Entrevista 11/01/2022

Yildiz Temürtürkan: “transformando nossa visão do feminismo popular em ação”

Capire conversou com Yildiz Temürtürkan, coordenadora internacional da Marcha Mundial das Mulheres, sobre a história e os desafios do movimento

Por Capire

A Marcha Mundial das Mulheres é um movimento feminista, internacionalista, anticapitalista e anticolonialista, organizado a partir de coordenações locais em 51 países e territórios. A coordenação do movimento já passou pelo Quebec, Brasil e Moçambique, e agora está na Turquia. Yildiz Temürtürkan foi eleita para a coordenação internacional da Marcha Mundial das Mulheres no 12o Encontro Internacional, em outubro de 2021.

Nascida em Ankara, Yildiz tem uma longa trajetória de militância, iniciada durante o regime militar nos anos 1980. Quando atuava nas lutas por direitos humanos, conheceu a proposta de lançamento da Marcha Mundial das Mulheres em 1997 e, desde então, constroi o movimento na Turquia e internacionalmente, como integrante do Comite Internacional e, a partir desse janeiro, como coordenadora internacional do movimento.

Na entrevista para o Capire, Yildiz recuperou os acúmulos políticos e organizativos do feminismo da Marcha Mundial das Mulheres: reivindicações, princípios e formas de ação, “instrumentos para a ação e teoria feministas à frente de nosso tempo”. Questionando a solidariedade declaratória, refletiu sobre a importância de enfrentar hierarquias coloniais, reforçar e praticar uma solidariedade que contribua para a organização enraizada do feminismo popular internacionalista.

Na agenda de 2022, destaca a importância de reforçar a formação para a organização e a capacidade de mobilização, para enfrentar a militarização e o conflito capital-vida, priorizando a sustentabilidade da vida, E, diante das ofensivas corporativas e neoliberais sobre o feminismo, Yildiz recupera a força das propostas e práticas de economia feminista das mulheres em todo o mundo, que são o alicerce da visão e ação política da Marcha Mundial das Mulheres.

Yildiz, você participa da Marcha Mundial das Mulheres há bastante tempo. Pode nos contar sobre o que a trouxe para a organização e compartilhar conosco sua trajetória até agora?

Às vezes penso sobre o que me trouxe para o movimento e o que me manteve nele por tanto tempo apesar de todos os desafios que temos. A MMM em si foi uma resposta coletiva ao neoliberalismo, que se mostrava extremamente hegemônico em 2000. Na época, parecia não existir saída. Foi então que erguemos nossas vozes, decidimos ir além do possível e imaginável e geramos nossa plataforma de demandas internacionais. Recentemente, conferi as demandas que tínhamos na época, e elas ainda são relevantes, especialmente agora diante de uma crise humanitária global com a pandemia, as mudanças climáticas e a crise econômica e financeira.

Nós, da Marcha Mundial das Mulheres, elaboramos documentos, demandas, valores, propostas e formas de ação. Também criamos instrumentos para a ação e a teoria feministas com base em perspectivas para o futuro. Mesmo depois de 20 anos, somos capazes de fazer nossas demandas em nível global, conseguimos unir tantas mulheres ao redor desses temas. Naquela época, estávamos pela primeira vez testemunhando e vivenciando uma ação global organizada por todas as mulheres unidas. A vida democrática e o processo de tomada de decisão têm sido coletivos desde o início.

Sempre sentimos que fazemos parte das decisões. Estamos sempre envolvidas em decisões tomadas de forma coletiva com representantes do mundo todo, sempre a mesma quantidade de representantes de cada país para garantir a democracia. Lembro que começamos como uma rede e então decidimos juntas, depois de uma década como uma rede internacional, nos tornarmos um movimento. Um movimento anticapitalista, anti-imperialista e feminista. Essa decisão foi um dos marcos importantes em nossa história.

Depois de quase uma década dessa decisão de ser um movimento feminista em nível internacional, estamos construindo uma Escola Internacional de Organização Feminista [International FeministOrganizingSchool] em conjunto com movimentos aliados. É um processo contínuo e uma construção contínua, mas acredito que esse seja outro marco em nossa história. Precisamos manter nossa memória do processo de vivência e construção. É essencial registrar nossa história e nossa experiência acumulada em nível internacional —essa é uma das importantes tarefas que temos pelos próximos anos.

Qual é a agenda feminista na Turquia e como o feminismo está organizado no país? Quais são os desafios e contribuições da Marcha Mundial das Mulheres lá?

Nós nos mobilizamos para denunciar a injustiça patriarcal, o feminicídio, a violência sexual e tentamos a todo custo defender nossas conquistas e o secularismo, ameaçados pelo governo autoritário. Com base nas nossas experiências históricas, vemos que o secularismo é a questão que mais adquire relevância em nosso território, em territórios islâmicos hoje. Compartilhamos isso com nossas companheiras do Oriente Médio, do Paquistão e de outros lugares, e concordamos que o secularismo é uma questão de grande importância em nossos territórios. Entretanto, os movimentos feministas e de mulheres da Turquia são muito fragmentados. Essa fragmentação é reflexo das divisões étnicas, religiosas e políticas no país.

A MMM uniu diferentes setores da sociedade ao redor do feminismo em suas Ações Internacionais, que nos permitiram ampliar nossas alianças com movimentos sociais. Assim, o movimento hoje está representando e construindo o feminismo popular em nosso território. Temos certo papel de liderança no debate de questões e na construção do feminismo popular aqui.

Acho importante um movimento internacional ter raízes fortes na Turquia porque o país é uma ponte entre três continentes. Ela conecta a Europa e a Ásia dos Balcãs até o Cáucaso e os países do Oriente Médio e do Mediterrâneo. É uma localização muito estratégica para o processo de construção internacional, e esse é um dos motivos pelos quais assumimos o desafio de sediar a Secretaria Internacional aqui. Esta será uma experiência internacional do movimento feminista no país. Nossa organização anfitriã é a FlyingBroom, um grupo local feminista bastante conhecido. Será uma oportunidade de focalizarmos os problemas a partir de uma perspectiva internacional, o que trará benefícios para o movimento feminista na Turquia também.

A solidariedade e o internacionalismo fazem parte da estratégia da Marcha Mundial das Mulheres desde o início do movimento. Como você vê os acúmulos e os desafios da solidariedade feminista e internacionalista diante do atual contexto de guerras de um novo tipo, criminalização, golpes e autoritarismo?

O internacionalismo é um dos princípios sobre os quais precisamos refletir mais daqui para frente, e precisamos elaborar esse princípio a partir de uma perspectiva feminista anticolonialista. Às vezes, em nome do internacionalismo, podemos acabar caindo na armadilha de recriar relações coloniais dentro do movimento. Hoje, a cooperação global é, mais do que nunca, essencial para solucionar nossos problemas, como a pandemia e as mudanças climáticas, e também em nossa luta contra esse autoritarismo de mercado que enfrentamos no mundo todo. Em princípio, a cooperação global para o internacionalismo merece especial atenção hoje. Desde o início, a Marcha Mundial das Mulheres insiste que os movimentos internacionais não podem ficar confinados à expressão de solidariedade, tendo aprofundado o significado de internacionalismo em suas ações globais.

Hoje, com a ascensão do autoritarismo de mercado por toda parte, temos o desafio de fortalecer a solidariedade internacional com mulheres do mundo todo, não apenas com as mulheres de alguns territórios específicos. Construir a solidariedade internacional é em si construir nosso feminismo popular internacional. O internacionalismo é mais do que manifestar uma solidariedade internacional, e a solidariedade internacional deve ir além da solidariedade com mulheres de territórios específicos, especialmente do Sul global. Do contrário, a divisão colonial é recriada dentro do movimento.

Manifestar solidariedade às mesmas mulheres de certos territórios e países por mais de duas décadas cria um status permanente em que algumas mulheres no movimento sempre precisam de solidariedade enquanto outras têm o privilégio de oferecer solidariedade. Como todas fazem parte do movimento, todas precisam fazer parte dos nossos processos coletivos. Essa situação recria dentro do movimento feminista internacional a hierarquia e as desigualdades que já existem entre os povos.      

A sororidade e a solidariedade são valores importantes do feminismo, mas, na nossa prática, vemos que a solidariedade é geralmente oferecida ao leste e ao sul do globo, nunca ao norte e ao oeste.  É por isso que precisamos lidar com a questão da solidariedade de uma forma diferente. Por exemplo, o que podemos fazer por mulheres que sofrem com a criminalização forjada por golpes de governos autoritários ou com um golpe militar? O que podemos fazer em nome do internacionalismo? Não podemos limitar nosso internacionalismo à solidariedade. Precisamos articular dentro do nosso movimento as mulheres que enfrentaram essas violações e apoiá-las em seus processos de construção em seus próprios países para garantir a presença delas no nosso movimento como iguais, como sujeitos políticos independentes, não apenas como dependentes da solidariedade de outras pessoas.

O feminismo atualmente faz parte da agenda de diferentes setores da sociedade, incluindo a mídia dominante e empresas transnacionais com ambientes corporativos, mas também temos visto uma expansão do feminismo em movimentos populares mistos. Ao mesmo tempo, existem visões diferentes dentro do feminismo, internacionalmente. Como você avalia a conjuntura do feminismo hoje e como o feminismo popular pode influenciar essa conjuntura?

Hoje, o processo de cooptação é um dos maiores desafios para o feminismo em todos os lugares porque o patriarcado capitalista tem uma grande capacidade de cooptação. Conhecemos esse processo de cooptação e seus mecanismos. Existem mecanismos formais e informais: o que chamamos de “maquiagem lilás” é uma cooptação informal. Com ela, as corporações tentam impor sobre nós suas próprias agendas e usar o discurso feminista em benefício do capital. O ativismo de mercado está crescendo com suas características individualistas e fragmentadas, inspirando a competição ao invés da solidariedade e da união.

Nessa conjuntura, parece muito difícil, talvez irrealista, construir uma unidade dentro do feminismo e entre os feminismos. Apesar disso, é essencial consolidar agora nossa unidade como movimento popular e manter nossos processos de construção em todos os níveis — internacional, regional e local. Nossos instrumentos nesse processo de construção são a comunicação, o treinamento e a ação feministas. Capiremov.org tem um papel muito construtivo ao conectar a ação ao treinamento, e isso em diferentes idiomas. 

Ação vale mais que palavras; é importante transformar nossa visão em ação e transformar nossa visão do feminismo popular em ação.

Mais uma vez, é hora de irmos às ruas.  Neste próximo ano, teremos um importante espaço internacional na Cúpula da OTAN em junho, que vai decidir nosso futuro compartilhado. É um momento muito importante para construirmos uma aliança sólida e protestar contra a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a militarização e a guerra.

Você foi eleita coordenadora internacional da Marcha Mundial das Mulheres na última reunião do movimento, em outubro de 2021. Considerando a trajetória do movimento desde o início, qual é o papel da Marcha Mundial das Mulheres hoje? Quais são as lutas e as apostas do movimento para este ano?

Nossa construção é um processo contínuo que inclui diversos níveis e formas de atividades. Estamos vivendo um processo de construção da Escola de Organização Feminista, uma experiência única. Agora estamos estudando formas de levar essa experiência e esses acúmulos aos níveis regional e local. Sinto que existe uma pressão por conta de desdobramentos recentes para desenvolvermos uma economia feminista tanto na teoria quanto na prática como nossa alternativa.  Para conseguirmos defender a vida e o planeta, temos que promover a discussão e a prática da economia feminista.

Também precisamos observar a história do nosso movimento. Acumulamos ao longo de duas décadas muitas experiências; agora é a hora de reunirmos todas elas. Esta é uma tarefa para a nova Secretaria Internacional e o Comitê Internacional, de forma a transmitir nossas experiências a uma nova geração de militantes feministas. Devemos isso às jovens feministas e às nossas companheiras Awa e Sashi, para que elas possam escrever suas próprias histórias e a nossa história.

Entrevista conduzida por Bianca Pessoa
Editado por Bianca Pessoa e Tica Moreno
Traduzido do inglês por Rosana Felício dos Santos

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