Nas Américas, as mulheres migram em condições cada vez mais duras. Em seus territórios, elas são empurradas por bloqueios econômicos e pela violência. Elas sustentam os cuidados antes, durante e depois da travessia e acabam chegando a países que precarizam seu trabalho e endurecem as leis contra a imigração. Daniella Inojosa, da organização feminista venezuelana Tinta Violeta, que integra a Marcha Mundial das Mulheres (MMM) no país, situa a raiz dessa perseguição. Ela diz que “as fronteiras são uma invenção. Essas linhas não existem na terra. Não foi a natureza que as colocou, foi o poder, para decidir que corpos podem se mover livres e que corpos são perseguidos. Nenhuma mulher pode ser ilegal em nenhuma parte desta Terra”.
O livro Nosso caminho: textos sobre mulheres migrantes [Nuestro camino. textos sobre mujeres migrantes] responde a esse contexto. Os textos do livro reúnem processos coletivos de reflexão e criação sobre as migrações. Está organizado em três capítulos: “Viver o caminho”, com relatos de vida e registros dos espaços virtuais de reflexão; “Pensar o caminho”, que reúne ensaios; e Cantar o caminho, feito de contos, poesia e ilustrações. A coordenação foi de Norma Cacho e Alejandra Laprea, do comitê internacional da MMM, com a colaboração da Confederação Sindical de Trabalhadoras e Trabalhadores das Américas (CSA-TUCA) e da organização Migrantas, do Chile, e o apoio da organização We Social Movements (WSM) e da Rede Inspir. O livro completo foi lançado em 18 de junho de 2026 e está disponível para download em espanhol no site da Marcha Mundial das Mulheres.
No lançamento, Norma Cacho explicou o que moveu a Marcha a construir o livro: “uma das primeiras conclusões a que chegamos é não falar de ‘crise migratória’, mas colocar em relevo que estamos atravessando uma crise global, uma crise estrutural que obriga as pessoas a migrar em condições muito desfavoráveis, sendo as mulheres que carregam os efeitos, mas também reproduzem os cuidados nos lugares onde se inserem”. Além de reconhecer as violências enfrentadas pelas mulheres imigrantes, o livro busca “tornar visíveis as resistências, as propostas e as apostas das mulheres imigrantes em qualquer espaço em que se inserem, do sul ao norte global”, diz Norma.
Alejandra Laprea afirmou a aposta política do texto:
A migração não é um problema. O problema real são as condições que nos obrigam a migrar, as condições a que somos submetidas ao migrar e as condições com que nos recebem os países de acolhida, que precarizam nossas vidas e levantam discursos de ódio. Migrar é nosso direito, companheira, e nossa luta é por migrar em condições dignas.
Abaixo traduzimos o poema Feministas populares, migrantes e diaspóricas, da poeta venezuelana Lilia Ferrer-Morillo, que vive na Argentina. Numa litania em primeira pessoa do plural, ela nomeia as condições impostas às migrantes e as converte em organização e mobilização coletiva.

Feministas populares, migrantes e diaspóricas
Lilia Ferrer-Morillo
Poeta venezuelana que vive na Argentina
Nós, migrantes, negras, indígenas, pobres, desalojadas, refugiadas, perseguidas, vítimas de tráfico, assediadas, clandestinas, cuidadoras, limpa-bundas, estrangeiras,
Nós, apátridas na própria terra que nos pariu, da qual somos arrancadas e empurradas, longe de casa, direto para a boca do tubarão,
Nós, das faveladas e suas misérias, excluídas pelo sistema, analfabetas, apesar dos diplomas e de cada apostila esfregada na cara de Haia e das burocracias criadas para desvalorizar qualquer carimbo que não seja o do Norte global,
Nós, sudacas, do sul sub-humanizado, do quintal dos fundos, apagadas do cânone e de sua soberba estética e moralidade supremacista, brancocêntrica, heteropatriarcal e regida pelo capitalismo messiânico global,
Nós, racializadas, rastreadas por tecnologias policiais biométricas que examinam nossos ossos e nossas genealogias até encontrar o DNA mitocondrial que nos geolocaliza no sul do sul das periferias globais e suas cicatrizes coloniais,
Nós, as estrangeiras, do voto de cabresto e do aborto clandestino, excluídas das estatísticas publicadas no dia seguinte, em notícias sensacionalistas, imediatistas, traiçoeiras e sangrentas, que nos criminalizam até depois de mortas,
Nós, exiladas por ameaças que querem arrancar à força nossa autoidentidade de gênero. Não dá para voltar quando a identidade e a dignidade correm tanto perigo,
Nós, aquelas que sustentamos e geramos lucro para o mercado imobiliário, que se enriquece com nosso trabalho, nosso suor e nossa ausência da própria casa. Um mercado imobiliário assimétrico que desregulamenta para cima e escraviza para baixo,
Nós, diaspóricas, desalojadas, condenadas ao desarraigo por um sistema que nos obriga a mudar constantemente de lugar, a nos afastarmos das nossas origens e da nossa essência comunitária e consanguínea, e a nos tornar párias, nômades e errantes em nossa própria terra,
Nós, trabalhadoras inferiorizadas e precarizadas, submetidas a condições de trabalho de subalternidade e de cuidado dos outros, acusadas de encostadas, mesmo que nossa jornada seja de doze horas com direito a cama, mas não a um salário digno,
Nós, migrantes, refugiadas, apátridas, da Mátria Grande, orgulhosas feministas das resistências e revoluções históricas, contra-hegemônicas, plurinacionais, diversas, lutadoras incansáveis, nós:
Amanhã paralisamos para demonstrar que, se cruzarmos os braços, o norte global vai abaixo!
