O atual sistema alimentar global não está falido: ele funciona exatamente como o capitalismo quer. Esse sistema transformou a terra, a água, as sementes, o trabalho e os alimentos em mercadorias voltadas ao lucro. Em todo o mundo, comunidades enfrentam a apropriação de terras, o endividamento, o deslocamento forçado, a exploração do trabalho e a extração predatória de recursos por corporações transnacionais. Pequenas e pequenos agricultores, camponeses e camponesas, pescadores e pescadoras, povos indígenas, pastores e pastoras e trabalhadores e trabalhadoras rurais estão cada vez mais pressionados entre o aumento dos custos de produção e a queda da renda, enquanto as grandes corporações do agronegócio concentram poder em todas as etapas do sistema alimentar. Instituições internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (OMC) desempenham um papel central nesse processo, levando as pessoas do campo e a própria natureza aos seus limites. Por meio de programas de ajuste estrutural, liberalização comercial, privatizações e desregulamentação, essas instituições subordinaram os sistemas alimentares às exigências do capital global. Em seus acordos e negociações, colocaram o lucro, e não a alimentação dos povos, como princípio orientador.
Em março de 2026, a Via Campesina (LVC) reuniu-se em Yaoundé, nos Camarões, para manifestar sua oposição à 14ª Conferência Ministerial da OMC. Representantes da África, das Américas e do Caribe, da Europa, da Ásia e do mundo árabe participaram de uma semana de debates que culminou na Declaração de Yaoundé: um chamado pelo desmantelamento do atual sistema global de comércio e pela construção de um novo marco para o comércio internacional, fundamentado na soberania alimentar, nos direitos humanos e na solidariedade internacional. O movimento sempre se recusou a legitimar as conferências ministeriais da OMC por meio de sua participação, por entender que essa instituição não possui legitimidade para governar a agricultura e os sistemas alimentares.
Nenhuma reforma será capaz de transformar a OMC em uma instituição a serviço das pessoas. Chegou o momento de construir um novo sistema que coloque em primeiro lugar a dignidade, a soberania e o bem-estar de todos os povos
Adama Bundu, integrante e coordenadora da juventude do Sindicato Nacional dos Agricultores e Agricultoras [National Farmers Union – NFU], do Canadá, organização que integra a Via Campesina, participou do encontro em Yaoundé. Nesta entrevista, ela fala sobre as alternativas que o movimento camponês vem construindo, o significado político da Declaração de Yaoundé e por que a liderança das mulheres nos movimentos é fundamental para ampliar a compreensão sobre a organização dos povos na construção de um novo mundo.
Entendemos a OMC como um mecanismo do capitalismo. Para além de se recusarem a dialogar com essas instituições, que alternativas os movimentos camponeses e as organizações populares estão construindo? Como a Via Campesina pratica e constrói sistemas de comércio e sistemas alimentares para além e contra esses mecanismos capitalistas?
O princípio fundamental é que o alimento é um direito, não uma mercadoria. A OMC trata os alimentos, a terra, as sementes, a água e até mesmo a biodiversidade como produtos que podem ser comprados, vendidos e alvo de especulação. A soberania alimentar rejeita essa lógica. Ela afirma que os povos têm o direito de definir seus próprios sistemas alimentares e que quem produz e quem consome alimentos deve exercer controle democrático sobre sua produção, distribuição e comércio. Isso inclui a recente tentativa, no âmbito da OMC, de transformar a água em mercadoria, chegando inclusive a buscar a privatização do acesso de pescadores e pescadoras às águas de suas próprias regiões.
Em todo o mundo, os movimentos camponeses vêm construindo alternativas baseadas no controle coletivo, na participação democrática e na relação de cuidado que os povos indígenas estabelecem com os territórios. Entre essas iniciativas estão os programas públicos de estoques e reservas de alimentos, que garantem preços mínimos de sustentação para pequenas e pequenos produtores; a defesa da proibição da venda de produtos agrícolas abaixo do custo de produção; restrições aos subsídios para exportações e aos subsídios agrícolas concedidos às grandes corporações; o combate à especulação com commodities alimentares[produtos de comércio internacional]; e a proteção contra a apropriação de terras e a privatização da água. Incluindo iniciativas voltadas à soberania das sementes, empreendimentos cooperativos, a reforma agrária e sistemas alimentares locais e regionais que priorizam as necessidades das comunidades, em vez da produção voltada à exportação.
No centro dessas iniciativas está o desafio ao modelo neoliberal, que trata os alimentos como mercadoria e a agricultura como um espaço de acumulação de capital, e não de reprodução da vida. Em contraposição, os movimentos reconhecem a alimentação como um direito humano e colocam agricultores e agricultoras, trabalhadores e trabalhadoras rurais, povos indígenas, pescadores e pescadoras e comunidades rurais como protagonistas da gestão democrática dos sistemas alimentares. No Canadá, um dos exemplos mais claros dessa alternativa é o sistema de gestão da oferta [supply management], conquistado após décadas de organização camponesa e luta coletiva para fortalecer o controle local e regional sobre as cadeias de abastecimento. O sistema foi criado para proteger produtores e produtoras da volatilidade dos mercados globais de commodities: e ampliar o controle local e regional sobre a produção agrícola. Embora tenha limitações, demonstra que uma agricultura sustentável não deve ser governada exclusivamente pelos interesses das grandes corporações ou pelas forças do mercado internacional.
Por meio da regulação coletiva, esse sistema contribuiu para estabilizar a renda e os meios de vida de agricultores e agricultoras, fortalecer a segurança alimentar nacional e manter a capacidade regional de produção agrícola. Regionalizar as cadeias de abastecimento é fundamental para enfrentar a concentração corporativa e o controle exercido pelas empresas multinacionais, mantendo a riqueza, o emprego e o poder de decisão nas comunidades. Isso também significa defender as terras agrícolas, proteger as bacias hidrográficas e impedir a privatização de recursos essenciais. A água, assim como os alimentos, é um bem comum e jamais deve ser tratada como mercadoria. À medida que interesses corporativos buscam controlar cada vez mais os recursos hídricos e os dados da agricultura, a luta pela soberania alimentar também precisa ser uma luta pelo controle democrático dos sistemas ecológicos que sustentam a própria vida.
A proteção da biodiversidade é central. Minha trajetória está ligada à agroecologia e à agricultura regenerativa, que compreendem a produção como uma relação com a natureza, e não contra ela. Em um sistema agroflorestal implantado em uma fazenda, toda a natureza precisa estar funcionando para que a produção seja sustentável. Essa perspectiva inverte a lógica do modelo industrial, que trata a natureza como um insumo a ser explorado e otimizado em função do lucro de curto prazo. Esse não é um modelo convencional de agricultura, mas um paradigma voltado ao bem comum.
A proposta da Via Campesina fundamenta essas reivindicações em instrumentos internacionais de direitos humanos e de direitos dos povos indígenas, como a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (UNDRIP) e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Camponeses e das Outras Pessoas que Trabalham nas Áreas Rurais (UNDROP). Ela defende que as negociações sobre agricultura sejam transferidas para espaços multilaterais inclusivos, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e o Comitê de Segurança Alimentar Mundial das Nações Unidas (CSA). A questão central é: quem decide? Não devem decidir os interesses corporativos, as instituições financeiras, os fundos de capital de risco, as empresas multinacionais do agronegócio nem negociadores comerciais cuja principal preocupação é a lucratividade e o acesso aos mercados. Eles não falam em nome de ninguém do movimento camponês, sejam trabalhadores e trabalhadoras rurais, povos indígenas, pescadores e pescadoras, povos pastoris ou comunidades rurais. Democratizar os sistemas alimentares não é uma questão meramente procedimental; é uma questão profundamente política.
A recente reunião em Camarões reuniu organizações de todo o mundo, que lançaram a Declaração de Yaoundé, propondo um novo marco para o comércio internacional baseado na soberania alimentar, nos direitos humanos e na solidariedade internacional, tendo como fundamentos a UNDROP e a UNDRIP. Qual é a importância dessa declaração? E o que as mulheres camponesas acrescentam a essa visão?
A Declaração de Yaoundé representa uma retomada de um projeto histórico. O que estamos vendo hoje é um despertar para a violência do neoliberalismo. Cada vez mais pessoas compreendem que ele não foi um experimento fracassado, mas um mecanismo criado para substituir os projetos decoloniais que buscavam construir soberania econômica por meio da reforma agrária, da autodeterminação dos povos indígenas, do investimento público e do fortalecimento da agricultura nacional entre as décadas de 1940 e 1980. Quando esses projetos estavam mais vivos, as potências imperialistas responderam impondo a liberalização neoliberal dos mercados. Mesmo quando os países conquistavam formalmente sua independência, o objetivo era manter o controle colonial sobre suas economias e impedir que a soberania alimentar se transformasse em soberania sobre a terra e, finalmente, em verdadeira soberania dos povos.
A OMC nasce desse contexto político. Surge dos programas de ajuste estrutural impostos pelo FMI e pelo Banco Mundial e da institucionalização da hegemonia do mercado. O que testemunhamos desde então foi a concentração da riqueza, o enfraquecimento das instituições públicas, o aumento da insegurança alimentar, a destruição ecológica e o fortalecimento do poder das corporações multinacionais. Por isso, essa declaração é tão urgente: porque as pessoas já não estão dispostas a aceitar que o neoliberalismo tenha sido, em algum momento, uma resposta. Elas estão voltando aos movimentos que existiam antes dele, recuperando os saberes e o legado de quem trava essa luta há décadas. Essa transmissão entre gerações é fundamental.
Ela também representa, de forma muito específica, uma retomada revolucionária do feminismo. É o capitalismo que institucionaliza a opressão e a violência de gênero, explorando tanto o trabalho produtivo quanto o trabalho reprodutivo, enquanto nega às mulheres o acesso à terra, ao crédito e ao poder de decisão. É o capitalismo que empurra as mulheres para a informalidade e para os segmentos mais precários e arriscados da agricultura. A justiça de gênero precisa ser anticapitalista, justamente porque a análise material demonstra que mulheres e pessoas de diversidade de gênero são aquelas mais vulnerabilizadas pelo sistema econômico global.
As mulheres camponesas e as pessoas de diversidade de gênero costumam ser quem conhece melhor as cadeias alimentares locais e os sistemas de comercialização. São elas que vendem nos mercados, cultivam a terra, preservam as sementes e sustentam as comunidades. Carregam não apenas sua capacidade individual de ação política, mas também a capacidade política coletiva da comunidade e dos projetos decoloniais. O mais bonito em Camarões foi ver isso se materializar. As mulheres não estavam à margem do encontro. Estavam na linha de frente, liderando movimentos agrícolas em diferentes partes do mundo. Esse é o resultado da construção de um movimento que coloca no centro justamente as pessoas mais afetadas pelo sistema que combate. É fruto de um trabalho político consciente realizado pela Via Campesina: estamos construindo um movimento verdadeiramente sustentável e duradouro.
Como seria um sistema comercial realmente baseado na soberania alimentar, nos direitos humanos, na terra, nas sementes, na água e no cuidado com as comunidades para as mulheres camponesas e para a juventude?
Seria um sistema que representasse os interesses dos camponeses e das camponesas, dos povos indígenas, das mulheres, das pessoas de diversidade de gênero, da juventude e dos trabalhadores e trabalhadoras sem terra. Ninguém deveria ser privado do acesso à terra. Precisamos defender o princípio de que todas as pessoas têm o direito de permanecer em seus territórios e produzir alimentos com dignidade.
Seu fundamento seria as relações comerciais voltadas ao fortalecimento da soberania dos povos e das nações e, quando falo em nações, refiro-me às nações indígenas e ao seu direito à autodeterminação, não aos marcos dos Estados coloniais. Muitos Estados foram construídos sobre genocídios, roubo de terras e a expropriação dos povos indígenas. Não é possível falar em soberania alimentar sem reconhecer essa realidade. Os direitos humanos e os direitos dos povos indígenas devem ocupar o centro das relações comerciais, não como um complemento, mas como seu princípio orientador. Os mecanismos de comércio não podem ser transformados em instrumentos de competição predatória e extração; precisam servir a objetivos éticos e decoloniais.
Esse sistema também protegeria igualmente os mercados internos. Não seria um sistema global liberalizado e concentrado, mas um sistema em que cada mercado tivesse espaço para prosperar e no qual o comércio acontecesse apenas quando atendesse aos interesses dos povos, baseado em trocas justas. Os mercados dos pequenos Estados insulares vulneráveis, das comunidades do Ártico e do conjunto do Sul Global seriam fortalecidos, em vez de inundados por importações baratas que destroem a produção local.
Baseado na solidariedade internacional, o comércio seria um instrumento de benefício mútuo, com igualdade na tomada de decisões, prosperidade compartilhada e respeito aos limites do planeta como princípios fundamentais. Sabemos que a terra e o solo não podem ser explorados indefinidamente. Quem melhor compreende isso são os povos indígenas. Hoje, eles são os guardiões da maior parte da biodiversidade que ainda resta e aqueles mais preparados para conduzir sua recuperação.
Seria um sistema em que as pessoas pudessem permanecer em seus territórios sem sofrer expropriação, sem serem expulsas por enchentes, secas ou ondas de calor provocadas por indústrias extrativistas que não assumem qualquer responsabilidade pelos danos que causam. Também seria baseado em sistemas alimentares regionais e em práticas agroecológicas, em vez de cadeias globais de abastecimento controladas por grandes corporações. Um sistema que protegesse pequenos e pequenas produtoras, agricultores e agricultoras, guardiões e guardiãs quem protege a terra, pescadores e pescadoras, povos pastoris e trabalhadores e trabalhadoras rurais, e não o agronegócio. Uma governança do comércio que colocasse no centro as comunidades historicamente colonizadas e marginalizadas, onde mulheres, pessoas de diversidade de gênero e jovens não estivessem à margem dos processos de decisão. Os povos têm o direito de decidir como a terra será utilizada, e não executivos do agronegócio em escritórios corporativos que jamais enfrentarão as consequências daquilo que colocam em marcha. É disso que se trata.
