No Paquistão, as pequenas e os pequenos agricultores cultivam a terra há gerações. Hoje, políticas impulsionadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) estão desmontando as estruturas de apoio que sustentavam essas famílias: o governo deixou de anunciar preços mínimos para o trigo, autorizou o controle da compra das colheitas pelas empresas multinacionais e destinou imensas extensões de terra à agricultura corporativa. Camponesas e camponeses que cultivam a mesma terra há um século estão sendo expulsas.
As mulheres carregam um peso específico nessa crise. Nas áreas rurais, além de lidarem com o controle e a exploração de suas terras e de seu trabalho, enfrentam estruturas patriarcais que determinam se elas podem ocupar espaços públicos e políticos, ter acesso à educação formal e escolher uma profissão. Organizar-se contra esse sistema fica ainda mais difícil diante da vigilância e das detenções arbitrárias.
Saima Zia vem de uma família de pequenos agricultores do Paquistão. Ela integra o Comitê de Coordenação Camponesa do Paquistão (Pakistan Kisan Rabita Committee), aliança de 36 organizações de agricultores e agricultoras de todo o país. Formada em 2003, a organização tornou-se membro da Via Campesina em 2018 e vem construindo respostas coletivas às condições enfrentadas pelas pessoas do campo no país.
Nesta entrevista, Saima fala sobre o que é necessário para que as mulheres camponesas se organizem no Paquistão, como as políticas agrárias neoliberais estão transformando a vida rural e de que forma os movimentos resistem à repressão estatal e ao avanço da agricultura corporativa.

As políticas neoliberais impulsionadas pelo FMI aprofundaram a crise agrária no Paquistão, aumentando os custos de produção, reduzindo a renda agrícola e expandindo a agricultura corporativa. Como essa crise afeta especificamente as mulheres rurais e camponesas?
O trigo é o principal alimento básico do Paquistão. Durante décadas, o governo anunciou anualmente um preço mínimo para o trigo, o que permitia aos agricultores e às agricultoras vender sua produção por um valor razoável. O governo também comprava a colheita diretamente, armazenava o produto e o distribuía aos moinhos de farinha, garantindo o acesso da população à farinha de trigo. Mas, nos últimos dois anos, o governo deixou de anunciar esse preço mínimo. Isso é consequência direta das políticas do FMI, que favorecem o livre mercado, o que, na prática, significa que grandes empresas podem explorar pequenas e pequenos agricultores e as pessoas que têm pequenos comércios.
Ao mesmo tempo, o governo está destinando grandes extensões de terra à agricultura corporativa e desencorajando ativamente a agricultura familiar. Quando pequenas e pequenos produtores não conseguem obter renda suficiente de suas terras ao longo de um ano inteiro, passam a sofrer pressão para vendê-las. Não ter dinheiro suficiente significa não conseguir alimentar os filhos nem garantir comida na mesa. Há dois anos, realizamos protestos em 30 a 35 cidades do Paquistão exigindo o restabelecimento dos preços mínimos.
Neste ano, o governo voltou a anunciar um preço mínimo, mas ele foi insuficiente. E, em vez de comprar diretamente da agricultura familiar, deu essa autorização a 11 empresas multinacionais. Algumas têm sede nos Emirados Árabes Unidos. Muitas delas são deliberadamente difíceis de localizar. É possível encontrar um site, mas não um endereço real. Essas empresas comprarão o trigo das e dos agricultores e depois o venderão aos moinhos de farinha por preços muito altos, elevando o custo da farinha para toda a população.
Há também a questão da terra. A população camponesa cultiva determinadas terras há mais de 100 anos, alguns desde antes da partição entre Índia e Paquistão. Agora, o governo está dizendo que essas terras não lhes pertencem e devem ser cedidas a empresas para a agricultura corporativa. Pela Constituição do Paquistão, se uma pessoa cultiva uma terra há cerca de 100 anos, essa terra pertence legalmente a ela. Não se pode simplesmente exigir que ela saia, mas é exatamente isso que está acontecendo. Milhares de pessoasresistem a esse processo nas áreas rurais de todo o país, e nós apoiamos esse movimento.
Os processos judiciais ainda estão em andamento nos tribunais. A repressão estatal é severa.
Essa agenda da agricultura corporativa também está ligada ao Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC, na sigla em inglês), a parte paquistanesa da Iniciativa Cinturão e Rota da China. Estradas foram construídas por meio do CPEC, mas os detalhes completos dos contratos nunca foram disponibilizados publicamente, porque o projeto está sob controle do Exército. Nem mesmo os políticos sabem o que consta nesses contratos. A agricultura corporativa faz parte do que está sendo implementado pelo CPEC. Também estamos resistindo e protestando contra isso.
O que você descreve é uma concentração de poder entre governo e corporações. Como os movimentos sociais rurais no Paquistão estão se organizando para enfrentar essa estrutura?
Está cada vez mais difícil se organizar. Sempre que planejamos uma reunião ou um encontro, estamos sob vigilância. Falar sobre essas questões, especialmente qualquer coisa que desafie o Exército, coloca as pessoas em sério risco. Muitas foram sequestradas de suas casas e continuam desaparecidas. Outras foram detidas, torturadas, ameaçadas e libertadas após um ou dois dias.
Conheço um jovem líder estudantil que era muito ativo. Ele discursou em um de nossos protestos. Foi levado de sua casa, e também levaram seu computador. Tentamos encontrá-lo. Depois de uma semana, ele voltou. Ficaram com o computador, tentaram acessá-lo e exigiram a senha. Depois disso, ele abandonou completamente o ativismo. Eu o encontrei uma vez, e ele parecia completamente retraído. Alguns meses depois, veio pedir uma carta de experiência profissional e disse que estava tentando deixar o país. E deixou mesmo. Nunca contou a ninguém o que aconteceu durante sua detenção. Tentamos conversar com ele, pensando que talvez precisasse de apoio, mas ele estava com muito medo. Dizia: “Não posso viver aqui. Qualquer país serve, mas não aqui.” É isso que acontece com quem se manifesta contra a repressão estatal. O espaço está encolhendo. Mas não vamos desistir.
Em 17 de abril, Dia Internacional das Lutas Camponesas, realizamos atividades em 17 cidades do Paquistão. Em Lahore, especialmente, grandes mobilizações nas principais cidades atraem a atenção da mídia tradicional e das redes sociais. Isso deixa o Estado mais nervoso, mas também mais exposto. O que buscamos é construir unidade entre todos os movimentos da sociedade civil, pequenas e pequenos agricultores, organizações de mulheres e sindicatos, porque trabalhar isoladamente já não basta. É preciso agir coletivamente.
Como você descreveria a situação das mulheres no país?
O sistema patriarcal continua oprimindo as mulheres. É muito difícil para elas sobreviverem nessa situação. A idade legal para o casamento das mulheres agora é de 18 anos; essa lei existe. Antes, meninas de 10 ou 11 anos eram entregues a homens de 25 ou 40 anos. As mulheres travaram enormes lutas durante a ditadura dos anos 1980. Havia uma lei chamada Hudood Ordinance(Ordenanças de Hudood). Se você a ler, não saberá se deve rir ou chorar; ela é tão perigosa quanto absurda. Nossas companheiras se organizaram e lutaram naquele período, e algumas leis foram modificadas, mas a visão predominante da sociedade continua profundamente patriarcal. Existe uma lei que permite que vítimas de violência doméstica procurem a polícia, mas, depois disso, uma mulher quase nunca consegue voltar para casa. Ou seja, a lei existe, mas as condições para utilizá-la não.
As pessoas LGBTQ correm riscos muito elevados no Paquistão. Sempre que realizamos a Marcha das Mulheres e afirmamos que todas as pessoas são bem-vindas, somos acusadas de fazer a marcha apenas para proteger pessoas LGBTQ. Ser LGBTQ é considerado crime aqui. O fundamentalismo religioso cresceu fortemente desde os anos 1980 e nunca recuou.
Como as mulheres das bases populares, especialmente as camponesas, estão se organizando para desmontar esse sistema capitalista e patriarcal no Paquistão?
Para as mulheres camponesas e para as mulheres das áreas rurais, participar da marcha de 8 de março é um enorme desafio. As marchas acontecem principalmente em grandes cidades, como Lahore, Islamabad e Karachi. Chegar até a cidade já é difícil. Além disso, nossos movimentos não são bem-vindos pelas estruturas patriarcais que organizam a vida rural. Em outros tipos de manifestações, contra a agricultura corporativa, sobre mudanças climáticas e em defesa dos preços mínimos das colheitas, as mulheres também participam, inclusive aquelas que se organizam nas áreas rurais. Mas, ainda assim, na maior parte do tempo, os protestos e atos públicos são predominantemente masculinos. Para garantir a presença das mulheres, muitas vezes precisamos ir até elas, mobilizá-las e conversar diretamente. É comum que os homens da família não permitam sua participação.
Apesar disso, a Marcha das Mulheres acontece todos os anos em 8 de março. Todas as organizações de mulheres, organizações da sociedade civil e movimentos mais amplos, incluindo sindicatos, participam. Nós nos mobilizamos em Lahore. A marcha sempre foi criticada por fundamentalistas religiosos, pelo governo e pelo establishment, mas nunca deixamos de realizá-la.
Em 2019, mulheres foram presas apenas por falarem sobre questões que as afetam. O mesmo acontece com organizações da sociedade civil em geral. Mantemos o impulso por meio da solidariedade. Nossas lideranças e companheiras se unem e buscam mobilizar mais pessoas.
Não temos dinheiro. Não temos armas. O que temos é o poder do povo. É isso que nos protege da repressão estatal.
Quando organizamos e mobilizamos pessoas nas áreas rurais, trabalhamos por meio das organizações que integram nossa rede.
Há também mulheres que cultivam suas terras de forma independente e conseguem mobilizar outras ao seu redor. A luta continua. É a solidariedade que a sustenta, incluindo a solidariedade internacional. Quando essas vozes ganham visibilidade internacional, na mídia e nas redes sociais, o Estado é obrigado a recuar, ao menos parcialmente, em algumas de suas ações repressivas.
