Palestina, Irã e todos os territórios sob ataque: nenhum sofrimento está distante

06/05/2026 |

Elham Abedini

Após os ataques a cidades iranianas no início de 2026, uma ativista compartilha reflexões sobre solidariedade internacional e a linguagem da libertação

“Nenhuma de nós será livre enquanto a Palestina não for livre.” “Não há paz sem uma Palestina livre.” Essas são frases que muitas de nós ouvimos incontáveis vezes. Nós as vimos em faixas, nas redes sociais, nos muros das universidades e em cartazes nas manifestações. Muitas de nós as entoamos em multidões, às vezes com paixão, às vezes quase automaticamente, como se fossem simplesmente parte da linguagem do protesto.

Mas slogans podem facilmente se tornar hábitos. Palavras repetidas muitas vezes podem perder força se nós não refletirmos verdadeiramente sobre o que elas significam. Durante muito tempo, ouvi essas frases da mesma forma que muitas pessoas as ouvem. Eu compreendia intelectualmente. Simpatizava com elas. Mas não posso dizer honestamente que entendia plenamente seu significado. Então algo aconteceu que mudou minha compreensão dessas palavras.

Uma guerra chegou ao meu próprio país, o Irã. De repente, as imagens que costumávamos ver em telas distantes começaram a surgir ao nosso redor. O som das explosões deixou de ser algo que vinha das notícias. O medo e a incerteza que antes associávamos a outros lugares passaram a fazer parte da nossa realidade cotidiana. Naqueles momentos, o significado desses slogans tornou-se mais claro para mim do que nunca.

Durante os ataques, muitos lugares que jamais deveriam ser alvos tornaram-se alvos. Escolas foram atingidas, incluindo uma em Minab. Hospitais foram bombardeados, como o Hospital Gandhi, em Teerã. Escritórios de imprensa foram atacados em cidades como Sanandaj e Bandar Abbas. Edifícios residenciais, casas onde famílias comuns viviam seu cotidiano, foram danificados ou destruídos.

Esses não eram alvos militares. Eram lugares onde as pessoas estudavam, se cuidavam, trabalhavam e viviam.

Também há consequências ambientais. Um dos momentos mais assustadores ocorreu quando o depósito de petróleo de Shahran foi bombardeado. O incêndio foi tão intenso que o céu noturno brilhou como se fosse dia. Chamas e fumaça invadiram o ar. Quando o fogo finalmente diminuiu, a manhã seguinte parecia estranhamente escura sob a densa fumaça que cobria o céu. A destruição não dizia respeito apenas a edifícios ou infraestrutura. Dizia respeito ao ar que as pessoas respiram, ao ambiente do qual dependem e ao futuro que as comunidades esperam construir.

Há poucos dias, vi uma fotografia que não consigo esquecer. Ela mostrava o pequeno pé de um bebê preso sob os escombros, apenas um pezinho coberto de poeira surgindo entre o concreto destruído. Essa imagem me lembrou de muitas outras fotografias que já havia visto, vindas de Gaza. Há anos, pessoas em todo o mundo veem imagens semelhantes vindas de Gaza: crianças sob escombros, famílias vasculhando os destroços, bairros reduzidos a ruínas. Muitas pessoas expressaram solidariedade, muitas compartilharam essas imagens virtualmente. Mas, para algumas, isso continuava sendo algo distante, uma tragédia acontecendo em outro lugar.

Havia quem acreditasse que a Palestina era apenas uma questão regional. Algumas pessoas pensavam se tratar simplesmente de um conflito entre dois lados, restrito a um território específico. Outras viam isso como um problema político complexo que não lhes dizia respeito. Mas quando você começa a ver as mesmas cenas perto de sua própria casa, algo muda na forma como você as compreende.

Você percebe que o sofrimento de civis em um lugar não está isolado do resto do mundo.

A destruição de casas, hospitais e escolas não é apenas uma tragédia para um país. Ela faz parte de um padrão mais amplo de como as guerras são conduzidas e justificadas. O que acontece em um lugar pode abrir precedentes para o que acontece em outros. A história tem nos mostrado isso repetidas vezes.

Ainda nos lembramos das justificativas usadas antes da guerra no Iraque. Alegações foram feitas sobre armas que nunca foram encontradas. Narrativas foram construídas para convencer o mundo de que a guerra era necessária. As consequências dessa guerra continuam moldando a região até hoje. Quando ações desse tipo acontecem sem responsabilização, nos enviam uma mensagem: a de que ações semelhantes podem voltar a se repetir.

Há alguns meses, também houve um ataque contra o Catar, justificado por alegações sobre a presença de determinados grupos. Concordemos ou não com essas alegações, permanece a pergunta: quem pode garantir que justificativas semelhantes não serão usadas em outros lugares? Uma vez ampliados os limites do que é considerado aceitável, raramente eles retornam ao ponto anterior.

É por isso que a ideia de que “nenhuma de nós será livre enquanto a Palestina não for livre” carrega um significado mais profundo do que muitas pessoas imaginam à primeira vista. Não se trata apenas de uma afirmação sobre um território ou um povo. É também um alerta sobre um sistema de poder no qual determinadas vidas são tratadas como descartáveis e determinados lugares são considerados espaços aceitáveis de destruição.

Se o bombardeio de hospitais, escolas e bairros residenciais se normaliza em qualquer lugar, cria-se um padrão perigoso para todos os lugares. E, se o sofrimento de civis em uma região é ignorado ou minimizado, torna-se mais fácil que sofrimentos semelhantes ocorram em outros contextos.

Hoje, muitas pessoas no Irã estão vivenciando medos que pessoas em Gaza e no Líbano conhecem há anos: o medo de explosões repentinas, a incerteza sobre se os edifícios continuarão de pé amanhã, a ansiedade das famílias quando seus entes queridos estão fora de casa. Pais e mães se preocupam com seus filhos a caminho da escola. Trabalhadores se perguntam se seus locais de trabalho ainda existirão. Famílias se perguntam se os hospitais conseguirão atender os feridos. Essas não são questões geopolíticas abstratas. São realidades humanas.

A guerra não destrói apenas edifícios. Destrói a sensação de segurança e reconfigura a vida cotidiana das pessoas comuns.

Outra contradição percebida por muitas pessoas está na linguagem usada por governos poderosos. Os Estados Unidos, por exemplo, frequentemente falam com veemência sobre a defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres. No entanto, em muitas das guerras e ataques em curso nesta região, as vítimas são majoritariamente civis: mulheres, crianças e pessoas idosas que não têm qualquer participação em decisões políticas ou operações militares. Seu sofrimento nos força a fazer perguntas difíceis sobre coerência, responsabilização e o verdadeiro significado dos valores que os governos afirmam defender.

Quando observamos esses padrões em diferentes conflitos, torna-se evidente que essas questões estão interligadas. As lutas dos povos da Palestina, do Líbano, do Irã, do Iraque e de tantos outros lugares não podem ser compreendidas isoladamente. Elas existem dentro de um sistema global de alianças, dinâmicas de poder, estratégias militares e narrativas políticas.

Compreender essa interligação foi o que deu um novo significado a esses slogans para mim. “Nenhuma de nós será livre enquanto a Palestina não for livre” não é apenas uma frase de solidariedade. É reconhecer que injustiças toleradas em um lugar podem, eventualmente, atingir muitos outros. É compreender que a segurança e a dignidade das populações civis não deveriam depender da geografia, da nacionalidade ou de alianças políticas. É lembrar que, por trás de cada manchete, cada estatística e cada debate político, existem vidas humanas, vidas que desejam as mesmas coisas básicas que pessoas em qualquer lugar desejam: segurança, dignidade e um futuro para suas crianças.

Talvez o verdadeiro desafio para todas nós não seja simplesmente repetir palavras poderosas, mas refletir cuidadosamente sobre o que elas exigem de nós. Elas exigem atenção. Exigem empatia. Exigem que reconheçamos a humanidade de pessoas cujas experiências podem parecer distantes das nossas.

Quando compreendemos verdadeiramente essa conexão, esses slogans deixam de ser apenas palavras. Tornam-se um lembrete de que o mundo é mais interligado do que frequentemente admitimos — e de que o sofrimento de qualquer comunidade deveria preocupar a todas nós. Se a injustiça se torna aceitável em algum lugar, raramente permanece confinada ali. E, se a paz deve significar algo real, ela não pode ser seletiva. Ela precisa valer para todas as pessoas.

Elham Abedini é pesquisadora e escritora baseada no Irã. Este artigo é uma versão editada de sua fala no webinário internacional “Voices from the War on Land Day” (Vozes da Guerra no Dia da Terra), organizado pela Marcha Mundial das Mulheres em 30 de março de 2026, Dia da Terra Palestina.

Edição por Helena Zelic
Traduzido do inglês por Liz Stern

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