Lutar em tempos de impérios, guerras e caçadas medievais

12/05/2026 |

Llanisca Lugo

Llanisca Lugo faz uma análise sobre os desafios da resistência anti-imperialista na América Latina

Atualmente, os avanços que tivemos nos anos de integração, aproximação e encontro entre os povos latino-americanos e caribenhos parecem ter ficado para trás, e diversos governos da região já não têm vergonha de se aliar a um império violento e criminoso. A capacidade de mobilização da esquerda está em declínio. Os ideais se limitam à nostalgia de referências que já não existem. A academia se perde entre tantos papers. Os partidos se esgotam em ciclos eleitorais. Parece que os sonhos andam vagando por aí sozinhos e que a esperança foi engolida pela perplexidade diante da barbárie.

O imperialismo norte-americano usa todo o seu poder para destruir civilizações e povos que são símbolos de rebeldia e dignidade, sem se importar com as leis que criaram para dominar o mundo como padrões de civilização e progresso. Ao negá-las por meio da força, o imperialismo revela o caráter instrumental que essa ordem sempre teve e mostra que tais leis já não são capazes de impedir os ataques e as guerras que causam cada vez mais sofrimento à humanidade. A chamada ordem mundial, embora tenha servido para algum entendimento entre as nações, não consegue oferecer uma resposta para a crise de civilização que a humanidade está enfrentando.

A expansão imperialista se dá atualmente em um terreno preparado pela esquerda que tentou governar para todos, que acreditou no consenso entre as classes, que pretendia ser nacionalista sem enfrentar o império. Uma esquerda que abandonou o campo da disputa ideológica, só mostrou alguma diferença em relação aos seus inimigos em termos de tática, ficou com medo da tarefa de dirigir a sociedade, rejeitou a possibilidade de superar o capitalismo e teve medo do povo organizado. Fugiu do conflito, reduziu as ações do Estado e, com isso, reduziu a própria base e diluiu seu projeto.

Apesar disso, os movimentos populares organizados na Campanha pelos 500 anos de resistência negra, indígena e popular, que lutaram juntos contra a ALCA, que ampliaram a agenda de lutas no Fórum Social Mundial, e depois encontraram referências na liderança de Chávez e Fidel na ALBA-TCP, que criaram o alicerce para as vitórias de Néstor e Cristina na Argentina, de Evo na Bolívia, de Correa no Equador, de Lula e Dilma no Brasil, impulsionam práticas para uma nova cultura política que não tem nada a ver com horizontalismos paralisantes nem com messianismos de base; uma cultura política que acredita na organização popular, na liderança coletiva e na necessária direção da sociedade.

O movimento popular que percorreu esse caminho deixou para trás a postura de distanciamento em relação à tomada do poder, e faz a disputa a partir de estratégias políticas criadas e colocadas em prática local e nacionalmente, insistindo no trabalho dentro dos territórios, apoiando e pressionando as instituições a lidar com suas contradições, recuperando a formação política, discutindo as debilidades no trabalho de base, articulando processos de união entre os povos e refletindo sobre temas historicamente alheios às posições do marxismo ortodoxo, no desafio de compreender como os sujeitos foram conquistados pelo neoliberalismo para o território do consumo, da competição e do mercado como regulador da existência.

Algumas questões seguem presentes nos encontros que realizam. Onde se formam os tecidos sociais nas novas lógicas de produção de sentido de vida? Onde a comunidade se constrói diante da lógica individualista do capital? Onde reside o principal mal-estar social e como ele é interpretado? Como poderemos politizar esse mal-estar a partir da consciência de pertencer a uma experiência comum a muitas pessoas, que carregam marcas semelhantes, que viram o horror da pobreza sem conseguir sair dela, apesar de todos os esforços?

Essas perguntas podem orientar a batalha de ideias a partir da perspectiva da classe trabalhadora, a partir de seu mal-estar e de suas angústias; no entanto, não são suficientes.

A esquerda deve se empenhar em conduzir a sociedade pelo exemplo. Não basta acompanhar o povo trabalhador, ir às comunidades e enfrentar as transnacionais, os paramilitares e tudo o que ameaça a vida das famílias nos locais onde se revelam as contradições do capitalismo. É necessário criar referências éticas e políticas que possam conduzir os processos sem medo de serem chamadas de socialistas, sem medo do horizonte comunista, com vontade de poder e de vitória.

O vazio ideológico do conteúdo de esquerda não será resolvido pelo silêncio, nem pela omissão diante de temas delicados e difíceis; é preciso debater as relações instauradas pelo neoliberalismo entre socialismo e ditadura, pobreza, isolamento, paralisia e fragmentação. O imperialismo tem trabalhado por essas relações com todos os seus instrumentos: instituições acadêmicas, organizações não governamentais, ajuda humanitária e, é claro, bases militares, tanques e bombas.

O movimento popular que constrói um projeto na ALBA Movimentos superou o distanciamento induzido e formal em relação aos partidos e constrói diálogo com o Foro de São Paulo no âmbito regional, ao mesmo tempo que cria, em cada país, instrumentos para o trabalho político territorial, discute o conceito de partido-movimento e tem consciência de que a sua missão não se limita a denunciar, mas sim mudar a realidade; para isso, é preciso ser capaz de mobilizar o poder popular, essa é a base da democracia que propõe.

Ele se opõe à ortodoxia da nova esquerda e carrega com orgulho a herança e as lições dos movimentos de libertação, das insurgências e das lutas armadas, das forças políticas que o precederam, dos líderes de bairro desaparecidos durante a ditadura e das comunidades eclesiais de base. Esse legado é reconhecido como fonte ideológica e sentido de luta. Sua trajetória está marcada pelo sangue da chamada velha esquerda, a quem tentaram derrotar e desqualificar com base nos erros que cometeu, mas, sobretudo, pelos seus acertos, pela capacidade de massificar um sonho. É preciso continuar recuperando essa tradição, sua estética, seu profundo vínculo com a arte e sua ética humanista.

Um dos maiores perigos que esse movimento popular organizado tem de enfrentar na região está relacionado aos ataques implacáveis contra o Estado. Esses ataques, no contexto econômico da região, limitam o potencial combativo das lutas. Sem disputar o papel do Estado como agente de regulação, distribuição e, sobretudo, integração da sociedade e produção de subjetividade, os movimentos populares seriam meros instrumentos de afirmação da democracia liberal e, assim, apenas testemunhariam a capacidade do capitalismo de se reproduzir nas margens da subversão que ele é capaz de controlar.

Quando a extrema direita promove o enfraquecimento do Estado e transfere suas funções para o setor privado, buscando retrair o Estado e desamparar vários setores da classe subalterna, a opção do movimento popular não pode ser aliar-se a organizações não governamentais ligadas ao capital, por mais magnânimas que pareçam, para suprir, aparentemente, o que deveria ser consagrado como direito. Tampouco deve ser a redistribuição clientelista, criando consumidores em vez de cidadãos. O movimento popular deve disputar o Estado, e isso vai muito além de se preparar para um processo eleitoral; significa ocupar os espaços de poder com mecanismos de prestação de contas e mandato imperativo para seus representantes e, ao mesmo tempo, ter capacidade real de servir de referência para a pressão dentro, com e frente ao Estado, como força que mobilize para as transformações necessárias e que permita que suas ações tenham maior alcance e profundidade. Apesar da barbárie, há uma esquerda que aprende, cria e enfrenta sua própria crise de projeto. Nos últimos anos, o campo popular organizou as conferências Dilemas da Humanidade para refletir sobre questões que pudessem constituir uma agenda de unidade, criou a Assembleia Internacional dos Povos para promover o encontro entre lutas que não estavam conectadas, tem promovido o diálogo entre editora, sustentado redes de meios de comunicação e travado batalhas em prol da arte e da cultura, da espiritualidade e da subjetividade.

Esse acúmulo faz parte de um campo de forças e tensões. Ao debatê-las nas fábricas, nos bairros, nas igrejas e nas redes sociais, podemos encontrar juntos a melhor maneira de lidar com elas. Mas quero falar de uma delas especificamente: a distância em relação ao povo, a dificuldade de manter um diálogo com o conjunto da sociedade, inclusive com a classe trabalhadora, em um momento em que é preciso disputar o imaginário e a hegemonia do capital.

Diante das dificuldades para disputar o espaço no ecossistema midiático, os movimentos populares devem assumir o desafio de dialogar com o conjunto da sociedade e ampliar o alcance da mensagem para disputar as ideias, indo além do cerco de argumentos que o capital impõe para criminalizá-los e paralisá-los.

A comunicação é um ato político com uma importante função de educação e integração. Deve ser direcionada a toda a classe trabalhadora, não apenas às bases das organizações, e sim a esse vasto exército de trabalhadores e trabalhadoras que educam seus filhos em meio à crise, que saem para trabalhar e traduzem e interpretam o projeto de acordo com os desafios de sua realidade. Embora pouco interpelado, esse sujeito não é um sujeito é despolitizado, mesmo que não pratique uma militância política. Ele ouve notícias sem ter tempo para verificar as fontes, precisa se orientar para correr o menor risco possível, tem que sobreviver à hostilidade do ambiente e buscará as saídas mais curtas e seguras. No entanto, esse exército também carrega uma noção de justiça.

Em tempos de crise, os interesses podem se distanciar das necessidades; por isso, o papel do movimento popular tem sido e deve continuar sendo o de formar consciência, desenvolver capacidade crítica para uma prática teórica e política, e fazê-lo a partir da própria combatividade que emerge da luta pela sobrevivência, pois é aí que se encontram as alternativas cotidianas que podem se transformar em uma força consciente, organizada e crítica para a transformação da sociedade.

Ao longo da história, o povo sempre se identificou com um ideal, uma causa que o motiva e é fonte de orgulho, que tem sentido em si mesma, independentemente da possibilidade de vitória. Ser radical em relação aos problemas que o povo identifica não consiste apenas em visitar territórios ou falar a sua língua; é necessário um projeto de justiça e de futuro que se proponha a vencer, com poder real.

A esquerda se afasta do povo quando não tem uma proposta nova, não encontra força em seus ideais e não há uma figura de referência capaz de promover a unidade na liderança por meio de seu exemplo e coerência. Não se trata de uma questão organizacional, embora possam ser tomadas decisões operacionais; trata-se de uma crise de projeto que está intimamente ligada à crise do sujeito.

O significado de ser de esquerda tornou-se tão ambíguo que já não funciona como orientação para os campos políticos. Aquilo a que chamamos de esquerda, que aqui estamos considerando na experiência do movimento popular, constitui-se no próprio processo de luta e na autocompreensão dessa luta. Muitas vezes, ela se forma na periferia dos despossuídos de pão e de cultura. Não é um sujeito definitivo, nunca se forma completamente, constitui-se no percurso irregular da tomada de consciência; por isso, precisa do coletivo, de sua companhia, de sua confiança, de sua inspiração e também de sua pressão. Forma-se nas tarefas cotidianas, nas negociações com as instituições, na produção de alimentos com soberania, nas mobilizações — esses momentos de agudização das contradições que aceleram os processos.

A distância da esquerda em relação ao povo se torna mais complexa quando a mobilização popular se enfraquece e recua, o que, paradoxalmente, ocorre com maior frequência em governos progressistas. A força popular organizada altera o equilíbrio de forças que permite alcançar uma vitória eleitoral, mas essa vitória acaba não se traduzindo em maior força para o campo popular.

O papel do movimento popular é lutar pelo projeto, formar os participantes do projeto, defender o horizonte a cada passo, fortalecer o tecido social que é fonte de poder, tendo como referência a defesa da soberania frente ao imperialismo, a soberania de todos os povos do mundo.

A resistência contra o imperialismo, em qualquer parte do mundo, é uma resistência em nome da classe trabalhadora, em nome das pessoas oprimidas, em nome de uma história de colonização comum a povos que precisam se conhecer melhor, contar melhor de onde vêm e não soltar a mão uns dos outros na busca por seus horizontes.

O sujeito de esquerda deve comprometer-se a conhecer o mundo. Para isso, o movimento popular retomou seus processos de formação em escolas, brigadas de intercâmbio e processos produtivos, onde a arte da resistência ocupa um lugar central e as formas de vida são fonte de reflexão. Assim, o movimento popular participa da disputa pelo senso comum para despertar a indignação ética que mantém acesa a esperança do mundo no qual merecemos viver e do qual já tivemos belos exemplos.

No ano do centenário de Fidel, um pequeno barco parte do México com bandeiras palestinas para dizer ao povo cubano que ele não está sozinho; um poeta pede seu rifle para defender a pátria; um grupo de crianças canta uma canção do poeta armado. Um pequeno barco e suas bandeiras, um poeta, uma canção, um rifle, falam da força da beleza e do valor do sonho defendido contra todo império e suas guerras, contra todo cerco ou caçada medieval. Até a vitória!

Llanisca Lugo mora em Cuba e integra a coordenação política da ALBA Movimentos Este artigo foi publicado originalmente na Revista América Latina em Movimento n.º 560.

Traduzido do espanhol por Luiza Mançano
Revisado por Helena Zelic
Idioma original: espanhol

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