A soberania dos povos, a integração regional e os impactos das crises sobre os corpos e os territórios das mulheres estiveram no centro dos debates da 1ª Conferência Internacional Antifascista, realizada em Porto Alegre em março de 2026. A Marcha Mundial das Mulheres (MMM) participou do encontro, posicionando como o fascismo e o imperialismo são inseparáveis do patriarcado, do racismo e da exploração colonial e destacando como a organização das mulheres constrói alternativas a esse sistema de dominação.
Nesse espaço, falamos com Solange Koné, militante da MMM da Costa do Marfim. Solange refletiu sobre como os contextos de crise, particularmente na África Ocidental, são sentidos pelas mulheres, que sofrem com a violência cotidiana, com deslocamentos forçados e com a destruição de suas fontes de renda. Diante da presença de grupos terroristas e da exploração imperialista na região, a mobilização popular levou a golpes militares com apoio da população no Mali, Burkina Faso e Níger. Os três países constituíram a Aliança dos Estados do Sahel que, hoje, é uma expressão do anti-imperialismo no continente.
Solange analisa o imperialismo como algo que atravessa seu próprio território e destaca a necessidade de redes de solidariedade entre as mulheres da região. Ela reflete, ainda, que a rejeição à presença francesa e estadunidense deve contribuir para a construção da independência e da autonomia das nações africanas. E aponta, a partir da prática concreta da MMM, o que significa apoiar as mulheres em contextos de crise: enviar recursos, criar espaços de encontro e garantir que suas vozes não sejam silenciadas pelo isolamento. Leia sua contribuição abaixo:

Já há algum tempo, a África Ocidental atravessa uma situação difícil. Terroristas vindos do Sahel avançam sobre a região e o combate ao terrorismo se prolonga. Países como a França e os Estados Unidos foram ao Mali: foi lá que a situação começou a se agravar.
Esses países disseram que vinham ajudar nossa região a combater o terrorismo e a recuperar as zonas ocupadas, onde a população estava sendo massacrada. Mas, em vez de melhorar, a situação piorou.
Os militares tomaram o poder. A França, por meio de países como a Costa do Marfim e o Benim, passou então a pressionar para que Mali, Burkina Faso e Níger fossem sancionados. Chegaram inclusive a ameaçar enviar tropas contra esses três países. A África Ocidental é uma única região: quando um membro está em dificuldade, deve ser apoiado, não combatido com a ajuda de forças externas.
A sociedade civil não aceitou isso. Denunciamos, escrevemos, pressionamos nossos governos. Muitas coisas aconteceram, mas o resultado é que os três países acabaram se isolando. Desde o início, venho dizendo que as pessoas vivem situações graves lá, e que são as mulheres que mais sofrem.
Nesse tipo de crise, não há segurança para as mulheres. Há estupros, sequestros. As mulheres têm seus pequenos comércios saqueados, e já não conseguem trabalhar.
A situação continua grave. Os terroristas bloqueiam a entrada de combustível: incendeiam os caminhões que tentam abastecer o Mali, por exemplo. Sem combustível, as crianças não vão à escola, as pessoas não conseguem se deslocar. Às vezes melhora um pouco, mas rapidamente piora de novo. E o mesmo acontece nos outros dois países.
Hoje, a Aliança dos Estados do Sahel (AES), formada pelo Mali, pelo Burquina Faso e pelo Níger após os golpes de Estado militares, se apresenta como uma resposta ao imperialismo.
Mas deixar a Europa para se voltar para a Rússia não é independência. A África pode seguir seu próprio caminho. Por que devemos estar sempre vinculadas a um ou outro polo de poder, com as mesmas consequências: pilhagem dos recursos, dominação?
Concordo que os três países possam servir de exemplo para uma verdadeira independência, para a gestão de seus próprios recursos, para um desenvolvimento real da região. Mas trocar uma dependência por outra não é o que queremos. Por isso, devemos continuar apoiando nossas irmãs desses três países, para que não se sintam isoladas.
Seguimos criando, na Costa do Marfim, um espaço onde essas mulheres possam se reunir ao menos uma vez por ano, trocar ideias com as irmãs de seus países e de outros países da região, e fazer com que suas vozes sejam ouvidas. O pretexto pode ser valorizar seus saberes, na agricultura, na culinária, mas o essencial é que seja um espaço onde a voz das mulheres seja ouvida no âmbito da Marcha Mundial das Mulheres.
Solange Koné é militante da Marcha Mundial das Mulheres da Costa do Marfim.
