Convergência global pela transformação sistêmica: a Agenda de Ação Política Comum do Nyéléni

21/08/2026 |

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A Agenda de Ação Política Comum do Nyéléni reúne feminismo popular, soberania alimentar e justiça climática em um guia para a luta para os próximos anos

Cerca de 700 pessoas, integrantes de movimentos sociais e populares de todo o mundo, estiveram em Kandy, no Sri Lanka, durante o 3º Fórum Global Nyéléni, realizado em setembro de 2025. O resultado desse momento de convergência, fruto de anos de processos políticos acumulados, é a Agenda de Ação Política Comum (AAPC). Partindoda luta pela transformação do sistema, esses movimentos e organizações trabalharam ao longo de meses em um documento que traduzisse essa convergência, apontando horizontes comuns e organizando a luta em longo prazo. 

Em 2018, durante a assembleia do Comitê Internacional de Planejamento para a Soberania Alimentar (CIP) realizada na Cidade do Cabo, na África do Sul, os movimentos que já se articulavam desde os anos 1990 em torno da luta pela soberania alimentar e a agroecologia passaram a refletir sobre as mudanças nas conjunturas políticas globais.

O aprofundamento das crises fez com que os movimentos elaborassem uma leitura que conectava os muitos fatores que precarizavam as vidas das pessoas das classes populares. A soberania alimentar só é possível com uma transformação ampla do sistema de opressão. Para organizar um terceiro encontro de Nyéléni em torno de uma agenda comum, foi preciso integrar movimentos e organizações locais e internacionais, povos das florestas, águas, campo e das cidades e mais uma diversidade imensa de sujeitos políticos. 

Paula Gioia, da Coordenação da Via Campesina na Europa, explica que o resultado desse processo é uma agenda poderosa por sua amplitude e complexidade. “Convidamos esses movimentos para participar do processo, porque queríamos criar uma convergência que seria para ficar”, explica. O resultado desse processo é uma agenda que foi “enriquecida com a perspectiva dos outros movimentos e setores que se somaram a ela”, diz Paula. 

Alianças e lutas comuns

A aliança histórica entre a Marcha Mundial das Mulheres (MMM), a Via Campesina (LVC) e Amigos da Terra Internacional (ATI), refletida nesse processo, foi descrita como uma teia por Sophie Dowlar, da MMM no Quênia. Considerando os aportes que as mulheres deram à construção da soberania alimentar e da agroecologia ao longo de décadas, ela defende que suas lutas são respostas simultâneas à crise climática e à crise alimentar. Sophie defende: “a soberania alimentar é a alternativa feminista número um e a conexão entre nós é necessária para seguir construindo movimento e estratégia”.

Um dos aspectos que ampliou a luta por soberania alimentar tem a ver com uma perspectiva também mais ampla sobre quais modelos de economia existem no sistema capitalista, racista e heteropatriarcal, e como os movimentos trazem perspectivas da economia feminista e solidária como alternativa. Essa alternativa parte da ideia de uma economia dos povos que coloca as pessoas e a vida no centro, rejeitando o modelo do lucro acima de tudo.

Sophie falou durante o evento de lançamento da AAPC, realizado em junho de 2026. Para Sophie, “o poder corporativo capturou muitos aspectos das nossas economias, colocando o lucro antes das pessoas e do planeta. Por isso, é muito importante que nossa visão esteja enraizada nas abordagens da economia social solidária e da economia feminista, que colocam a vida, o cuidado, as comunidades e o bem-estar das pessoas no centro das atividades socioeconômicas”. Essa aliança se demonstra nao própriao AAPC, que descreve como os movimentos em convergência aderem “a valores de cooperação, reciprocidade e autogestão, lembrando que a reprodução e o cuidado são os próprios fundamentos da vida econômica”.

Observando as opressões sofridas pelos povos do mundo, Paula situa como a homofobia e a transfobia são produzidas pelo mesmo sistema de opressão que sustenta a misoginia, o racismo e a discriminação por castas. E lembra que reconhecer isso exigiu ampliar o horizonte do feminismo dentro da luta por soberania alimentar. “Até então, o próprio movimento pela soberania alimentar tinha sido muito silencioso em relação a essa visão mais holística das questões de gênero e de sexualidade”, reconhece Paula. A resposta foi usar a própria construção da agenda como formação política das bases.

Na AAPC, a questão das pessoas LGBT+ aparece desde a luta pelo acesso à terra, historicamente negada, à importância de considerar suas especificidades em situações em que a sobrevivência está em jogo. Paula pergunta o que acontece com pessoas LGBT+ em conflitos, crises climáticas e deslocamentos, quando o sistema humanitário trata apenas do mínimo: “essas questões, que para um sistema talvez não sejam as mais relevantes, para essas pessoas são. A libertação coletiva depende também da libertação de cada uma de nós”.

A justiça linguística como ponto de partida

A elaboração dessa plataforma de luta comum exigiu a criação e fortalecimento de espaços de justiça linguística. Todo o 3º Fórum Nyéléni contou com tradução e interpretação para ao menos 18 línguas. Os esforços para a articulação e escrita coletiva da AAPC fizeram parte da aposta política pela convergência, mesmo diante de desafios. Para isso, uma equipe de mais de 70 intérpretes do Coletivo para a Autogestão de Tecnologias para a Interpretação (COATI) esteve presente durante todos os espaços e encontros do processo de construção da Agenda. Essas pessoas integram os sujeitos políticos que a AAPC lista em sua primeira sessão, e a agenda afirma que a justiça linguística vai além dos serviços técnicos de interpretação e tradução, porque é o que possibilita uma participação genuína, plural e transformadora.

“Um dos aspectos mais importantes que colocamos na mesa foi como a possibilidade de se expressar na própria língua transforma a participação”, conta o COATI. “A justiça linguística permite que pessoas que costumam ficar excluídas por não falar as línguas dominantes, o inglês, principalmente, possam militar, compartilhar suas ideias, intervir nos debates e fazer ouvir suas vozes em condições de igualdade”.

Mas, para além da construção de pontes e possibilidades de conexão e trocas, a questão da linguagem também participa do campo de disputas dos movimentos. Paula denuncia como a binariedade de gênero tem ganhado força em espaços que excluem a singularidade das pessoas LGBT+: “quando temos qualquer processo relacionado a gênero nas Nações Unidas, o que alguns Estados imediatamente fazem é cortar a palavra gênero e colocar a palavra mulher.”

Sophie também aponta como os agentes do neoliberalismo historicamente cooptam termos importantes da luta feminista. Ela denuncia: “pessoas ocupam nossos espaços. Usam a mesma linguagem, falam em agroecologia, em soberania alimentar, em feminismo, em sustentabilidade, porque para elas é apenas linguagem. A nossa vai além da linguagem.”

Caminhos até aqui e próximos passos

A AACP foi finalizada depois de meses de trabalho de síntese, a partir do compromisso com a convergência. Os horizontes foram descritos no documento: desenvolver as campanhas, construir processos formativos, organizar as mobilizações, levar a agenda para a construção de políticas públicas coerentes com o trabalho dos movimentos e investir em comunicação popular. Tudo isso, do nível local ao global, considerando os contextos específicos de cada região e movimento.

Esses caminhos já estão sendo trilhados. Em novembro de 2025, movimentos sociais e populares construíram a Cúpula dos Povos frente à COP30. A Cúpula também foi um espaço de encontro entre os movimentos que vinham do processo de Nyéléni e o evento sediou o lançamento da Declaração de Kandy. Em fevereiro de 2026, aconteceu a 2ª Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRADR+20), em Cartagena, na Colômbia. A participação nesse evento fazia parte dos compromissos de Nyéléni, descritos na AAPC. Esse foi um espaço de convergência e de defesa de uma reforma agrária integral e popular.

Esses compromissos seguem se materializando com a realização do 17º Fórum Social Mundial, em Cotonou, no Benin, realizado entre 6 e 9 de agosto de 2026, em que movimentos globais e locais debatem a descolonização e a soberania dos povos, a igualdade de gênero e a justiça climática. E também com a Assembleia Mundial de Pastoralistas, a ser realizada nos dias 15 e 16 de agosto, em Ulaanbaatar, na Mongólia. O evento terá como centralidade a agenda dos povos pastoris, no Ano Internacional das Pastagens e do Pastoralismo, com a presença de lideranças, mulheres e juventudes pastoralistas e de aliadas do processo de Nyéléni. 

Nessas agendas, Sophie defende o papel de cada movimento e organização envolvido: “a economia dos povos não vai emergir sozinha. Vai exigir ação deliberada, compromisso coletivo e organização sustentada. Juntas, precisamos garantir que a Agenda Comum de Ação Política se torne experiência vivida”. Indo no mesmo caminho, Paula diz: “a agenda se torna instrumento real de unidade na ação quando os movimentos que participaram do processo se apropriam dela, colocando o que está na AAPC como parte da sua própria agenda como movimento, e também tomando responsabilidade pela implementação”.

Redação por Bianca Pessoa
Revisão por Helena Zelic

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