Feminismo contra o poder corporativo, a militarização e as fronteiras

29/11/2022 |

Por Luciana Alfaro e Marianna Fernandes

Conheça a agenda política da Marcha Mundial das Mulheres na Europa

Na Europa, consideramos central manter nossa posição de denúncia contra a militarização, contra o desenvolvimento de uma indústria em torno das fronteiras e contra o poder corporativo das transnacionais.

A Europa tem blindado as fronteiras e feito acordos com países de trânsito para evitar que as pessoas migrantes, principalmente as de origem africana, cheguem à região. Nas fronteiras europeias, os direitos humanos e todos os acordos internacionais são violados quando se trata de pessoas migrantes não brancas. Um exemplo disso é o massacre de mais de 37 pessoas que ocorreu em Melilla, cidade autônoma espanhola no norte da África, em 24 de julho, e até agora o governo da Espanha não assumiu nenhuma responsabilidade pelo caso. 

A questão vai além do não reconhecimento, em particular para as vítimas de violência de gênero, mulheres, crianças e pessoas LGBTIQA+. As razões pelas quais solicitam proteção e asilo são ignoradas na Europa, apesar das disposições da Convenção de Istambul que reconhecem a violência contra as mulheres como uma forma de perseguição, contra a qual há direito a proteção internacional.

No orçamento da União Europeia (UE) e dos países que fazem parte dela, houve um aumento de 123% na área de segurança e defesa para o período 2021-2027 em comparação com o período anterior, ou seja, passou de 19,7 bilhões de euros a 43,9 bilhões. Enquanto isso, a crise energética continua se agravando, assim como a precariedade da vida daquelas pessoas que o sistema torna mais vulneráveis, como as mulheres que sustentam a economia local, as trabalhadoras migrantes em situação irregular, que são chamadas de “pessoas sem documentos”, as mulheres idosas.

Como feministas que vivem nessa região, cabe a nós denunciar também o poder corporativo das empresas transnacionais de capital europeu que operam impunemente nos territórios do Sul global, como as transnacionais do extrativismo, do agronegócio e da indústria do vestuário.

Denunciamos a espoliação violenta que está ocorrendo no Sul global em nome das falsas soluções do mercado para os problemas climáticos criados pelo sistema capitalista e sua guerra contra a vida das pessoas e do planeta.

Denunciamos o Pacto Verde da União Europeia como uma ferramenta de violência, de espoliação e a criação ativa de zonas de sacrifício 1 socioambiental. Tudo isso em nome de uma visão distorcida de sustentabilidade ambiental, que se traduz em transições energéticas cooptadas por empresas transnacionais, dependentes do extrativismo no Sul e também nas periferias da Europa, como Portugal, Sérvia, entre outros.

A Marcha Mundial das Mulheres sempre estará em aliança com os movimentos que lutam contra todos os instrumentos do sistema heteropatriarcal, capitalista, racista e colonial que violentam a vida. Afirmamos nosso reconhecimento e nossa solidariedade feminista às companheiras que, por denunciar e resistir, estão sendo criminalizadas, ameaçadas e violentadas pelos Estados e pelo poder das transacionais.

A Marcha Mundial das Mulheres na Europa aposta em um feminismo popular que fomente estratégias de resistência a partir da economia feminista, a defesa dos bens comuns e de serviços públicos universais. Aposta também na denúncia ativa do aumento do gasto militar, da externalização das fronteiras, da expansão da Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira (Frontex) e o Pacto Verde. Todas essas são ferramentas do sistema heteropatriarcal, capitalista, racista e colonial para acabar com as vidas mais precarizadas e vulnerabilizadas e aumentar as grandes fortunas.

Luciana Alfaro e Marianna Fernandes fazem parte do Comitê Internacional da Marcha Mundial das Mulheres representando a Europa.

  1. Zonas de sacrifício são áreas escolhidas para concentrar a contaminação ambiental, geralmente em territórios de populações tradicionais ou comunidades mais vulnerabilizadas que ficam expostas aos danos gerados pelas empresas.[]

Edição por Tica Moreno
Traduzido do espanhol por Luiza Mançano com revisão de Helena Zelic
Idioma original: espanhol

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