Nós, mulheres negras, sabemos como o capitalismo e o imperialismo se atualizam para reproduzir o seu sistema de dominação. Por mais importante que seja cada ação nossa de resiliência e de resistência nos territórios, é preciso estabelecer redes de apoio, solidariedade e constante diálogo para construir o mundo que queremos, que sonhamos e que necessitamos.
É preciso criar elos que transcendam as fronteiras traçadas pelo capitalismo. E é esse mesmo capital que retira de nós as condições plenas de nos desenvolvermos como seres humanos, porque concentra riqueza, promove desigualdade e guerra, destrói nossos corpos e subjetividades. Destrói o nosso sentido de sermos irmãos e irmãs.
Defender o feminismo popular e antirracista é defender esse elo incondicional que criamos entre nós e com a classe trabalhadora em geral. Nós sempre estivemos ali. Somos nós, as mulheres, que estamos na base da pirâmide social. Somos nós, as mulheres negras, que em catástrofes e epidemias reorganizamos o tecido social. Somos nós que sustentamos a vida quando todos os nossos algozes, os agentes do capital, não apresentam nenhuma alternativa para nos retirar da crise em que eles mesmos nos querem jogar.
Somos nós que sabemos criar tecnologia social para nos sustentar e continuar defendendo a vida e o direito a viver. E é por isso que, se somos nós que construímos tudo e que damos sustentação à vida social e à classe trabalhadora, nós não vamos tolerar mais nenhum tipo de violência contra nós, mulheres, em qualquer parte do mundo.
Enfrentar a violência e a extrema direita
No Brasil, é preciso denunciar o grau e o nível de violência contra nós, mulheres. O feminicídio cresceu assustadoramente: nos três primeiros meses do ano de 2026, os casos de feminicídio aumentaram mais de 7%. Uma mulher está morrendo a cada cinco horas neste país.
O estado de São Paulo, o mais rico da federação, é o que mais mata mulheres. É governado pela extrema direita, que recentemente recebeu Milei para reforçar essa rede de extrema direita na América Latina. Isso é uma ameaça às mulheres negras, porque sabemos como a extrema direita nos trata: nos vê como aquelas que não sabem, nem devem participar de política, que devem voltar para as casas, para a vida privada, para servir aos seus maridos, aos homens, nas igrejas.
Por isso, não podemos perder de vista o empenho dos governos de extrema direita. Eles estão olhando para a América Latina como um espaço para reorganizar o poder a partir do capitalismo financeiro, do neoliberalismo e de governos extremamente conservadores e perverso para as mulheres.
Também quero denunciar que nossas meninas estão correndo muito risco: aumentaram os casos de violência nas escolas. Isso se dá nesse mesmo estado que impede discussões sobre relações de gênero ou sobre outras cosmovisões na escola. Há um projeto de morte em curso. Querem capturar a nossa liberdade para submeter os nossos corpos e os nossos povos. Uma cultura de violência está sendo cultivada e reapresentada para toda a América Latina e o Caribe.
O feminismo é um alvo para eles, porque é nossa forma de nos organizar, de nos entender como sujeitos políticos e de apresentar um projeto civilizacional diferente, transformador. É um projeto que inclui a reparação histórica, que diz que precisamos viver com qualidade, bem viver, segurança. Precisamos poder circular de forma segura, sem medo de transitar nos espaços públicos, sem sofrer violência nas esferas pública e doméstica.
Reforma agrária, reparação e luta
O Movimento das Trabalhadoras e dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tem um programa agrário popular. Nós anunciamos para a sociedade brasileira que é necessário radicalizar a democracia em nosso país. Sem democratizar a terra, sem garantir o direito a produzir alimentos saudáveis, a ter moradia, trabalho, escola e vida em abundância, nós não iremos democratizar a sociedade brasileira.
Não vamos construir esse programa agrário sozinhos e sozinhas. Nós estamos em constante relação com os movimentos populares do Brasil e do mundo. Queremos construir esse programa agrário popular com os povos do campo e da cidade. Quem separou campo e cidade não fomos nós: foi o capitalismo, que quer nos cindir e nos fragmentar.
Estamos com o movimento negro, com os movimentos populares do campo, das florestas, das águas, os povos quilombolas, os povos indígenas. São esses povos que há 500 anos resistem.
A reforma agrária é reparação histórica. Não se trata apenas de reposição econômica, o que já é importante. Queremos o direito ao acesso à terra garantido. Queremos constituir territórios livres do patriarcado, das opressões, da LGBTfobia, do machismo, da misoginia. Queremos construir relações saudáveis: com a natureza, através da agroecologia, e as perpassadas pela reorganização do trabalho, que deve ser coletivo e funcionar sob outra matriz, que não a matriz da exploração.
Por isso, defendemos a reforma agrária popular como uma reparação histórica em nosso país e como condição fundamental para aprofundarmos a democracia em nossa sociedade. Estamos em luta contra o imperialismo, contra o capitalismo, por vida em abundância para nós, mulheres.

Simone Magalhães é militante do Coletivo Terra, Raça e Classe do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Este texto é uma edição de sua fala pública no webinário “Feminismo popular e antirracista por reparação e bem-viver”, organizado pela Marcha Mundial das Mulheres em 25 de julho de 2026.
