Trinta anos de transgênicos: promessas não cumpridas e contaminação

30/04/2026 |

Capire

Um balanço crítico das três décadas de culturas transgênicas expõe a concentração do poder corporativo, o aumento do uso de agrotóxicos e seus profundos efeitos ambientais

Três décadas se passaram desde que as culturas transgênicas começaram a ser usadas comercialmente. O resultado é uma lista de promessas não cumpridas e um rastro de contaminação do solo, da água e do ar com glifosato e outros agrotóxicos que invadiram os corpos das pessoas agricultoras, da vizinhança e de milhões de consumidores, com resíduos químicos encontrados na urina, no sangue e no leite materno, como aponta o Atlas do agronegócio transgênico no Cone Sul (disponível em espanhol).

As corporações transnacionais de transgênicos prometeram uma maior produtividade e menor uso de agrotóxicos. Também prometeram cultivos com mais nutrientes, como o “arroz dourado” com vitamina A e outros supostos benefícios. Nada disso se concretizou.

Quatro empresas controlam as culturas transgênicas plantadas em todo o mundo: a Bayer (proprietária da Monsanto), a Corteva (resultante da fusão entre a DuPont-Pioneer e a Dow), a Syngenta (propriedade da Sinochem Holding) e a BASF. Juntas, elas também controlam metade do mercado mundial de sementes comerciais e dois terços do mercado de agrotóxicos.

A propaganda dessas empresas, feita por meio de associações que elas usam para se esconder (como Chilebio, Argenbio, Agrobio México), pretende passar a imagem de que os transgênicos estão presentes em todo o mundo.  A realidade, no entanto — segundo os dados dessas mesmas organizações —, é que a área plantada globalmente com transgênicos não chega a 13% das terras aráveis do planeta, e apenas 10 países são responsáveis por 98% dessa área. Apenas em três países os transgênicos ocupam 80% da área plantada: Estados Unidos, Argentina e Brasil. Em seguida estão o Canadá, a Índia, o Paraguai, a China, a África do Sul, o Paquistão e a Bolívia.

O primeiro país a plantar soja transgênica tolerante ao glifosato foi os Estados Unidos, seguido pela Argentina em 1996. Atualmente, 32 países aprovam o plantio comercial de uma ou mais variedades transgênicas, mas só cerca de dez países têm uma produção significativa de transgênicos. Por outro lado, mais de 150 países não permitem o plantio de transgênicos e 38 países têm restrições ou proíbem ao plantio de uma ou mais culturas transgênicas, entre eles México, Equador, Peru, Belize e Venezuela.

Quatro cultivos ocupam quase toda a área plantada e todos são commodities (produtos de comércio internacional): soja, milho, algodão e canola. Disseram que os transgênicos acabariam com a fome no mundo, mas eles não são usados para a alimentação humana, e sim para a produção industrial. A maior parte vira ração para animais em confinamento e cerca de um terço é usado como combustível e outros fins industriais.

Resumindo: quatro transnacionais controlam todos os cultivos transgênicos, só 10 países respondem por 98% da área plantada, quatro cultivos ocupam 99,4% dessa área (soja, milho, algodão e canola) e só existem dois tipos de transgênicos, mais de 90% deles tolerantes a agrotóxicos e o restante com “inseticidas” à base da toxina Bt, que em muitos casos têm “genes empilhados” para também serem tolerantes a agrotóxicos.

Houve uma redução no uso de agrotóxicos? Não, pelo contrário, o uso aumentou exponencialmente. Como foram modificados para serem tolerantes ao glifosato, o uso desse herbicida — classificado pela OMS como cancerígeno — aumentou mais de 20 vezes. Isso gerou dezenas de ervas daninhas “superpotentes”: plantas invasoras que se tornaram resistentes ao glifosato. Para combatê-las, foi preciso aumentar a concentração e a dose aplicada, e as corporações passaram a vender transgênicos com genes empilhados, tolerantes a vários agrotóxicos, como glufosinato, dicamba e 2,4-D, cada vez mais perigosos.

A produtividade aumentou? Também não. Estudos de longo prazo mostram que eles rendem o mesmo ou menos do que plantas híbridas. Um estudo da organização estadunidense União de Cientistas Preocupados mostrou que, em 13 anos de plantio, o rendimento das culturas transgênicas aumentou apenas 0,2% ao ano, enquanto o manejo agrícola de culturas convencionais e agroecológicas aumentou mais de 10% nesse período. As culturas de milho Bt pareciam render mais, mas foram gradualmente retiradas do mercado porque as lagartas se tornaram resistentes, o que levou ao uso de mais agrotóxicos. Estudos posteriores confirmaram as mesmas tendências.

Todos os transgênicos estão patenteados e as sementes custam até 30% mais caro. As empresas lucram ainda com as milhares de ações judiciais movidas contra agricultores pelo “uso” de genes patenteados, após suas plantações serem contaminadas por polinização cruzada.

Os transgênicos têm sido um desastre para a saúde, a alimentação e o meio ambiente, mas um negócio muito lucrativo para as transnacionais. Em muitos países, foram e estão sendo travadas batalhas que contam com um apoio popular amplo para pressionar a proibição do plantio e do consumo desses produtos. Em todo o mundo, a grande maioria das pessoas, ao ser questionada, responde que prefere não comer transgênicos.

Para manter os negócios e enganar produtores e consumidores, o truque das transnacionais agora é mudar o nome das culturas geneticamente modificadas, chamando-as de “edição genética”. Isso permitiu, por exemplo, que escapassem das leis de biossegurança e rotulagem em vários países, como tentam fazer agora no México. Mas a resistência continua e não vamos deixar isso acontecer.

Silvia Ribeiro é pesquisadora e ambientalista uruguaia radicada no México. Ela faz parte do Grupo de Ação sobre Erosão, Tecnologia e Concentração (Grupo ETC). Texto publicado originalmente no La Jornada.

Traduzido do espanhol por Luiza Mançano
Edição por Helena Zelic
Idioma original: espanhol

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