Mulheres plantam florestas e criam biodiversidade

16/04/2026 |

Capire

Conheça as experiências de mulheres no Brasil e na Palestina que produzem alimentos e resistência em seus territórios

Enquanto o capitalismo verde continua aprofundando as causas da crise ambiental, os povos organizados resistem e defendem seus territórios, com práticas coletivas para proteger e recuperar os bens comuns. São diversas as experiências de alternativas e resistências baseadas na economia feminista, soberania alimentar e agroecologia.

Algumas dessas experiências, do Brasil e da Palestina, se encontraram em um webinário promovido pelo Capire e pela Marcha Mundial das Mulheres: o plano “Plantar árvores, produzir alimentos saudáveis” do Movimento Sem Terra, a campanha “Caatinga viva pelas mãos das mulheres” do Centro Feminista 8 de Março (CF8) em aliança com a SOF Sempreviva Organização Feminista e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), e a centralidade das oliveiras na resistência do povo palestino à ocupação colonial de seu território por Israel.

Sertão cheio de vida

O semiárido brasileiro, um território de mais de um milhão de quilômetros quadrados que abrange estados da região Nordeste e parte do estado de Minas Gerais, abriga um bioma chamado Caatinga, uma floresta de característica seca. Ao contrário do que indica o imaginário coletivo acerca dessa paisagem de aparência desértica, há muita vida nesse território. Ivi Aliana, do CF8, refletiu sobre a necessidade de dar visibilidade para esse bioma, destacando suas características e sua biodiversidade a partir das pessoas que vivem nele. 
 

Um bioma não é uma caixinha. Se você resolver o problema de um bioma, não quer dizer que os outros problemas ambientais estão resolvidos. Precisamos compreender que a vida na Amazônia precisa que a vida na caatinga aconteça. Nós, mulheres, aprendemos que as coisas precisam estar inter-relacionadas, por isso nossa luta é internacionalista.” 

Ivi Aliana

A partir de um projeto que já abarcava a produção das mulheres em seus quintais, o “Caatinga viva pelas mãos das mulheres” reuniu 20 grupos que produziram mais de 8 mil mudas de plantas nativas da Caatinga e plantas alimentares diversas. “Queríamos ampliar a compreensão da importância da Caatinga viva, de pé e agroflorestada para a permanência das mulheres nesses territórios”, explica Ivi. O projeto desenvolve práticas de agroflorestamento nos quintais ao redor das casas, apicultura e a guarda das sementes nativas. 

Floresta que se come
 Barbara Loureiro, do MST, relembrou que florestar a partir dos quintais é uma prática histórica construída por pessoas do campo e que está na gênese das ações do Movimento Sem Terra. O plano nacional “Plantar árvores, produzir alimentos saudáveis”, lançado em 2020 com o objetivo de plantar 100 milhões de árvores até 2030, reúne a luta por reforma agrária popular, agenda política central do movimento, com o desafio de produzir alimentos saudáveis e cuidar da natureza a partir do plantio de árvores. 

As árvores que serão inseridas como elemento de mais diversidade e para aumentar a resiliência climática devem permitir também a diversificação da produção de alimentos. São diversas cadeias produtivas agroecológicas organizadas e fundamentadas com o plantio de árvores: do cacau, do mel, das frutas, das castanhas, das próprias agroflorestas. Para isso, é fundamental todo um processo organizativo da cadeia produtiva de sementes, dos viveiros de mudas, para ter autonomia do plantio.

Bárbara Loureiro 

O plano também se afirma como um espaço de batalha de ideias, já que a agenda ambiental é hoje um campo em disputa, atravessado por falsas soluções que buscam ocultar as causas estruturais da crise. “Não se trata de plantar árvores de qualquer forma. O agronegócio também fala em reflorestamento, mas o faz a partir da monocultura, do eucalipto e do pinus, reproduzindo o mesmo modelo que destrói territórios e vidas”, explicou.

A partir de uma perspectiva agroecológica, o MST articula formação política e técnica, estratégias de comunicação e uma práxis educativa e ambiental. Também é central a dimensão organizativa do plano, construída a partir das famílias sem terra, das escolas de agroecologia, das brigadas ambientais da juventude e das brigadas de combate a incêndios florestais, cada vez mais necessárias frente à crise climática.

Nesse processo, Barbara destacou o papel central das mulheres do MST, presentes tanto na denúncia dos impactos da crise sobre os territórios quanto na elaboração de alternativas na relação com a natureza, por meio do cuidado com as sementes, da organização dos viveiros de mudas e da construção coletiva de uma nova consciência ambiental nos territórios da reforma agrária popular.
 

Oliveiras e resistência palestina

Na Palestina, a luta ambiental não está separada da luta por libertação popular. Para Rasha Abu Dayyeh da Amigos da Terra Palestina (Pengon, sigla em inglês), as florestas, as águas e o solo são parte da mesma história de resistência. A produção de oliveiras, seus frutos e os produtos advindos dessa árvore fazem parte da cultura agrícola da Palestina há centenas de anos. Essa cultura, no entanto, vem sendo destruída pela ocupação sionista. Árvores centenárias foram queimadas e as que ainda resistem estão em territórios cada vez mais controlados pela ocupação sionista. 

Cada mulher que planta uma nova semente, que cuida da terra, que insiste em voltar ao seu campo, apesar dos soldados e dos colonos, está construindo e reconstruindo a floresta da resistência. […] Para nós, a oliveira não é apenas um cultivo agrícola, é um símbolo de pertencimento, uma forma de resistência e uma declaração de que ainda estamos aqui.

Rasha Abu Dayyeh

Rasha analisa que as mulheres carregam as histórias e o conhecimento da terra e das sementes, e por isso estão no centro da resistência e da construção de biodiversidade e cuidado para o futuro: “em Gaza, as mulheres ainda estão liderando iniciativas muito pequenas de plantio de ervas e hortaliças nas terras destruídas. Algumas de nossas engenheiras iniciaram pequenas iniciativas de plantio de vegetais e outros cultivos próximos às suas tendas. Elas tentam reutilizar a água, embora a água disponível em Gaza hoje esteja poluída”.

Pesquisas realizadas por Amigos da Terra Palestina indicaram altas concentrações de fósforo na água e na comida. Ainda assim, na Cisjordânia, as cooperativas de mulheres também estão recuperando variedades locais de trigo, tomilho e produção de azeite.

Ao mesmo tempo, a linguagem da transição verde e das soluções climáticas tem sido apropriada e manipulada por corporações transnacionais e por poderes de ocupação sionista que avançam sobre o território. Usando o discurso das energias renováveis, terras palestinas são confiscadas para a instalação de projetos solares aos quais a própria população palestina não tem acesso. Em nome da inovação hídrica, todas as nascentes e aquíferos são controlados por meio de empresas como a Mekorot.

Enquanto se afirma a proteção da natureza, florestas são transformadas em zonas militares e vales em depósitos de resíduos dos assentamentos. Isso é o que Rasha denominou de colonialismo verde, “quando o mesmo sistema que destrói nossa terra finge salvá-la”. Não há justiça climática sem libertação, pois não pode existir sustentabilidade ambiental sob ocupação, nem restauração ecológica sem justiça para os povos e para a terra.

Redação por Bianca Pessoa
Edição por Tica Moreno e Helena Zelic

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