A reparação é um tema muito importante para as nossas lutas, e hoje vamos entender por quê. Sabemos que todas as pessoas merecem o bem viver, como se diz na América Latina. Isso não significa uma vida de ostentação, em que eu precise dirigir um carrão e morar em uma casa luxuosa. Estamos falando de uma vida boa, em que todas as pessoas tenham acesso a uma boa alimentação e condições dignas de vida, em que haja justiça. O bem viver não pode existir quando algumas pessoas vivem com dignidade enquanto outras lutam todos os dias para sobreviver.
Queremos falar sobre reparação porque ela não deve ser um ato de caridade. Deve ser um ato deliberado de justiça.
Vivemos em um mundo capitalista, em que grande parte da nossa vida é determinada por esse sistema. Mas os movimentos feministas populares sempre nos lembram, e trabalhamos em articulação com movimentos sociais aliados, que outro mundo é possível. De fato, é possível, mas somente se começarmos a agir para construir esse mundo que queremos. Qual é a nossa alternativa? Como vamos torná-la possível? Nosso mundo deve ser construído sobre o cuidado, a igualdade e a nossa liberdade coletiva.
Diante do crescimento do antifeminismo, com tantos grupos fascistas e conservadores, é muito importante que as feministas populares continuem se organizando. Nossa resposta não pode se limitar à resistência. Resistimos muito ao sistema neoliberal de opressão que atravessa nossas vidas, mas nossa resposta também precisa ser corajosa. Imaginar e construir esse bem viver pelo qual todas nós lutamos e que todas as pessoas merecem é um trabalho que exige coragem.
Para nós, a reparação deve estar a serviço do bem viver. A filosofia africana do ubuntu nos ensina que “eu sou porque você é”, e nós somos porque todas as pessoas são. É uma concepção muito próxima das filosofias do bem viver da América Latina.
Para nós, reparação significa restaurar a dignidade e aquilo que foi perdido, além de redistribuir o poder que nos foi tirado. Significa reparar nossas relações e os sistemas que foram construídos ao longo do tempo, investindo no cuidado, na paz e no bem-estar das comunidades.
Recentemente, muitos têm falado sobre reparação. Nossos Estados e muitos dos governos que continuam causando danos também estão falando sobre reparação. A pergunta que precisamos começar a fazer é: reparação para quem? Definida por quem? Também precisamos contribuir para definir o que justiça e bem viver significam para o movimento feminista e para os povos que têm sido oprimidos.
O feminismo popular e a reparação estão profundamente conectados porque ambos buscam transformar os sistemas. Queremos transformar e desmantelar esses sistemas que nos sufocam e tornam nossas vidas tão difíceis todos os dias. Buscamos nossas próprias alternativas construídas a partir da economia feminista, criando nossos próprios sistemas de justiça, capazes de romper com a injustiça e a desigualdade que se espalham pelo mundo.
Nossa Práxis
Precisamos entender o que está acontecendo, porque, se não entendermos, será muito difícil nomear, enfrentar e transformar essa realidade. Depois, precisamos entender por que isso está acontecendo. Podemos pensar que tudo surgiu de repente, mas parte do que vivemos é resultado de uma longa história de conflitos e lutas. E então precisamos pensar no que devemos fazer juntas.
Como feministas, sabemos que vamos debater, mas também precisamos teorizar sobre aquilo que discutimos. Lembro do que Nalu Faria sempre nos dizia: teoria e prática são o que fortalece nossos movimentos feministas e socialistas e, por isso, não podemos separá-las. Continuaremos aprendendo com nossas ancestrais e com as pessoas que já estão construindo essas lutas. Os movimentos feministas populares fundamentam sua resistência no cuidado e na transformação. Lideramos essas comunidades porque são as nossas próprias comunidades, construídas a partir da base.
Vivenciamos muitas injustiças todos os dias, e vou falar especialmente a partir da experiência das companheiras africanas e da minha própria experiência. Desde o momento em que uma criança nasce, recebe um rótulo, e esse rótulo se transforma em uma luta e em uma corrente que ela carrega consigo todos os dias, até o fim da vida.
Por isso, o debate sobre reparação nos convida hoje a enfrentar os danos do passado. Há muitas injustiças históricas que precisamos começar a reparar. Debater nos convida também a falar sobre as injustiças que vemos hoje e sobre o que estamos fazendo diante delas. E nos ajuda a imaginar esse mundo bom que queremos construir.
Os Desafios que Enfrentamos
A questão da reparação é delicada: no momento em que você começa a falar sobre reparação e sobre as injustiças cometidas, você vira um alvo. Estamos vendo muitas narrativas nocivas que nos retratam dessa forma. Há muitas ofensivas antifeministas acontecendo em todo o mundo. O antifeminismo que vemos vai além da oposição às mulheres. As pessoas dizem: “mulheres, as mulheres já conquistaram tanta coisa”, “vocês falam demais sobre as mulheres”, “vocês já estão fazendo tanta coisa”, “o que mais vocês querem?”Isso é algo que precisamos sempre lembrar: as pessoas estão usando algumas conquistas para justificar as violências e injustiças que continuam existindo, e não podemos permitir que façam isso.
O espaço cívico tem se reduzido muito, e é nele que nossas vozes feministas se fazem ouvir. É onde nossas vozes coletivas se encontram e onde construímos nossas estratégias. Choramos juntas, rimos juntas e pensamos juntas em como construir nossas alternativas.
Estamos vendo muitos ataques contra quem luta por justiça de gênero. Vemos defensoras e defensores dos direitos humanos sendo presos todos os dias. Os feminicídios e os desaparecimentos de mulheres já nem são novidade. Acontecem todos os dias.
Nossos movimentos feministas populares são fundamentais para enfrentar esse sistema. Fazemos tudo o que podemos para construir nossos espaços e reunir nossos esforços coletivos, e isso nos dá muita esperança. Nossas histórias são construídas sobre a solidariedade, a consciência política e o nosso poder coletivo, e nada disso pode ser construído de forma isolada.
E o que precisamos fazer? Nossos movimentos precisam se unir e atuar em conjunto, reunindo nossas aliadas e nossas companheiras para dialogar sobre essas questões e construir alternativas. Precisamos continuar fortalecendo nossa solidariedade entre movimentos e gerações. E precisamos transferir poder para as pessoas mais duramente afetadas.
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Sophie Dowlar integra a Marcha Mundial das Mulheres (MMM) no Quênia e coordena a edição africana da Escola Internacional de Organização Feminista Berta Cáceres (Afro-IFOS). Este texto é uma edição de sua fala pública no webinário “Feminismo popular e antirracista por reparação e bem viver”, organizado pela MMM, pelo Capire e pela ALBA Movimentos, em 26 de julho de 2026.
