Durante seu segundo mandato como presidente, Trump e seu séquito vêm avançando rapidamente rumo ao autoritarismo. Após perder a presidência em 2020, enquanto insistia que a eleição havia sido “roubada”, a maquinaria da extrema direita nos Estados Unidos passou a elaborar um plano para implementar sua agenda — conhecido como Projeto 2025 — para o momento em que voltasse ao poder. As políticas reunidas nesse documento incluem o fortalecimento do poder do Executivo, ataques aos direitos de voto, perseguição a jornalistas, repressão à comunidade LGBT+, facilitação de deportações em massa e o desmonte de órgãos públicos e do Estado social. Desde sua eleição, o governo vem implementando essas estratégias ponto a ponto.
No plano internacional, durante seu primeiro mandato, Trump adotou uma abordagem de “América Primeiro”, baseada em táticas econômicas coercitivas, como a renegociação de acordos comerciais — como o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, na sigla em inglês) — para favorecer ainda mais os Estados Unidos, a imposição de tarifas, especialmente contra a China, e o aumento de sanções contra o Irã e a Venezuela. No entanto, essa abordagem não contemplava guerras terrestres em larga escala, já que Trump fez campanha com uma plataforma anti-intervencionista, contrária às “guerras eternas”. Essa posição está sendo revertida em tempo real neste segundo mandato.
Somente no último ano, os Estados Unidos intensificaram ações militares em diversas regiões do mundo — desde bombardeios na Nigéria até ataques a embarcações no Caribe, passando pelo sequestro de um presidente em exercício na Venezuela e, agora, o início de uma guerra aberta contra o Irã.
Os movimentos têm tentado acompanhar esse ritmo, mas o governo Trump avança rapidamente. Embora milhões de pessoas tenham ido às ruas em solidariedade à Palestina e contra o genocídio em Gaza, ainda estamos buscando formas de canalizar essa energia para um movimento antiguerra mais amplo e organizado. Como resultado, as vozes contra a ação militar vão desde veteranos antiguerra e setores progressistas e de esquerda até frações da extrema direita da própria base de Trump, que se sentem traídas por sua guinada repentina em favor da guerra. Como uma aliança que se opõe à militarização e busca conectar movimentos sociais nos Estados Unidos e globalmente, consideramos essencial, neste momento, a articulação das forças populares de esquerda para enfrentar a agressão imperialista dos Estados Unidos.
A expansão da ICE
Enquanto o risco de uma guerra geracional com o Irã aumenta, também houve um crescimento significativo da militarização das forças de segurança dentro dos Estados Unidos, especialmente da agência de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE, na sigla em inglês). A medida legislativa mais importante aprovada pelo Congresso no último ano foi um projeto orçamentário batizado por Trump de Grande e Belo Projeto de Lei Único [One Big Beautiful Bill Act]. Esse projeto incluiu um aumento de 300% no orçamento da ICE, que agora chega a 75 bilhões de dólares.
Como resultado, a ICE está ampliando rapidamente seu número de agentes com pouquíssima supervisão. Estão oferecendo bônus de contratação de 50 mil dólares, reduzindo a idade mínima para ingresso para 18 anos e já foram flagrados ignorando verificações de antecedentes. Uma jornalista que passou pelo processo de candidatura foi rapidamente aprovada e relatou que os entrevistadores afirmavam querer colocar pessoas nas ruas o mais rápido possível — em seis meses — e armadas.
Trump está promovendo essa expansão para construir um exército próprio subordinado ao Executivo, já que a ICE responde apenas ao Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), cuja liderança é nomeada por ele, e aos tribunais federais — onde os poucos juízes que tentaram barrar deportações ilegais foram recentemente exonerados.
A ICE tem separado famílias, detendo tanto cidadãos quanto não cidadãos e disseminado medo de uma forma que remete às milícias itinerantes presentes em diversos projetos fascistas, incluindo as patrulhas escravistas históricas do sul dos Estados Unidos. Táticas como incursões noturnas, perfilamento racial e a exigência de “documentos” têm raízes profundas nessas práticas e na ideologia supremacista branca que ainda orienta muitos dos que ingressam na agência hoje.
Minnesota
No início de 2026, o governo Trump enviou cerca de 2 mil agentes da ICE para Minneapolis como parte de um ataque racista à comunidade somali no estado do Minnesota, que vinha sendo alvo após a divulgação de um escândalo de fraude envolvendo um número muito pequeno de seus membros. Trump se apropriou dessa narrativa e, apesar de a maioria dos imigrantes somalis serem cidadãos estadunidenses, decidiu enviar a ICE para responder à crise que ele próprio criou. A presença massiva de agentes da ICE resultou no sequestro de pessoas de origem latina, nas ruas e em pontos de controle de trânsito, com base em seus sobrenomes ou aparência, enviando-as para centros de detenção fora do estado e acelerando seus processos de deportação.Minneapolis não é uma cidade grande, portanto a presença da ICE tornou-se altamente visível, gerando medo e indignação. A resposta popular foi imediata: pessoas comuns organizaram redes de proteção nos bairros. Apitos eram usados para alertar sobre a presença de agentes, grupos monitoravam placas de veículos da ICE, e comunidades se apoiavam mutuamente por meio de redes de solidariedade, como a entrega de alimentos para populações vulneráveis.
Enquanto as comunidades encontravam força na solidariedade, ocorreram episódios devastadores. Um agente da ICE matou a tiros uma observadora jurídica qualificada, Renee Good, enquanto ela seguia orientações para se retirar do local. Menos de três semanas depois, Alex Pretti, enfermeiro de UTI, foi executado por um agente ao tentar ajudar um membro da comunidade que havia sido derrubado pela ICE. Essas mortes desencadearam um movimento em Minnesota e muitos tomaram consciência da intensidade da escalada fascista.
A segunda onda de mobilizações por Vidas Negras teve início em Minneapolis após o assassinato de George Floyd em 2020, o que significa que há experiência recente em mobilização de massa e infraestrutura organizativa construída entre setores religiosos, sindicais e populares. A população respondeu rapidamente com ações massivas e disruptivas, fechando o aeroporto e organizando uma greve geral semanas depois, mesmo com temperaturas abaixo de zero.
A repercussão nacional dessas mortes, que Trump e sua equipe tentaram, sem sucesso, rotular no tribunal da opinião pública como “terrorismo doméstico”, levou a uma cobertura da mídia significante e à demissão da então chefe do Departamento de Segurança Interna, Kristi Noem. Mesmo assim, o mandato de deportações em massa permanece, e a ICE tem adotado táticas mais discretas, como o uso de pontos de controle de trânsito para verificar o status migratório.
Outras operações
De Los Angeles a Nova York, a ICE ampliou sua atuação. Em todos os locais, houve resistência das comunidades: moradores bloquearam ruas, levaram agentes a seguir pistas falsas, envergonharam publicamente agentes que tentavam fazer detenções até que fossem embora e organizaram formas de dissuasão. Em cidades como Chicago e Washington D.C., a Guarda Nacional foi mobilizada ao lado da ICE. Em resposta, comunidades criaram redes de defesa, organizaram apoio mútuo para quem não podia trabalhar, promoveram formações sobre direitos e realizaram ações diretas.
No caso dos oficiais da Guarda Nacional, os militares na ativa também foram alvo de uma resistência cada vez maior. Uma das organizações integrantes da GGJ, a organização Mudança Radical (do inglês About Face — expressão que significa tanto “meia-volta”, comando militar, quanto uma mudança radical de posição): Veteranos Contra a Guerra”, desenvolveu a campanha “Direito de Recusar” para incentivar integrantes da Guarda Nacional a se recusarem a cumprir ordens, já que se trata de uma força de reserva frequentemente mobilizada em situações de emergência e desastres nacionais, mais do que em outros tipos de serviço militar.
A campanha afirma aos militares: vocês podem se recusar a cumprir ordens ilegais. E, ao se somarem à Mudança Radical, terão uma comunidade que lhes dará apoio. Existem precedentes históricos de recusa a ordens, especialmente em relação ao uso da força contra civis.
Luta nacional
Neste período, também vimos algumas das maiores mobilizações da história do país. O Dia sem Reis [No Kings Day] tem ocorrido diversas vezes ao longo do último ano. Uma dessas mobilizações foi uma das maiores da história dos Estados Unidos, embora tenha recebido pouca cobertura midiática.
Nossos movimentos e forças populares estão articulando as demandas pelo Fora ICE e Não à Guerra junto a Sem Reis, porque o problema não são apenas as ações autoritárias de Trump, mas também as instituições que ele está construindo para impor a dominação dos Estados Unidos no plano internacional e reprimir nosso povo e nossos movimentos sociais no plano interno.
Organizações de movimento também vêm formando militantes e lideranças em táticas de não cooperação e de interrupção, em diferentes escalas, para gerar consequências econômicas ou políticas para quem toma decisões. Um exemplo foi o boicote ao Spotify, após a plataforma passar a veicular anúncios de recrutamento da ICE, o que levou ao encerramento do contrato entre as duas partes. Em Minnesota, o fechamento do aeroporto e a realização de uma greve geral geraram uma pressão pública altamente visível para que o governo contivesse as operações da ICE no estado.
O 1º de Maio deve ser uma mobilização importante nesse processo, com a participação do movimento trabalhista, e como parte da preparação para as eleições de 2028. Será um teste da capacidade da classe trabalhadora e dos movimentos sociais de construir ações que possam levar a uma greve geral — algo que não ocorre em nível nacional há cerca de um século.
A GGJ também tem promovido formação política sobre militarismo, destacando a conexão entre a guerra interna e externa. Organizações integrantes mantêm campanhas como a Desmascarando a Maersk, do Movimento da Juventude Palestina, e ações contra a empresa de vigilância Palantir. Acreditamos ser fundamental iniciar agora o processo de alinhamento entre os movimentos sobre como queremos responder, para que estejamos preparados
A luta pela democracia
À medida que se aproximam as eleições legislativas de 2026, o governo Trump tenta aprovar um amplo projeto de supressão do voto chamado Lei SAVE. A proposta exige que todo o registro eleitoral seja feito presencialmente — inclusive para quem já está registrado — e que a pessoa apresente certidão de nascimento ou passaporte, um documento muitas vezes inacessível pelo seu custo. Na prática, isso pode excluir diversos grupos do processo eleitoral: eleitores de regiões rurais que vivem a muitas horas de um local de registro; pessoas que mudaram de nome, incluindo milhões de mulheres que adotaram novos nomes após o casamento; pessoas que não têm tempo ou recursos para obter um passaporte e se registrar presencialmente; entre muitos outros.
Com os republicanos tendo controle sobre Executivo, Legislativo e Judiciário, Trump busca aprovar essa legislação às pressas porque se seu partido perder mesmo uma das câmaras em 2026, isso nos permitiria usar mais ferramentas para frear a agenda da direita, incluindo autorização para investigações, contestações e outros mecanismos de obstrução.
No topo das possibilidades de ação da Lei Save, há também expectativa de intimidação de eleitores por meio da presença da ICE nos locais de votação. Em 2020, nós organizamos equipes para proteção dos locais de voto. Desta vez, talvez precisemos de ainda mais.
Lições
Os movimentos sociais nos Estados Unidos estão se reorganizando para estancar o sangramento e a destruição promovidos pelo governo Trump, tanto no plano interno quanto no internacional. Diante de um cenário em que seus adversários se consolidaram, construíram uma agenda comum e já a colocam em prática, os movimentos buscam novamente se alinhar e fortalecer formas de atuação conjunta. Há um reconhecimento de que será necessário desenvolver táticas capazes de gerar custos econômicos e políticos concretos para seus alvos, ao mesmo tempo em que se constroem e fortalecem redes comunitárias que possam sustentar a resistência no longo prazo.
Com a intensificação da agressão militar dos Estados Unidos no exterior, torna-se ainda mais urgente que os movimentos sociais no país se articulem além das fronteiras e fortaleçam vínculos internacionais. Ao mesmo tempo, é fundamental reconstruir o movimento antiguerra, tanto no plano nacional quanto no global, como parte central dessa estratégia de enfrentamento.

Margaret Kwateng é diretora de campanhas da Organização da Aliança Popular para a Justiça Global [Grassroots Global Justice Alliance – GGJ]. Vive no Brooklyn, Nova York, e atua na organização popular frente à militarização interna, à repressão migratória e às disputas eleitorais nos Estados Unidos.
