Jadiya Ali Mohamed nasceu em 1993 e cresceu em um dos cinco campos de refugiados localizados no sudoeste da Argélia, que abrigaram os primeiros saarauís exilados após a ocupação ilegal de seus territórios por Marrocos e pela Mauritânia em 1975 e a consequente guerra com a Frente Polisário.
Somos duas nações totalmente diferentes. Obviamente, não temos laços de soberania, nem culturais, nem sociais, nem linguísticos, nem de qualquer outro tipo.
Devido à construção dos sucessivos muros marroquinos que separam o território ocupado das terras controladas pela República Árabe Saarauí Democrática, Jadiya não conhece pessoalmente muitos de seus parentes diretos. Hoje, ela faz parte da União Nacional de Mulheres Saarauís e leva a luta pela libertação do Saara Ocidental a todos os lugares.
É uma contradição Marrocos afirmar que o Saara Ocidental lhe pertence, sendo membro da União Africana, onde também está presente o Estado saarauí”
Em entrevista à Rádio Mundo Real, compartilhada pelo Capire, Jadiya cobra maior pressão internacional contra Marrocos, especialmente por parte do povo espanhol. A Espanha, que se retirou do Saara Ocidental em 1975 sem ter concluído o processo de descolonização, continua sendo a potência administradora desse território perante a Organização das Nações Unidas (ONU). Desde então, está pendente a realização de um referendo no Saara Ocidental para a população decidir se quer um Estado independente ou não.
Esta entrevista foi realizada durante o 9º Workshop sobre Impunidade Corporativa e Direitos Humanos, que ocorreu em julho de 2025 em Maputo e foi organizado pela Justiça Ambiental JA! – Amigos da Terra Moçambique. As organizações reunidas no evento aprovaram uma declaração em solidariedade ao povo palestino e ao povo saarauí, que está disponível em português, inglês e francês. A entrevista completa em espanhol está disponível em áudio no site da Rádio Mundo Real. A seguir, é possível ler uma versão traduzida e resumida.

Como era e como é o acesso à alimentação e aos serviços em um campo de refugiados?
Obviamente, os primórdios não podem ser comparados à situação atual dos campos de refugiados. Dependemos muito da ajuda humanitária, das operações das agências da ONU e das organizações não governamentais (ONGs) internacionais. Por não termos acesso aos nossos recursos naturais – já que a maioria deles, para não dizer todos, está sob ocupação e é saqueada –, o Estado saarauí e sua população vivem de ajuda externa proveniente de ONGs, agências da ONU e de Estados aliados.
A maior parte dos campos foi construída por mulheres, pois a maioria dos homens estava envolvida na Frente Polisário, nosso movimento de libertação nacional, lutando contra a ocupação marroquina. As mulheres, além de terem criado os acampamentos no início – formados, em sua maioria, por jaimas, as tendas em que moramos –, também garantiram a organização de serviços como educação, saúde, organização social e algum nível de segurança.
No início, havia duas ou três ONGs; agora, há muitas. Atualmente, temos acesso, por exemplo, a alimentos frescos, ainda que em pouca quantidade, mas pelo menos a cesta de alimentos que recebemos como ajuda humanitária está mais variada. Os serviços e a educação também estão melhores do que antes; não são ideais, não estão no nível necessário, mas pelo menos estão muito melhores.
Quais recursos naturais saarauís estão localizados no território ocupado por Marrocos e que tipos de projetos existem nessa área?
Temos recursos naturais como o fosfato, na mina de Bucraa; a pesca, com águas muito ricas em peixes; e temos projetos de exploração de gás e petróleo que estão sendo aprovados por Marrocos, além de projetos de energias renováveis, como eólica, solar e outras.
São projetos que já duram anos, sobretudo os de fosfato e os de pesca. Há muitas empresas internacionais da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia responsáveis por eles. Acho muito curioso ver em alguns relatórios que Marrocos é o segundo maior exportador de fosfato do mundo. Não é Marrocos. Esse fosfato é um dos principais recursos saqueados de um território ocupado: o Saara Ocidental. Um dos grandes beneficiários dessas explorações e dessa pilhagem é a União Europeia. E a população saarauí é a primeira a ser atingida, pois todos os impactos negativos dessas explorações, que já duram anos, décadas, recaem sobre quem vive lá.
Quais são as consequências desses projetos?
Estamos falando de degradação ambiental, poluição da água e do ar. Por exemplo, nas áreas próximas a Bucraa, onde fica a mina de fosfato, a poluição do ar tem causado problemas de visão, pneumonia e outras doenças respiratórias na população da região.
Parte da comunidade saarauí é nômade por natureza; é um estilo de vida. O meio de subsistência dessas pessoas, muitas vezes, é o rebanho que possuem: os camelos. Assim, a concessão de áreas para a exploração de gás e petróleo faz com que essas populações sejam obrigadas a retornar às cidades, que não são o habitat delas, pois não sabem viver nesse ambiente, ou tenham que se deslocar para outros lugares onde não querem estar. Trata-se de um reassentamento, de uma restrição à circulação.
Organizações internacionais denunciam prisões arbitrárias por parte de Marrocos, torturas e desaparecimentos forçados de ativistas e jornalistas. Desde 2014, o país expulsou do Saara Ocidental pelo menos 329 observadores internacionais. O que você diz sobre isso?
A situação dos direitos humanos é péssima, inimaginável, indescritível. Marrocos busca silenciar as pessoas que defendem os direitos humanos, qualquer pessoa que se atreva a defender a libertação do Saara, do Saara Ocidental, ou que fale sobre a ocupação. Essas pessoas enfrentam consequências graves, prisões arbitrárias e até mesmo desaparecimentos. Há várias pessoas saarauís cujo paradeiro é desconhecido atualmente.
De que tipo de solidariedade internacionalista o Saara Ocidental precisa?
Em primeiro lugar, é preciso conhecer bem a situação do Saara Ocidental. Além de uma solidariedade que se manifeste, obviamente, na mídia, e que fale da ocupação marroquina, precisamos que ela seja nomeada corretamente: trata-se de uma ocupação ilegal do território. É preciso pressionar os governos para que usem o poder que têm nos espaços da ONU, por exemplo, e defendam a descolonização, e para que, obviamente, o Estado do Saara Ocidental, ou seja, a República Árabe Saarauí Democrática, seja reconhecido. É preciso realizar ações concretas para pôr fim a essa ocupação ilegal que já dura mais de 50 anos.
