As mulheres feministas populares sabem que não há soberania alimentar sem autonomia das mulheres, assim como não há justiça social sem redistribuição da terra e garantia do acesso aos bens comuns para a sustentabilidade da vida. Defender a terra é defender a possibilidade de existir com dignidade, decidindo sobre o que se planta, o que se come, como se vive e quem ocupa o território. Por isso, a reforma agrária não é apenas uma política: é uma luta feminista que questiona as bases do poder patriarcal, colonial e capitalista que organizam a exploração da terra, da natureza e do trabalho das mulheres.
Na linha de frente do trabalho no campo, representando cerca de 40% da força de trabalho agrícola com apenas 15% da propriedade de terra, as mulheres afirmam a necessidade de uma reforma agrária integral e popular que busca transformar a economia e as relações sociais das pessoas entre si e delas com a terra e natureza. Essa luta confronta o agronegócio, a financeirização da vida e a violência nos territórios, ao mesmo tempo em que constrói alternativas baseadas na agroecologia e no cuidado. Seguindo nessa luta, mulheres de diversos movimentos populares internacionais estão em preparação para o Fórum dos Povos e Movimentos Sociais, realizada nos dias 22 e 23 de fevereiro, e a Segunda Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRADR+20) realizada de 24 a 28 de fevereiro de 2026, ambos em Cartagena, Colômbia. Esses eventos acontecem 20 anos após a conferência original da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), realizada em 2006 no Brasil.
Como explica Nury Martínez, membro do Comitê Internacional de Planejamento para a Soberania Alimentar (IPC, sigla em inglês) e da Federação Nacional Sindical Unitária Agropecuária (Fensuagro), que integra a La Via Campesina na Colômbia, essa nova conferência se dá em um momento crítico. O contexto atual de acaparamento de terras, despejos, destruição ecológica e violência nos territórios aprofundou a fome e a pobreza dentre as comunidades do campo, pescadoras, indígenas, afrodescendentes e pastoreiras. “Isso está afetando muito os territórios, não só pela destruição da terra propriamente dita, mas também da cultura, da dignidade, da soberania alimentar, destruindo tudo que envolve a biodiversidade, com mais aquecimento global”, explica.
Diante desse cenário, a Via Campesina levou ao Comitê Internacional de Planejamento para a Soberania Alimentar (CIP) a proposta de uma segunda edição da Conferência a ser realizada na Colômbia com apoio de governos aliados como o do Brasil. Como explica Nury, “a questão da terra está relacionada com tudo o que diz respeito ao cuidado do planeta. Para nós, isso vai além do acesso à terra, abrangendo também o território e a função social de produzir alimentos para os povos. Para nós isso é muito importante, considerando que a Colômbia tem um governo progressista que tem trazido a questão da terra, dos alimentos e dos camponeses ou das comunidades rurais como temas centrais”.
Desde a preparação e durante o 3º Fórum Global Nyéléni, os movimentos sociais pautaram a questão da terra e da reforma agrária na luta por soberania alimentar, agenda de luta coletiva que completa 30 anos em 2026. Por esta razão a Conferência faz parte a agenda comum dos diversos movimentos que compreendem a centralidade da luta por alimentação. Esse momento integra a agenda agrária com a questão da produção e distribuição de alimentos e o papel da sociedade como um todo nesse sistema, desde as comunidades rurais às urbanas. “Se considerarmos que tudo o que está nas agendas dos movimentos populares deve fazer parte do tema da alimentação, isso significa trazer também para o centro do debate o sistema agroalimentar industrial que está acabando com o clima e com a terra. Se não houver uma redistribuição da terra, se a produção em pequena escala, que cuida da biodiversidade e produz alimentos saudáveis, continuar sendo ignorada, as crises globais continuarão sem solução. Acreditamos que somos parte da solução “, afirma Nury.

Esse evento também acontece no contexto do Ano Internacional da Agricultora, como estabeleceu a FAO. Com objetivo de aumentar a conscientização sobre o papel das mulheres no campo e sua contribuição para os sistemas agroalimentares, o ano de 2026 irá servir de plataforma para a construção de políticas públicas específicas para esse grupo. Uma ação que busca reconhecer a contribuição das mulheres rurais para a alimentação e erradicação da pobreza e promover a igualdade de gênero.
Desde uma perspectiva feminista, as mulheres da Marcha Mundial das Mulheres defendem que a reforma agrária é um passo fundamental para construir justiça social, igualdade, respeito. O acesso à terra deve vir junto de uma perspectiva de melhores condições de vida, de moradia, de produção de alimentos saudáveis com qualidade de vida e bem viver para toda a população do campo, da floresta e das águas.
Sarah Luiza de S. Moreira, da MMM no Brasil explica como essa luta é parte fundamental do feminismo popular que o movimento constrói. “Para nós, a reforma agrária integral também busca construir uma sociedade mais justa e mais igualitária, com participação popular, respeito à natureza, ao corpo e a vida das mulheres. O feminismo e a agroecologia são passos fundamentais para a gente construir uma sociedade mais justa, com sustentabilidade da vida humana e não humana”, defende.
As mulheres agricultoras, do campo, das florestas e das águas são a base da luta por soberania alimentar e juntas constroem o caminho para a reforma agraria integral que proporcione a terra para viver e os elementos necessários para a produção de alimentos saudáveis e para o bem viver. “É a garantia de que toda a população possa ter acesso à saúde através do alimento. Além disso, a reforma agrária integral é parte da nossa estratégia para combater o latifúndio e fortalecer a agroecologia”, explica Sarah Luiza.
Nesse caminho, a contribuição do feminismo popular, anticapitalista, antirracista e anti-LGBTfóbico é garantir que as mulheres tenham acesso à terra com condições de vida e produção. Em todo o mundo, ainda são as mulheres que menos têm documentos de titularidade da terra e demais direitos. Em vários países, elas sequer possuem o direito de ter terra em seu nome, o que torna a luta por reforma agrária uma luta feminista internacionalista.
Como explica Sarah, “quando a gente fala em reforma agrária integral, que considera a perspectiva feminista e agroecológica, a gente está falando de um projeto de sociedade que busca melhores condições de vida para toda a população. Não é algo de interesse apenas de quem vai ter acesso à terra, mas a toda a população que vai ter acesso a alimentos saudáveis em suas mesas, compartilhando esse projeto de sociedade, de educação, de vida mais igualitária, mais justa, que não sobrecarregue e gere tanta pobreza também nas cidades”.
Desde essa perspectiva integral, movimentos populares diversos defendem que essa luta não está limitada à terra. Como explica Nadini Orchid Nembhard, copresidente do Fórum Mundial dos Povos Pescadores (WFFP, na sigla em ingês): “pela perspectiva do movimento global das pessoas pescadoras, a reforma agrária deve incluir explicitamente os territórios costeiros, marinhos, ribeirinhos e das águas continentais, reconhecendo que, para os povos indígenas e da pesca artesanal, não há separação entre terra e água. A reforma agrária, portanto, é compreendida como reforma territorial”.
Segundo Nadini a agenda central dos povos pescadores na Conferência está centrada no avanço no reconhecimento, proteção e redistribuição dos direitos de posse da terra baseados nos costumes e práticas sociais e do direito aos territórios. “Isso inclui a garantia dos direitos coletivos a terras costeiras, áreas litorâneas, manguezais, regiões pesqueiras, rios, lagos e comuns relacionados que sustentam meios de vida, culturas, sistemas alimentares e o manejo responsável dos ecossistemas”, explica.
A Via Campesina tem um papel central na relação com o governo colombiano para a preparação da Conferência. Por isso a expectativa é de que esse espaço tenha uma maior participação dos movimentos sociais, do campo, indígenas, pastoralista e pescadores. Sobre a participação, Nury explica que embora todas as redes globais que compõem o CIP estejam presentes, há um foco nos grupos de juventude e nas mulheres. “O papel da juventude na questão do acesso à terra e ao território, bem como na produção de alimentos, está relacionado com o reconhecimento de que a juventude deve permanecer no campo, pois o futuro do campo e da produção de alimentos está nas mãos da juventude. Se não tiverem acesso à terra, dificilmente poderão permanecer no campo e não terão oportunidades”.
Sobre as mulheres, as lutas e alternativas já estão sendo construídas, em um reconhecimento de como a concentração de terra as afeta diretamente e de como elas, a partir da sua organização, já produzem vida em seus territórios. “Nós não estamos esperando que essa terra chegue, estamos lutando por ela coletivamente, politicamente, em integração com todos os movimentos e lutas coletivas dos povos do campo, mas também da floresta e das águas”, defende Sarah.
Assim como Sarah, Nadini defende o papel dos povos pescadores nessa luta coletiva. “Nós afirmamos que as comunidades pesqueiras das regiões costeiras e continentais fazem parte da luta pela reforma agrária, resistindo à expulsão de seus territórios provocada pela aquicultura industrial, a expansão dos portos, o turismo, as unidades de conservação e as indústrias extrativas, e exigindo a redistribuição e a garantia da posse coletiva da terra, das águas e dos territórios de onde as populações foram expulsas”.
