Na madrugada fria do inverno de Bitola, uma fina camada de poeira preta encobre os peitoris das janelas antes do amanhecer. O pó vem da usina termelétrica a carvão das proximidades, a maior da Macedônia do Norte e uma das maiores poluidoras do ar nos Bálcãs Ocidentais. Para as mulheres que vivem aqui, limpar essa poeira virou uma rotina tão comum quanto ferver água para o café. O que é invisível, no entanto, é a forma como essa poluição afeta o cotidiano delas — a saúde, o trabalho, o tempo e o futuro.
Em toda a região dos Bálcãs Ocidentais — das minas de cobre da Sérvia aos vales de linhito da Bósnia e as usinas termoelétricas da Macedônia do Norte —, a história é a mesma: a economia continua dependente dos combustíveis fósseis, e as mulheres carregam em silêncio o fardo mais pesado dessa dependência. Enquanto os debates sobre energia se concentram em quilowatts e investimentos, poucos se perguntam quem arca com o custo humano dessa atividade.
De acordo com a Agência Europeia do Ambiente, seis das dez centrais elétricas mais poluentes da Europa estão localizadas nos Bálcãs Ocidentais, emitindo mais dióxido de enxofre do que todas as usinas a carvão da União Europeia (UE) juntas. Na Macedônia do Norte, a origem de cerca de 45% da eletricidade ainda é o carvão, enquanto na Sérvia esse índice ultrapassa os 65%.
Uma crise com marcas de gênero
A poluição do ar nos Bálcãs está entre as piores da Europa. De acordo com a Aliança para a Saúde e o Meio Ambiente (Heal), as usinas a carvão da região levam a dezenas de milhares de mortes prematuras todos os anos. Só na Macedônia do Norte, a poluição do ar mata mais pessoas proporcionalmente à população do que em qualquer país da UE. E por trás dessas estatísticas estão histórias individuais de mães cuidando de filhos doentes, mulheres que não têm condições de aquecer suas casas, avós que vivem perto de lagoas de cinzas tóxicas.
“As mulheres da nossa região estão na linha de frente da degradação ambiental”, afirma a jornalista e ativista ambiental Aleksandra Nakova, de Skopje. “São elas que cuidam da casa, criam os filhos, cuidam dos idosos e, ao mesmo tempo, respiram o ar mais poluído da Europa.”
A Heal estima que a poluição das usinas a carvão dos Bálcãs Ocidentais provoque 19 mil mortes prematuras e 8,5 mil casos de bronquite crônica em adultos todos os anos em toda a Europa. Só em Bitola, os níveis médios de PM2.5 [material particulado fino que compõe a poluição] no inverno excedem 70 µg/m³, índices quase sete vezes superiores ao limite de segurança da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Falando a partir de uma perspectiva de gênero, a crise dos combustíveis fósseis não se resume apenas às emissões: trata-se de desigualdade. As mulheres estão mais vulneráveis a viver na pobreza e em moradias sem eficiência energética, e mais propensas a não terem acesso aos espaços de tomada de decisão onde a política energética é definida. Elas estão expostas à poluição por meio do trabalho de cuidados não remunerado e são muitas vezes excluídas dos empregos mais bem-remunerados no setor energético.
O marco da transição energética com justiça de gênero, agora utilizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e por organizações feministas em todo o mundo, ajuda a analisar esse desequilíbrio em detalhe. São três perguntas fundamentais: Quem arca com os custos do nosso sistema energético? Quem tem voz na sua definição? E quais necessidades são reconhecidas? Nos Bálcãs Ocidentais, as respostas revelam uma profunda injustiça estrutural.

Saúde à margem
A poluição provocada pela queima de combustíveis fósseis não afeta todos os gêneros da mesma forma. Estudos associam a exposição prolongada a partículas em suspensão a taxas mais elevadas de abortos espontâneos, infertilidade e câncer de mama. Em cidades mineradoras como Bor, na Sérvia, e Tuzla, na Bósnia, a população registra um número crescente de doenças respiratórias e casos de câncer. Mas poucas dessas estatísticas de saúde são desagregadas por gênero, o que invisibiliza estatisticamente o sofrimento das mulheres.
Em Bitola, pediatras há muito alertam sobre a asma entre as crianças. “Todo inverno, o hospital fica lotado”, diz uma pessoa enfermeira da região que pediu para não ser identificada. “O ar tem cheiro de carvão queimado e as mães chegam com crianças que estão com dificuldade para respirar. São sempre as mães — elas ficam em casa, faltam no trabalho, ficam sentadas ao lado do leito no hospital. A poluição rouba o tempo e a força delas.”
Os sistemas de saúde da região raramente relacionam a poluição ambiental com a saúde reprodutiva ou o bem-estar mental das mulheres. A maioria dos relatórios governamentais trata a poluição do ar como uma questão técnica, não social. A relação invisível entre combustíveis fósseis e desigualdade de gênero continua, em grande medida, inexplorada.
Pobreza energética e sobrevivência cotidiana
Enquanto os políticos falam em transição energética, milhões de famílias dos Bálcãs vivem no que especialistas chamam de pobreza energética: a incapacidade de pagar por um sistema adequado de aquecimento, refrigeração ou eletricidade. De acordo com o Secretariado da Comunidade da Energia, quase uma em cada três famílias da região tem dificuldade para pagar as contas de energia. As mulheres, sobretudo mães solo, aposentadas e aquelas que vivem em zonas rurais, são as mais afetadas.
Em muitos povoados, o aquecimento ainda depende de lenha ou carvão. Coletar, transportar e gerir esse combustível é tarefa das mulheres. Em conjuntos de prédios residenciais antigos, são geralmente as mulheres que fazem fila para pagar as contas ou discutir com a empresa de energia elétrica. Quando os preços da energia sobem, são as mulheres que cortam custos, reduzindo o aquecimento de três para um cômodo, cozinhando menos ou adiando consultas médicas para economizar.
No inverno, a baixa qualidade do ar e a precariedade do aquecimento se combinam em um ciclo vicioso: as mulheres inalam mais fumaça dentro de casa enquanto os homens que trabalham em minas ou fábricas são expostos nos ambientes externos. No entanto, as soluções — melhor isolamento, fogões limpos, painéis solares — continuam fora do alcance das famílias de baixa renda.
O sistema energético masculino
As indústrias de energia dos Bálcãs Ocidentais — mineração de carvão, refino de petróleo, geração de energia — são quase inteiramente dominadas pelos homens. As mulheres representam menos de 12% da força de trabalho do setor energético nos Bálcãs Ocidentais, e menos de 5% ocupam cargos técnicos ou de gerência. Em contrapartida, realizam mais de 70% do trabalho doméstico não remunerado relacionado à energia dentro de casa — aquecimento, cozinha e cuidados.
No atual projeto da Macedônia do Norte para substituir o carvão por energia solar em Oslomej, aclamado como um modelo de “transição justa”, apenas um punhado de mulheres participou das consultas iniciais. Os programas de capacitação para novos empregos verdes na construção e manutenção ainda são voltados para os homens. Sem medidas deliberadas que levem em conta a questão de gênero, segundo Aleksandra Nakova, “corremos o risco de construir o mesmo patriarcado com painéis solares”.
A transição do carvão para a energia limpa muitas vezes é tratada como uma necessidade econômica, mas também é uma necessidade cultural. Durante décadas, a identidade masculina nas cidades industriais dos Bálcãs esteve ligada à mina, à usina de energia e à fábrica. Conforme esses empregos desaparecem, as tensões sociais aumentam, e as mulheres são deixadas para absorver o choque, mantendo as comunidades unidas por meio de cuidados não remunerados, práticas de pequena agricultura e trabalho informal.
Vozes ausentes na mesa
A injustiça processual — falta de participação das mulheres na tomada de decisões — é um dos maiores pontos cegos da política energética dos Bálcãs. Na maioria dos países, os ministérios da energia, as empresas nacionais de distribuição de energia e as agências reguladoras são lideradas por homens. As consultas às comunidades afetadas, quando ocorrem, são breves e técnicas. As mulheres dos territórios — que podem compreender as consequências diárias da poluição, dos aumentos de preços e dos apagões — raramente são convidadas ou ouvidas.
As organizações da sociedade civil têm tentado preencher essa lacuna. A Rede WASH dos Bálcãs [Balkan WASH Network], por exemplo, reúne mulheres de zonas rurais para defender o acesso à água potável e ao saneamento. Grupos como Mulheres Engajadas por um Futuro Comum [Women Engage for a Common Future – WECF] e Jornalistas pelos Direitos Humanos [Journalists for Human Rights] documentam histórias de mulheres que vivem perto de minas e zonas industriais. Mas suas recomendações muitas vezes acabam indo parar nas notas de rodapé dos relatórios oficiais.
As possibilidades da transição
Uma transição com justiça de gênero implica mais do que substituir o carvão por painéis solares. Implica investir nas pessoas — sobretudo nas mulheres. Isso inclui a garantia do acesso à creche e ao transporte público, para que as mulheres possam participar de novos programas de capacitação; incentivos financeiros para cooperativas de energia lideradas por mulheres; e projetos locais de energia renovável que beneficiem as comunidades, não os investidores privados.
Já existem iniciativas-piloto. Na zona rural da Sérvia, uma pequena cooperativa de mulheres agricultoras instalou desidratadores para frutas e ervas que funcionam com energia solar, reduzindo custos e gerando renda extra. Na Bósnia, associações locais de mulheres fazem campanha pelo direito de monitorar dados sobre a poluição. Na Macedônia do Norte, engenheiras estão entrando no crescente setor de auditoria e eficiência energética. Esses exemplos mostram que, quando as mulheres lideram, a sustentabilidade se torna não apenas mais limpa, mas também mais justa.
Mas esse avanço ainda é frágil. Sem apoio político de longo prazo, muitos projetos locais sobrevivem apenas como experiências financiadas por doadores. Para transformá-los em mudanças sistêmicas, os governos precisam coletar dados desagregados por gênero, estabelecer cotas para a participação das mulheres e vincular políticas sociais — como trabalho de cuidados e emprego — a metas climáticas e energéticas.
Além dos números: uma mudança cultural
A transição energética não é uma questão apenas técnica: é profundamente social. Ela exige repensar o que valorizamos como “trabalho” e quem pode moldar o futuro. Durante gerações, as mulheres nos Bálcãs foram tratadas como vítimas da pobreza e da poluição, raramente entendidas como sujeitos ativos no setor energético. No entanto, elas já são gestoras de energia, decidindo quando ligar o aquecedor, como economizar combustível, como manter uma família viva durante uma crise.
É fundamental reconhecer esse conhecimento cotidiano. À medida que a região avança na adesão à UE e a uma energia mais limpa, a igualdade de gênero deve ser incorporada a todas as políticas. O custo de ignorar isso é alto: transições que excluem metade da população não são justas nem sustentáveis.
Há muito tempo o preço oculto da energia tem sido pago pelas mulheres. Um futuro energético verdadeiramente justo só chegará quando elas não tiverem mais que limpar a poeira de um sistema construído em cima do silêncio delas.
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Natasha Dokovska é integrante da Marcha Mundial das Mulheres na Macedônia do Norte.
