Para refletir sobre o conflito capital-vida no sul e no norte global

31/05/2021 |

Por Colectiva XXK e SOF

Leia um trecho da publicação “Juntas e misturadas: explorando territórios da economia feminista”, elaborada entre o País Basco e o Brasil.

O texto abaixo é um extrato da publicação Juntas e misturadas: explorando territórios da economia feminista, elaborada coletivamente pela SOF, organização feminista que faz parte da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil, e a Colectiva XXK – Feminismos, pensamiento y acción, projeto situado em Euskal Herria. Essas duas organizações compartilham a visão de que a economia feminista é uma proposta política que articula conteúdos (conceitos, análises, agenda) e sujeitos políticos.

A publicação recupera a linguagem comum que orienta essa proposta política, a partir de temas/conceitos como a sustentabilidade da vida e o conflito capital vida e propõe entrelaçar análises e lutas em torno do corpo, tempo e territórios. Investigando as continuidades e descontinuidades entre sul e norte, explora dois fenômenos fundamentais da rearticulação do sistema em nível global: a reconcentração das relações socioeconômicas nos lares e a digitalização.

“Juntas e misturadas” está publicada em arquivo digital e disponível gratuitamente em espanhol, português, inglês e alemão.

O trecho abaixo aborda o conflito capital-vida e é um convite à leitura e participação nesse esforço coletivo para entender o mundo e transformá-lo a partir da economia feminista.

Conflito capital-vida

Enquanto o conceito de sustentabilidade da vida é uma lente e tem uma tradução direta na chave da aposta política, a noção do conflito capital-vida é mais diagnóstica, serve para denunciarmos o sistema sob o qual vivemos, que nos é imposto e, em diferentes graus, também (re)construímos. Além de ser um conceito, é um enquadramento que permite organizar as lutas e alianças a partir de diferentes sujeitos políticos em resistência.

Entendemos que o conflito capital-vida é o conflito estrutural e irresolúvel que caracteriza o sistema de dominação múltipla (essa “coisa escandalosa”) que habitamos. Tentamos desenvolver uma visão complexa desse sistema biocida, entendendo que se trata de um sistema socioeconômico que hierarquiza as vidas de maneira interseccional. Contra um olhar plano e binário que contrapõe “capital” (que não se assenta em nenhum corpo?) e “vida” (algo puro e imaculado que flutua no vácuo?), tentamos compreender a complexidade das relações sociais de privilégio/opressão que se ativam quando combatemos o capitalismo racista e heteropatriarcal.

Queremos “dar rosto” ao capital, revelar quais são as poucas vidas que, para esse sistema e só nele, “valem” muito, e conhecer suas condições materiais e subjetivas de existência. Assim, encontramos o sujeito em quem os eixos de desigualdade convergem, na chave do privilégio, ou seja, quem domina o processo de acumulação de capital. É o “BBUHH” quem detém o poder corporativo: Branco, Burguês, Urbano, Homem, Heterossexual[1].

Há cada vez menos BBVAh nesse contexto de disputa do processo de concentração de capital. O conflito capital-vida surge porque a forma de dar conta de suas aspirações vitais é através da acumulação, despossuindo as vidas alheias e a vida do planeta, transformando os modos de reprodução da vida coletiva em modos privados de “produção” de capital.

Diante dessas poucas vidas que “valem muito”, situa-se uma grande parte das pessoas que, expropriadas dos meios de reprodução, são valiosas na medida em que estão a serviço desse sujeito privilegiado, sendo úteis a ele de diversas formas: como trabalhadoras remuneradas ou não remuneradas, como consumidoras, como corpos desejáveis… Suas condições de vida são muito desiguais, dependendo de elementos como o seu poder aquisitivo ou o valor mercantil do seu trabalho e, em termos mais amplos, de sua posição no Sistema de Dominação Múltipla (o capitalismo racista e heteropatriarcal).

Dentro dessa maioria de vidas, abre-se uma margem para o exercício relativo do privilégio e para o estabelecimento de relações de servidão. Quanto maior a proximidade dos circuitos de acumulação, menor a responsabilidade em realizar os trabalhos invisibilizados de sustentação da vida e menor o nível de exploração. Mas o cerco vai se estreitando.

Os ataques permanentes às condições de vida têm significado o fim do horizonte do trabalho com direitos. Por isso, vemos a situação das mulheres negras como a referência que o capital quer generalizar. Sua situação de precariedade e informalidade no trabalho é hoje a situação majoritária no mercado de trabalho no Brasil. A normalização da informalidade se vê reforçada pelo discurso do “empreendedorismo” e pela transformação de toda pessoa em “capital humano”.

Quais são as linhas de (des)continuidade em territórios do Norte global, como Euskal Herria e o Estado espanhol? Quais as condições de vida e trabalho das trabalhadoras domésticas, setor no qual há cada vez mais migrantes internacionais se somando às mulheres das classes populares? O que faz a população camponesa desaparecer? Quais os impactos da uberização do trabalho?

Em termos amplos, entendemos que a precariedade na vida é o novo regime de existência para as maiorias sociais, embora repartida de maneira radicalmente desigual. Essa expansão e intensificação da precariedade intensifica a percepção da perda de controle sobre as nossas vidas, que coage as possibilidades de ação dos sujeitos políticos. O medo pode ser um poderoso fator de disciplinamento.

Nesse processo de hierarquização multidimensional e complexa, há um grupo de vidas cujo “valor” para o sistema é precisamente a morte. A necropolítica se torna essencial para o sistema. São vidas cuja desaparição é “valiosa” tanto na dimensão instrumental (é o caso de comunidades indígenas que se opõem ao extrativismo, cuja desaparição é útil ao processo de acumulação) quanto em termos expressivos (pensemos na violência heteropatriarcal, que expressa a mensagem de quem domina a vida, quem possui as vidas alheias). Por fim, há vidas que, para o sistema, são propriamente “dejetos humanos”: quem não tem valor nem através da morte. Poderíamos entender nessa chave as mortes nas fronteiras da Europa. Não se trata tanto de que a morte de pessoas migrantes e refugiadas seja útil para o sistema; é simplesmente que suas vidas não “valem” nada para o sistema e não há sequer onde despejá-las.

Lendo o sistema a partir dessa ótica de desigualdade complexa e multidimensional, vemos uma injustiça na distribuição dos recursos com os quais se sustenta a vida, bem como uma injustiça no reconhecimento de quais são as vidas que merecem ser sustentadas. Podemos pensar que o capitalismo dá materialidade a essa hierarquização das vidas, enquanto outras relações sociais de privilégio/opressão (racistas e heteropatriarcais) dão “valores” desiguais às vidas diversas. Voltaríamos então à tese das marxistas feministas de algumas décadas atrás, segundo as quais o capitalismo é um “sistema de postos vagos”: materializa a desigualdade na repartição de recursos, tempos e trabalhos, mas não define quem ocupa os diversos postos.

Interessa-nos entender os mecanismos utilizados para a hierarquização e a despossessão. Entre eles, o processo de disciplinamento do corpo para o trabalho, que transforma as pessoas, assim como a natureza, em meios para a acumulação. Da mesma forma, a propriedade privada, em geral, e em dimensões concretas como a propriedade da terra (disputada com violência) e a propriedade intelectual (com todas as suas implicações para a saúde, o conhecimento, as patentes de processos vitais, etc.). Também nos interessa conhecer os mecanismos para atribuir valor (de troca) e preço. Entendê-los é muito relevante, porque eles aparecerão novamente em nossas tentativas de implementação de circuitos alternativos para sustentar a vida.

Sob esta ótica, o conflito capital-vida se torna o problema que é simultaneamente comum e desigual. É comum, por um lado, porque implica a destruição do planeta,sem o qual ninguém poderia viver. Também é comum porque destrói a vida coletiva. Mas é desigual porque os ataques sobre as vidas concretas são radicalmente desiguais: desde a morte por descarte e a morte útil até os níveis radicalmente desiguais de precariedade.

Politicamente, a aposta não passa por retirarmos o véu de cegueira e percebermos, todas e todos, que o capital nos explora. Podemos apelar para “a classe trabalhadora”, “as mulheres”, “os povos do Sul”, “o povo”, ou qualquer outro sujeito coletivo que nos seja mais próximo para invocarmos, mas sabendo que é um sujeito político a construir, e que precisamos fazer essa construção abordando oconflito capital-vida em situações concretas, lidando com a forma desigual de viver tais situações.

Como nos impacta desigualmente a apropriação global de terras? E a especulação da moradia? O que propomos fazer com o emprego doméstico, um trabalho no qual se evidenciam com força as desigualdades entre as mulheres? Construímos força política dando respostas situadas para essas perguntas, entendendo que a alimentação, a moradia e os cuidados são territórios onde se expressa esse conflito capital-vida que nos une e nos divide.

Um elemento fundamental a considerar são as formas políticas que o conflito assume, especialmente nestes tempos de proliferação de governos de extrema direita. Em diversos territórios, como no Brasil, o autoritarismo (global) do mercado e do poder corporativo se concretiza no rompimento com as mínimas aparências democráticas. Há um consenso do mercado nesse projeto hegemonizado pela extrema direita: fazer avançar as privatizações, ampliar o papel das corporações sob as modalidades de privatização de funções do Estado, destruição de seu sentido público e como referências de promoção do bem-estar com sua hipocrisia corporativa. Mesmo nos casos em que a extrema direita não ocupa esses lugares de poder político tão explícitos, não há nenhum algum tipo de salvaguarda diante do autoritarismo de mercado em um contexto global de cercamento das condições de vida.

O olhar do ambientalismo de mercado demonstra a complexidade da questão: ele transforma a natureza em prestadora de serviços “conservada” por programas de financeirização, e enxerga os direitos de propriedade privada e a responsabilidade civil como as melhores ferramentas para preservar a saúde e a sustentabilidade do meio ambiente.


[1] Em espanhol, o termo é BBVAh (Blanco, Burgués, Varón, Adulto y  Heterosexual), utilizado em outras intervenções de feministas bascas e  integrantes da Colectiva XXK. O termo também ironiza o nome do banco  basco BBVA.

Tradução do texto por Celina Lagrutta

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