Reforma agrária feminista: transformação da sociedade e das relações para toda a humanidade

04/05/2026 |

Capire

Perla Álvarez, da CLOC-Via Campesina, e Raya Radwan, da Marcha Mundial das Mulheres Palestina, falam sobre a luta por terra e soberania alimentar

A concentração fundiária e o patriarcado são produtos do mesmo sistema histórico. Colonialismo e capitalismo organizaram a exploração da terra e dos corpos como mecanismos de acumulação, e essa lógica segue operando nas zonas rurais de todo o mundo. Hoje, as mulheres representam cerca de 40% da força de trabalho agrícola global, mas detêm apenas 15% da terra. Produzem alimentos, sustentam comunidades e cuidam da vida enquanto são sistematicamente excluídas da propriedade da terra, da participação política e do reconhecimento econômico. Por isso, a luta pela reforma agrária popular integral é uma luta feminista.

A 2ª Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRADR+20), realizada em Cartagena, Colômbia, em fevereiro de 2026, reuniu movimentos camponeses, pesqueiros, indígenas e feministas de todo o mundo para debater terra, soberania alimentar e direitos coletivos. Vinte anos após a primeira edição, a Conferência aconteceu em um contexto de agravamento do agronegócio, do deslocamento rural e da violência nos territórios.

Durante a Conferência, Perla Álvarez, militante da Organização de Mulheres Camponesas e Indígenas (Conamuri), que integra a CLOC-Via Campesina no Paraguai, e Raya Radwan, da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) na Palestina, conversaram com Pinar Yüksek, do Secretariado Internacional da MMM. Elas falaram sobre as relações entre a luta por reforma agrária e agroecologia e a luta contra o patriarcado, sobre a participação política e o trabalho das mulheres no campo e sobre o papel de mecanismos como a Declaração sobre os Direitos dos Camponeses (UNDROP, sigla em inglês).

A concentração fundiária e o patriarcado andam de mãos dadas na história das áreas rurais em todo o mundo. Por que a luta pela reforma agrária tem de ser também uma luta feminista?O que muda quando as mulheres assumem um papel central nesse processo?

Perla: Quando falamos que queremos uma reforma agrária feminista, estamos dizendo que queremos que as mulheres sejam protagonistas, com poder, com voz, com propostas e iniciativa. A visão feminista não é uma questão exclusiva das mulheres, é uma proposta de sociedade e de novas relações para toda a humanidade. Há quem queira opor o machismo ao feminismo, e não é a mesma coisa: o machismo é a hegemonia do poder do homem sobre a mulher e a humanidade, e o feminismo propõe uma relação igualitária para toda a humanidade.

Com uma reforma agrária baseada numa perspectiva feminista, garantimos relações de igualdade entre mulheres e homens, na diversidade que temos como seres humanos, além de garantir relações de complementaridade com a natureza. A concepção capitalista sobre a terra é a de explorá-la. Uma reforma agrária feminista busca recuperar a relação equilibrada e equitativa entre os seres humanos e a natureza. Isso significa também recuperar a saúde do planeta para recuperar nossa própria saúde física e mental.

Raya: A concentração fundiária e o patriarcado são produtos do mesmo sistema histórico: colonialismo, capitalismo e o controle da terra e dos corpos visando o lucro. As mesmas estruturas que despojam pessoas camponesas também despojam as mulheres. Durante séculos, as mulheres produziram alimentos, sustentaram a vida rural e cuidaram das comunidades enquanto lhes era negada a propriedade da terra, poder político e reconhecimento. Essa exclusão é estrutural, não acidental. Considerando tudo isso, uma reforma agrária que não seja feminista inevitavelmente reproduzirá desigualdades.

Quando as mulheres assumem o protagonismo, a reforma agrária deixa de ser apenas uma redistribuição de propriedade e passa a ser uma redistribuição de poder. As prioridades deixam de ser o lucro e a agricultura com fins de exportação e passam a ser a vida, a soberania alimentar e o bem-estar coletivo. A liderança das mulheres fortalece a organização comunitária e enfrenta a violência, a militarização e a exploração nos territórios rurais.

A situação palestina mostra claramente como a terra, o colonialismo e o patriarcado estão interligados. As mulheres rurais palestinas cultivam a terra sob ocupação militar, enfrentam o confisco de terras, o controle da água e a violência cotidiana, e ainda assim continuam produzindo alimentos e sustentando suas comunidades. Não são apenas agricultoras: são defensoras do território e da vida. Uma reforma agrária feminista não é um complemento à reforma agrária. É o que torna possível uma transformação real.

Como a reforma agrária pode contribuir para a construção de relações mais justas entre as pessoas, com a natureza e entre os próprios povos?

Perla: A reforma agrária feminista que propomos é, necessariamente, de caráter socialista e transformador, de superação das relações capitalistas. Nosso horizonte é socialista, feminista e antipatriarcal.

A distribuição equitativa da terra logo gera, rapidamente, melhores condições de vida. Possibilita que as crianças cresçam saudáveis e felizes, que os adolescentes cresçam sem medo e que as mulheres sejam livres para tomar decisões em pé de igualdade com os homens. Uma reforma agrária feminista também contribui para melhorar as condições da cidade, diante do deslocamento do campesinato para o meio urbano. Com uma reforma agrária na qual as pessoas que foram expulsas possam retornar ao campo, ou também as pessoas da cidade possam voltar para cuidar e produzir, as condições na cidade também vão melhorar. Por isso, a reforma agrária integral não é um projeto apenas do campo: é um projeto de sociedade que também envolve a cidade.

Não se trata da mesma reforma agrária do século XIX ou XX. É uma nova reforma agrária, com um modelo de produção agroecológico, que leva em conta o consumo sazonal, e isso significa que temos que reaprender, em toda a cadeia, novas formas de produção, comercialização e consumo.

Essa não é uma tarefa fácil, porque o agronegócio já se instalou na nossa cabeça. Isso nos fez ver a terra como um pequeno quadradinho para morar e produzir. Dividiu nossa mente em lotes. Precisamos recuperar o olhar sobre o território, e nesse sentido, a visão indígena e dos povos pesqueiros é extremamente importante. O campesinato é um todo e produz de acordo com o território e o tempo: em uma época vai pescar, em outra, vai produzir milho, colher mandioca, colher frutos e sementes. A natureza orienta esse trabalho; ele não se rege pelo relógio capitalista.

Raya: As economias feministas do cuidado e a soberania alimentar propõem uma alternativa radical ao modelo dominante de desenvolvimento baseado na extração, nas monoculturas e no controle corporativo dos sistemas alimentares. Ao romper com a lógica da terra como mercadoria, a reforma agrária ajuda a reconstruir as relações entre as pessoas e a natureza. A terra passa a ser território, vida e responsabilidade coletiva. Por meio da agroecologia, do controle comunitário das sementes e da água e dos sistemas alimentares locais, a reforma agrária constrói relações baseadas na cooperação, e não na exploração.

Com isso, também fortalece a solidariedade entre os povos do Sul global que enfrentam padrões semelhantes de acaparamento de terras, destruição ambiental e deslocamento rural. Na Palestina, a soberania alimentar é uma forma de resistência. Quando as mulheres continuam cultivando, guardando sementes e sustentando a produção local sob a ocupação, estão defendendo o direito de um povo de permanecer em sua terra. Isso não é só um projeto agrícola, é um projeto de sociedade centrado no cuidado, na dignidade e na sobrevivência coletiva.

Historicamente, o acesso à terra e a propriedade da terra tem estado em grande parte nas mãos dos homens. Quais são os principais desafios para garantir a igualdade real nos direitos à terra, respeitando as formas coletivas e comunitárias de organização territorial?

Perla: Quando nós, mulheres, nos unimos, conseguimos recuperar o poder que nos foi tirado. Tiraram de nós, a possibilidade de tomar decisões sobre o que nos afeta. Outros tomam decisões sobre nossos corpos, nossas vidas, nossos territórios, nossas famílias e nossa produção. Recuperar nosso poder de decisão é algo que só pode ser garantido ao nos organizarmos.

Mais importante do que o título de propriedade é garantir a verdadeira posse da terra: que, após se estabelecer nela, ninguém possa tirá-la de você por nenhum motivo, seja financeiro, seja por desentendimentos conjugais ou por conflitos. É a garantia da permanência na terra para trabalhar, viver e cuidar dela.

Raya: O principal desafio é que a desigualdade é estrutural. Mesmo nos lugares onde as leis reconhecem os direitos das mulheres, o patriarcado continua operando por meio das instituições, dos mercados e das normas sociais. As mulheres ainda enfrentam barreiras ao crédito, à capacitação, à participação política e à proteção contra a violência. Os direitos à terra não podem ser separados da justiça econômica, da justiça social e da liberdade em relação à violência.

Ao mesmo tempo, os movimentos feministas defendem sistemas coletivos e comunitários de terra contra a privatização e o acaparamento corporativo. Igualdade não significa individualizar a terra. Significa garantir a participação plena das mulheres na tomada de decisões coletivas e na governança dos territórios. Em contextos coloniais como o nosso, esses desafios são ainda mais profundos. As mulheres resistem simultaneamente às barreiras patriarcais e à despossessão colonial. Para as mulheres palestinas, a luta pela terra é uma luta pela existência e pelo poder, e os movimentos feministas estão transformando essa luta em todo o mundo.

A Declaração sobre os Direitos dos Camponeses (UNDROP) reconhece direitos específicos relacionados à terra, ao território, à participação e à não discriminação. Além disso, 2026 foi declarado o Ano Internacional das Mulheres Agricultoras pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Como essas ferramentas podem fortalecer concretamente a luta das mulheres rurais e pressionar os Estados a promover reformas agrárias mais inclusivas?

Perla: A Declaração dos Direitos dos Camponeses é uma ferramenta poderosa, mas também é o resultado do pensamento coletivo do movimento camponês. Por isso, embora parta da realidade da reivindicação de direitos, ela precisa ser acompanhada de um processo de formação nas comunidades. Precisamos trabalhar intensamente nesse processo de apropriação desse instrumento, porque, ao nos apropriarmos dele, podemos exigir do Estado políticas públicas diversificadas e específicas para as mulheres, conforme consta nessa declaração.

Não se trata só de direitos de propriedade da terra. A UNDROP tem uma perspectiva de gênero: reconhece que existe uma grande desigualdade entre homens e mulheres na distribuição das responsabilidades de cuidado, mas também no que se refere à contribuição para a economia familiar, comunitária e nacional. O trabalho das mulheres não é contabilizado em nenhuma dessas economias. Ao reconhecer essa desigualdade estrutural, esse instrumento contribui na busca por equilíbrio, equidade e justiça para as mulheres.

A reforma agrária prevista na declaração é integral: não se trata apenas da distribuição ou redistribuição da terra, mas da criação de condições para que as pessoas permaneçam no campo. A produção camponesa é agroecológica, mas a transição agroecológica precisa de financiamento. É preciso recuperar a saúde do solo, e isso leva no mínimo três anos. Esse apoio deve ser financiado de forma sustentável, digna e em termos de política pública, não de assistencialismo. O que acontece é que são elaboradas políticas assistencialistas que geram dependência e não autonomia. E a UNDROP fala, em alguns de seus artigos, do direito à autonomia das mulheres para decidir sobre seus próprios corpos, sobre a própria produção e seu entorno.

Quando há conflitos de interesse, como no agronegócio, nas monoculturas e na mineração, os projetos que afetam o território precisam necessariamente passar por processos de consulta, que devem estabelecer padrões diferenciados para verificar seu impacto específico sobre as mulheres. O impacto sobre as mulheres não é o mesmo que sobre os homens: primeiro afeta o corpo e, depois, aumenta o trabalho de cuidados, além de doenças relacionadas ao fato de ser mulher e ao papel que o patriarcado atribuiu historicamente a elas.

A participação das mulheres deve estar garantida na formulação, execução, avaliação e acompanhamento das políticas. É preciso garantir também assistência técnica agroecológica com perspectiva de gênero e capacitação dos técnicos do governo.

É preciso reconhecer que a participação das mulheres camponesas e indígenas não é fácil, devido à sobrecarga de tarefas de cuidado que elas têm, não apenas nas famílias, mas também na comunidade. Isso implica criar espaços de participação no território e definir horários adequados para as conversas. Isso pode ajudar a garantir uma política pública mais eficaz, mais de acordo aos termos da declaração.

O feminismo camponês e popular tem uma profunda vocação transformadora da realidade. Ele reconhece que as desigualdades não se limitam à questão de gênero, mas que existe um sistema econômico que se vale do patriarcado para continuar perpetuando as desigualdades e acumulando capital. Quando nos definimos como feministas, buscamos quebrar esse ciclo.

Esta entrevista foi realizada em fevereiro de 2026, em espanhol e inglês, durante a Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRADR+20), em Cartagena, Colômbia.

Entrevista conduzida por Pinar Yüksek
Edição por Bianca Pessoa
Revisão por Helena Zelic
Traduzido do espanhol por Luiza Mançano
Traduzido do inglês por Liz Stern

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