26 de julho e a rebelião cubana: relato de Haydée Santamaría

26/07/2023 |

Capire

As ações pré-revolucionárias em Cuba na perspectiva de uma mulher combatente.

Dia 26 de julho é uma data histórica para os povos resistentes das Américas e do mundo: é o Dia da Rebeldia Nacional em Cuba, que comemora as lutas pré-revolucionárias na ilha. O socialismo foi conquistado com uma luta intensa e diária, em um processo revolucionário que durou anos até a tomada popular do poder iniciada em 1959. Antes disso, em 26 de julho de 1953, em Santiago de Cuba, houve um assalto ao quartel Moncada, uma tentativa de enfrentamento ao ditador da elite Fulgencio Batista.

O assalto do Moncada aconteceu simultaneamente a outro na cidade de Bayamo, também no leste do país. A ação não foi vitoriosa naquele 26 de julho, resultando em prisões e mortes de guerrilheiros; ainda assim, o compromisso militante com a insurgência popular e a radicalização da ação revolucionária que se iniciou naquele momento foi essencial para o processo de lutas que se seguiu. Apesar da perseguição política, as e os militantes envolvidos continuaram a organizar a luta nas regiões do país. Dois anos depois do assalto a Moncada, iniciaram clandestinamente o Movimento 26 de Julho, um dos vetores fundamentais para o triunfo da revolução no final dos anos 1950.

 Fui presa, algemada e me senti mais forte e mais livre do que aqueles que iam me julgar com o manto da justiça

Haydée Santamaría no livro Haydée habla del Moncada (1967)

Para inspirar nossas lutas atuais contra o capitalismo imperialista e pela liberdade dos povos e das mulheres, propomos voltar nosso olhar para a força da rebeldia organizada há 70 anos em Cuba, especialmente por mulheres militantes. Haydée Santamaría (1922-1980) e sua grande amiga Melba Hernández foram as duas únicas mulheres a participar do assalto a Moncada em 26 de julho.

Mais tarde, junto com outras lutadoras revolucionárias como Celia Sánchez e Vilma Espín, elas lutaram lado a lado com Fidel e Raúl Castro, Che Guevara e outros líderes homens da revolução cubana, e construíram o socialismo em Cuba em diferentes frentes de atuação. Haydée, por exemplo, foi fundadora e diretora da Casa de las Américas por duas décadas.

Compartilhamos a seguir um fragmento da entrevista “Haydée Santamaría e Celia Sánchez em Revolución. Conversación con Carlos Franqui”, publicado no jornal cubano Revolución, n.º 2016, de 26 de julho de 1962, e no livro Cuba: El Libro de los 12, de Carlos Franqui. Na entrevista, Haydée Santamaría expõe com emoção suas memórias e reflexões pessoais sobre o assalto ao quartel Moncada.

Melba é a que se lembra de tudo com mais precisão. Eu não me lembro bem das horas, talvez ela também não se lembre agora, depois de tantas coisas e de tantos anos, mas antes, quando começávamos a falar sobre aquelas horas, era mais fácil para ela recordar os fatos detalhadamente. Se eu começar a falar e continuar falando muito sobre o Moncada, com certeza vou me lembrar de muitas coisas.

Agora o que mais penso é naqueles de nós que fomos ao Moncada, e penso em Fidel, e me pergunto: como é possível que, sendo Fidel como é, alguém o tenha o traído? Como é possível que não o reconhecessem? Como é possível que todos não se identificassem perfeitamente com Fidel, com a Revolução?

Cada vez que vejo Fidel, que falo com ele, que o ouço na televisão, penso nos outros rapazes, em todos os que morreram e nos que estão vivos, e penso em Fidel, no Fidel que conhecemos e que ainda é o mesmo. Penso na Revolução, que é a mesma que nos levou ao Moncada.

Estávamos na casa do Siboney, Melba [Hernández], Abel [Santamaría], Renato [Guitart], Elpidio [Sosa] e eu. Renato teve a ideia de fazer um “frango ao chilindrón [molho de tomates e pimentões]”. Eu ri quando ele me contou e comecei a argumentar que aquilo não era um “chilindrón” mas sim um “fricassê”. “É assim que chamam em Vuelta Abajo”, insistiu Renato. Enquanto cozinhávamos e sem interromper a conversa com Melba e Renato, olhando para Abel, pensei na última vez que estivemos na Central, para nos despedirmos dos nossos pais e da família. Quando íamos sair de casa de madrugada para voltar a Havana, Aida nos alertou para termos o cuidado de não acordar a menina. Abel queria abraçá-la, queria beijá-la. Eu disse: “Deixa, talvez seja a última vez que a vejamos”. Aida me olhou assustada, e eu quis fazer uma piada: “Talvez fiquemos na estrada”. “Não seja trágica”, Aida me disse, e fomos embora.

Quando o “chilindrón” de Renato ficou pronto, Abel não quis comer. Ele estava indo para Santiago para acompanhar um velho casal que morava do outro lado da rua da casa de Siboney. “Talvez seja o último carnaval que verão”, pensei.

Melba estava ao meu lado, fazia sete meses que não nos separávamos nem por um único dia. Pensava na casa, na Melba que estava ao meu lado, nos rapazes. Naquela hora não me ocorreu pensar na morte, mas duas coisas me atormentavam com dor. Se tudo acabar, que fique Fidel, por ele se fará a Revolução e nossas vidas e nossas ações terão sentido; a outra revelou-se a mim muito mais tarde, com terrível angústia, quando nossos mortos foram deixados entre o sangue e a terra e já sabíamos que não os veríamos novamente, temi que me separassem da Melba.

Lembro-me da Melba tentando me proteger, eu tentando protegê-la e todos tentando nos proteger uns aos outros. Faz-se qualquer coisa, qualquer coisa, quando outras vidas estão em nossas mãos. Qualquer coisa sob as balas, sob as rajadas de metralhadoras, entre os gritos de dor dos que caíram feridos, entre os últimos lamentos dos que morriam. Qualquer coisa é pouco e muito, e ninguém sabe como um evento dessa natureza vai se desenvolver. Ninguém sabe o que vai acontecer nos minutos seguintes.

Há coisas que, sim, se sabe, como tudo o que se ama. Fui ao Moncada com as pessoas que mais amava. Lá estavam Abel e Boris [Luis Santa Coloma] e estava Melba e estava Fidel e Renato e Elpidio e o poeta Raúl [Gómez García], Mario [Muñoz] e [Fernando] Chenard e os outros rapazes, e estava Cuba, e estava em jogo a dignidade ofendida de nosso povo e a liberdade ultrajada, e a Revolução que devolveria ao povo o seu destino.

Os rapazes vieram com fome. À meia noite nós estávamos conversando, rindo, contando piadas para todo mundo. Servimos café e um pouco do que restava de comida; a comida que Abel não comeu. Voltamos às histórias, à anedota da minha chegada a Santiago com duas malas cheias de armas, tão pesadas que um soldado que a movimentou ao passar por mim no vagão me perguntou se eu estava levando dinamite. “Livros”, eu disse a ele. “Acabei de me formar e vou trabalhar em Santiago. Vou aproveitar o carnaval para me divertir um pouco depois dos estudos. Você seria um bom parceiro para a diversão no carnaval”.

O soldado sorriu amigável e me disse onde deveríamos nos encontrar. Ele desceu comigo até a plataforma, carregando minha mala. Abel e Renato me esperavam no terminal. Aproximei-me para dizer-lhes: “Essa é a mala” e acrescentei: “esse é um companheiro de viagem.” E ao soldado: “são dois amigos que vieram me esperar”. O soldado entregou a mala e partimos. Um dos rapazes fazia piadas para Boris. “Cuidado com Yeyé, ela tem um encontro no parque com um soldado da ditadura”, e todos ríamos.

Depois chegou Fidel e, alguns sozinhos e outros em grupo, chegaram todos.

Depois saímos.

Depois estávamos no carro Melba, Gómez García, Mario Muñoz e eu. Depois e durante toda a viagem até o Moncada, pensei em minha casa, pensei na manhã que viria: o que aconteceria? O que eles diriam em casa? Como seria o dia?

Depois chegamos.

Depois vieram os primeiros segundos e os primeiros minutos e depois as horas. As piores, mais sangrentas, cruéis e violentas horas de nossas vidas. Essas eram as horas em que tudo podia ser heroico, corajoso e sagrado. A vida e a morte podem ser nobres e belas, e é preciso defender a vida ou entregá-la totalmente.

Esses são os fatos que Melba lembrou com precisão. Aqueles que tentei em vão esquecer. Aqueles que lembro, envoltos por uma névoa de sangue e fumaça. Os que compartilhei com Melba. Os que Fidel narra em A história me absolverá. A morte de Boris e a de Abel. A morte ceifando os rapazes que tanto amamos. A morte manchando as paredes e a grama com sangue. A morte governando tudo, ganhando tudo. A morte se impondo como uma necessidade e o medo de viver depois de tantos mortos; e o medo de morrer sem que aqueles que devem morrer tenham morrido; e o medo de morrer quando a vida ainda pode vencer uma última batalha contra a morte.

Há aqueles momentos em que nada assusta, nem o sangue, nem as rajadas de metralhadoras, nem o fumo, nem o fedor de carne queimada, de carne despedaçada e suja, nem o cheiro de sangue quente, nem o cheiro de sangue coagulado, nem o sangue nas mãos, nem a carne em pedaços a desfazer-se nas mãos, nem o gemido de quem vai morrer. Nem o silêncio aterrador nos olhos dos que morreram. Nem as bocas entreabertas onde parece haver uma palavra que, se dita, congelará nossa alma.

Existe esse momento em que tudo pode ser belo e heroico. Esse momento em que a vida, pelo seu valor e por sua importância, desafia e derrota a morte. E a gente sente como as mãos se agarram a um corpo ferido, que não é o corpo que amamos, que pode ser o corpo de um dos que viemos combater, mas é um corpo que sangra até a morte, e a gente o levanta e o arrasta entre as balas e entre os gritos e entre a fumaça e o sangue. E, nesse momento, pode-se arriscar tudo para preservar o que realmente importa, que é a paixão que nos trouxe ao Moncada, e que tem os nomes, tem os olhares, tem as suas mãos acolhedoras e fortes, tem a sua verdade nas palavras, e que pode se chamar Abel, Renato, Boris, Mario ou qualquer outro nome, mas sempre, nesse momento e nos que se seguirão, pode se chamar Cuba.

E tem esse outro momento em que nem a tortura, nem a humilhação, nem a ameaça podem contra aquela paixão que nos trouxe até o Moncada.

O homem se aproximou de nós. Sentimos uma nova rajada de metralhadoras. Corri para a janela. Melba correu atrás de mim. Senti as mãos de Melba em meus ombros. Eu vi o homem se aproximando de mim e ouvi uma voz dizendo “eles mataram o seu irmão”. Senti as mãos de Melba. Senti novamente o barulho do chumbo perfurando minha memória. Senti que dizia sem reconhecer minha própria voz: “foi Abel?” Olhei para o homem que baixou os olhos. “É Abel?” O homem não respondeu. Melba veio até mim. Melba era, inteira, aquelas mãos que me acompanhavam. “Que horas são?”, e Melba respondeu: “são nove horas”.

Esses são os fatos que estão gravados na minha memória. Não me lembro exatamente de mais nada, mas a partir daquele momento não pensei em mais ninguém, só pensava em Fidel. Pensávamos em Fidel. Em Fidel, que não podia morrer. Em Fidel, que tinha que estar vivo para fazer a Revolução. Na vida de Fidel, que era a vida de todos nós. Enquanto Fidel estivesse vivo, Abel e Boris e Renato e os outros não teriam morrido, estariam vivos em Fidel, que ia fazer a Revolução Cubana e que ia devolver o povo cubano ao seu destino.

O resto foi uma nuvem de sangue e fumaça, o resto foi vencido pela morte. Fidel venceria a última batalha, venceria a Revolução.

Introdução de Helena Zelic, seleção da entrevista por Tica Moreno
Traduzido por Aline Lopes Murillo com revisão de Helena Zelic

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