Argentina: mulheres em movimento sustentam a vida no campo e na cidade

Conheça experiências de mulheres que organizam os cuidados e a solidariedade em seus territórios

Por Capire

Durante a 3ª Assembleia Continental da ALBA Movimentos, Capire reuniu relatos de experiência de diversas mulheres que atuam diariamente para sustentar a vida em suas comunidades. São mulheres organizadas, que estão nos espaços coletivos e comunitários e nos movimentos, e também mulheres que estão, atualmente, participando de espaços institucionais, tanto no legislativo como no executivo.

Diante da crise econômica deixada pelo governo neoliberal do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), assim como das dificuldades impostas pela pandemia de covid-19, os movimentos populares e feministas organizam resistências e alternativas. As mulheres estão na linha de frente desse processo, garantindo os cuidados, a saúde, a educação básica, a alimentação e a agricultura familiar. São as mulheres que sustentam a economia, ou seja, que garantem a existência e o crescimento das vidas humanas e não-humanas.

Solidariedade, saúde e educação

Sol de la Torre, vereadora de Mar del Plata e militante da Frente Pátria Grande e do coletivo Mala Junta, relatou que, durante a pandemia, a impossibilidade de ir à escola gerou dificuldades de aprendizado para boa parte das crianças. Por isso, uma ação organizada pelo coletivo foi “um chamado geral, em que muitas companheiras se somaram, e o que fazemos é, com os adultos, alfabetização, e com as crianças e adolescentes, reforço escolar, para recuperar a dinâmica escolar e para evitar a evasão”. Também formaram uma brigada de saúde, que comparece em províncias e territórios onde o Estado não chega, com a participação de pessoas que trabalham como enfermeiras, psicólogas e médicas.

A formação é um dos pilares das ações do coletivo Mala Junta. “Na nossa Escola de Formação Feminista Berta Cáceres, nós nos juntamos às companheiras que trabalham nos territórios e que muitas vezes conseguem um salário social complementar, pelo reconhecimento do trabalho no enfrentamento à violência. Também trabalhamos pelo reconhecimento das tarefas de cuidados, e por isso nos aproximamos das lideranças dos espaços sóciocomunitários e de cuidados, dos comedores[1], dos espaços para as crianças, das brigadas de educação e saúde: para fortalecer esse feminismo popular construído a partir da solidariedade nos bairros”.

María Rosa Domes participa do movimento Evita em Ezeiza, na periferia de Buenos Aires. Ela faz parte da organização de um comedor popular, onde dá apoio escolar. “Tem crianças de dez anos que não sabem ler. Crianças que não sabem escrever. Isso dá muita angústia”. “Eu faço atividades didáticas, mas faço a partir da aprendizagem, ou seja, não são jogos com dados para entretê-los, mas para aprender as letras, os números, as figuras. Parece pouco, mas para nós e para o bairro é muito importante”.

Ela também afirma que a construção da solidariedade é algo permanente, diário, e que é uma tarefa do povo: “Nós trabalhos muito com a solidariedade. Se acontece algo com algum companheiro, com alguma vizinha, nós estamos lá. Vemos as necessidades básicas. O capitalista não é solidário. As pessoas que têm menos são as pessoas mais solidárias”.

“Os momentos em que a gente se encontra são fundamentais, e é fundamental que as companheiras jovens acompanhem esses processos, para apoiar nosso convencimento de que é possível seguir no território, sem abandonar o campo, e continuar produzindo. E, ao mesmo tempo, a gente pode se articular com as companheiras de outras organizações sociais”, também disse Cecilia Rodríguez durante o painel sobre as lutas das juventudes, na Assembleia. Cecilia faz parte do Movimento Nacional Camponês Indígena e da juventude da Via Campesina, que vem discutindo a soberania alimentar, a agroecologia, a reforma agrária integral e o feminismo camponês e popular.

Cultivar diversidade

“Particularmente na pandemia, foram as mulheres que se organizaram para fazer comida e distribuir. Companheiras que dizem ‘vamos doar nossos alimentos, vender por cinco pesos’,  o que não é nada aqui”, contou Elsa Yanaje, agricultora e dirigente do setor rural do Movimento de Trabalhadores Excluídos (MTE Rural). Elsa vive na área conhecida como “cinturão verde”, em La Plata, nomeada assim por contar com uma forte produção de frutas e hortaliças durante o ano inteiro.

Cerca de cinco mil famílias compõem a organização, que experimentou uma expansão dos territórios e das províncias durante seus sete anos de existência porque reúne “um monte de companheiras e companheiros que vivem essa exclusão de não pertencer ao Estado como produtor, como trabalhador”. Organizar-se em movimentos populares é a única forma de ser ouvida, de propor uma sociedade livre de exclusões. Elsa relata que “estamos excluídos das políticas públicas. E na Argentina, sempre que há uma catástrofe climática que ameaça a produção, são os latifundiários são os primeiros a pedir ajuda e os primeiros a ganhar. No entanto, os pequenos ficam excluídos”.

“É necessário garantir que as famílias possam produzir com dignidade, e isso passa pela produção agroecológica”, diz Elsa. Por isso, o movimento tem trabalhado para organizar bancos de sementes próprios, impulsionar experimentações em biotecnologia sustentável e criar espaços de formação. “As questões do campo não são apenas para aqueles que vivem no campo, mas envolvem também aqueles que compram de nós, e eles têm que saber de onde [a comida] vem, como nós produzimos”.

Como bem explicou Cecilia, “a agroecologia não é moda, é um modo de vida, é algo que passa por aquelas e aqueles de nós que decidimos continuar produzindo no território. São saberes compartilhados e articulados. A agroecologia é uma escolha que fazemos e que mantém a saúde das nossas companheiras e companheiros nos territórios”.

A produção agroecológica exige o direito à terra. Como acontece muito em La Plata, as agricultoras e agricultores produzem em terras alugadas, em contratos que não lhes dão o direito de produzir integralmente de forma agroecológica, e sim seguindo a demanda do mercado, que é acelerada e exige o uso de pesticidas. Por isso, afirma que “uma das nossas lutas particulares é o direito à terra, diante do avanço do agronegócio e das questões comerciais que estão nos expulsando. As áreas produtivas estão sendo urbanizadas, nossa produção não é respeitada e muitos de nós estão desaparecendo”.

Protagonismo das mulheres na luta e na labuta

Ofelia Fernández, a vereadora mais jovem de Buenos Aires, colocou na mesa a importância do feminismo durante o painel da Assembleia sobre juventude: “eu acho que os parâmetros da realidade, depois do que aconteceu com a gente no mundo, não são mais os mesmos; nós não somos mais os mesmos. É preciso pensar sobre onde temos a possibilidade de reinventar ou relançar nossas agendas. Um dos movimentos que tem tido muito poder é o movimento feminista. Foram muitas as conclusões que o movimento feminista chegou após a pandemia, por exemplo, a de garantir e reconhecer os cuidados”. Ofelia coloca a importância de ver os cuidados de forma ampla, no conjunto da sociedade, para poder valorizá-lo e mudá-lo: “não é apenas o cuidado de ‘isso que chamam de amor é trabalho não remunerado’, mas também os cuidados comunitários, nos comedores, na distribuição de alimentos e refeições. Na crise sanitária, vimos que o trabalho mais precário na saúde é na área de enfermagem, que não por coincidência é o mais feminizado.”

Fortalecer o feminismo é impulsionar a auto-organização das mulheres, mas também o protagonismo das mulheres nas lutas do povo e nos movimentos mistos. “Para nós é um orgulho contar com companheiras dirigentas, porta-vozes, lideranças que estão espalhadas no país inteiro, sustentando cada unidade de produção em particular”, relatou Elsa, que avalia que a condução de sua organização se abriu mais para as mulheres nos últimos anos, com a organização de assembleias e demais espaços participativos. Para ela, “as mulheres são vida nesse sentido, quando se esforçam em tudo o que fazem: em resistir, em persistir, em ter a coragem de dizer isso em voz alta. Não nos calamos mais, e isso é um grande orgulho para nós”.

Nos comedores e brigadas, María Rosa Domes relata que o trabalho é feito por homens e mulheres, conjuntamente, sem discriminações. “O neoliberalismo e a diferença são muito fortes na Argentina. Isso nos incomoda muito, e é por isso que tentamos integrar a todos. Organizamos espaços de formação política, que estão muito abertos à vizinhança e à sociedade. Nosso papel é o de conscientizar que todas e todos somos um”.

Segundo Sol de la Torre, na Argentina tem sido feita uma sistematização consistente sobre o trabalho. “Existe uma divisão sexual, de raça e de classe que faz com que os trabalhos mais importantes, que sustentam a vida, sejam os menos reconhecidos e mais mal remunerados. Todas as tarefas de educação e saúde são realizadas por mulheres”, diz ela, e completa: “ao mesmo tempo, com um movimento feminista tão forte, tivemos muitas vitórias na Argentina, como o reconhecimento das trabalhadoras domésticas, que caminha de mãos dadas com um programa que fortalece o registro em carteira dessas mulheres”.

O feminismo está presente em todos esses espaços de resistência, e é com sua irreverência e visão crítica que as mulheres integram as lutas pela reorganização do trabalho e para colocar a vida no centro. Para Ofelia Fernández, “Precisamos de criatividade e auto-estima para acreditar que existe um processo alternativo de país, de continente e de mundo, para acreditar que podemos ser a geração que construirá um novo ciclo, um novo tempo. Estamos nessa busca: se reunir, compartilhar caminhos e horizontes. É uma contribuição necessária, é um primeiro passo, mas devemos continuar avançando para poder, em breve, afirmar que a política não encerra ou produz miséria, pelo contrário, produz felicidade”.


[1] Os comedores populares ou comunitários, também conhecidos como ollas populares em alguns países da América Latina, são experiências de restaurantes populares criados por organizações sociais e comunitárias, sobretudo nos bairros mais pobres e nas periferias das cidades, como forma de garantir a alimentação básica para seus habitantes.

Redação de Helena Zelic
Edição de Tica Moreno
Citações em espanhol traduzidas por Luiza Mançano

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