandante Chávez mandou a ALCA “al carajo”, lá em Mar del Plata e com tudo que isso significou, ele organizou vários grupos para trabalhar nas missões da Venezuela junto às Nações Unidas, em Nova York e em Genebra. Ele sabia que alguns quadros de nível médio haviam assumido compromissos em nome da República e, juntamente com o então ministro das Relações Exteriores, Alí Rodríguez Araque, fomos revogar os compromissos assumidos perante a ONU em relação à ALCA. O “A” da ALCA significava “área”: uma zona de livre comércio, que representaria a pilhagem das Américas. Tive a oportunidade de acompanhar o grupo de dirigentes políticos que foi primeiro a Nova York e depois a Genebra. Nenhum deles era diplomata de carreira.
As negociações da ALCA eram secretas, restritas apenas aos governos envolvidos. A primeira medida tomada pelo comandante Chávez foi divulgar a senha para torná-las públicas, e todos puderam constatar como grande parte do que estava sendo negociado era inconstitucional em seus próprios países. Posteriormente, a partir da ALBA e do Tratado de Comércio dos Povos, começaram a ser elaboradas fórmulas para a desdolarização, com trocas compensadas e um novo sistema de equivalência.
Temos um manual da ALBA Movimentos destinado aos povos, organizado por eixos de luta. O eixo da soberania sobre nossos recursos é também o eixo que busca uma maior união. Tem o eixo dos feminismos populares, pois são múltiplas as opressões que nós, mulheres, sofremos: mulheres pardas, negras, pobres, jovens e trabalhadoras. Os eixos abrangem raça, classe e grupos humanos, bem como a comunicação e a formação.
O capítulo venezuelano da ALBA está cada vez mais forte: começou com cerca de dez organizações e hoje somos quase 70, de naturezas muito diversas: organizações comunitárias, indígenas, trabalhadoras e trabalhadores, grupos de diversidade sexual, jovens e assistentes sociais. Nos reunimos regularmente. Além disso, trabalhamos para fortalecer os capítulos nacionais.
