Como parte do mês da Luta das Mulheres Trabalhadoras, as vozes das mulheres pastoras ecoaram alto, vindas de diferentes cantos do mundo. A liderança, a resiliência e o profundo conhecimento de seus territórios são essenciais para a sustentabilidade de suas comunidades e dos ecossistemas onde vivem. Em um webinário recente organizado pela Aliança Global de Povos Pastores e Indígenas Nômades (World Alliance of Mobile Indigenous Peoples and Pastoralists — Wamip), Mamankhuu Sodnom, da Mongólia; Megha Sheth, da Índia; Monicah Yator, do Quênia; e Marite Álvarez, da Argentina, compartilharam experiências, desafios e caminhos para fortalecer as mulheres na pastorícia.
Mamankhuu Sodnom, coordenadora regional da Wamip para o Leste Asiático e Ásia Central, apresentou um relato sobre a vida enraizada nas tradições nômades. Pastora e pequena produtora de laticínios há mais de 60 anos, Mamankhuu enfrenta a ameaça premente da expansão das mineradoras que avançam sobre os campos de pastoreio. Essa apropriação de terras ameaça o modo de vida de sua comunidade e, consequentemente, a subsistência de mulheres e famílias que dependem de seus rebanhos. Em resposta a esses desafios, Mamankhuu destaca a necessidade de promover o valor dos produtos da pastorícia e preservar e transmitir saberes ancestrais para gerações futuras, sobretudo para mulheres jovens. Sua colaboração ativa com o governo da Mongólia no marco do Ano Internacional das Pastagens e das Pessoas Pastoras (International Year of Rangelands and Pastoralists — IYRP) destaca a importância de garantir que as vozes das mulheres pastoras sejam ouvidas e consideradas nas políticas que afetam suas vidas.
Do árido ao semiárido de Kutch, na região oeste da Índia, Megha Sheth, integrante da Wamip e da Aliança de Pessoas Pastoras do Sul da Ásia, apresentou um exemplo inspirador de liderança das mulheres na gestão das pastagens comunitárias. Reconhecendo que a pastorícia é mais do que um trabalho — é um modo de vida que oferece soluções para diversas crises —, a Aliança de Mulheres Pastoras Maldhari lançou um projeto piloto em dez povoados. A partir da criação de comitês gestores de pastagens liderados por 110 mulheres pastoras, elas enfrentaram a questão da redução e degradação das terras para pastagem. Essas mulheres receberam formação em mapeamento de terras, liderança, planejamento de desenvolvimento de pastagens e práticas de recuperação sustentável. Os resultados foram impressionantes: lideradas por elas e guiadas por seus saberes tradicionais, enviaram propostas para instâncias locais e garantiram o reconhecimento formal de títulos de terra para 2.080 acres de áreas de pastagem. Além disso, elas implementaram práticas de restauração, como abertura de clareiras, nivelamento de terrenos e plantio de gramíneas nativas resilientes ao clima. Esse esforço coletivo levou à regeneração e restauração de mais de 100 acres de áreas de pastagem, beneficiando mais de 1.020 famílias. A experiência das mulheres pastoras Maldhari demonstra como a liderança das mulheres pode garantir a sustentabilidade ecológica e econômica de suas comunidades e, ao mesmo tempo, promover a governança e o reconhecimento formal de seus direitos sobre a terra.
Da Wamip no leste e sul de África, Monicah Yator, mulher pastora queniana com orgulho e fundadora da Iniciativa de Mulheres e Meninas Indígenas, descreveu as profundas barreiras sócio-culturais que as mulheres enfrentam em suas comunidades, o que fica evidente pela ausência delas em espaços decisórios relacionados aos comuns. Apesar de serem o pilar que sustenta suas famílias — muitas vezes com propriedade limitada de rebanhos —, as mulheres pastoras sofrem com os gravíssimos impactos dos desafios ambientais como as mudanças climáticas e as enchentes, bem como a marginalização política e a falta de representatividade em órgãos de governo. A infraestrutura inadequada em seus territórios impede ainda mais sua capacidade de se conectar e mobilizar. Monicah destacou a necessidade urgente de se construir marcos para políticas que reconheçam e protejam a pastorícia em África, garantindo o uso da terra e os direitos de propriedade. Ela também enfatizou a importância de discutir a resiliência à seca e a adaptação climática a partir de uma perspectiva de gênero, além de melhorar o acesso a serviços sociais e à educação para crianças pastoras. Por fim, Monicah chamou os governos a reconhecerem e apoiarem a pastorícia como um modo de vida e a protegerem os direitos de mulheres pastoras que enfrentam deslocamentos forçados e perda de meios de subsistência em função de conflitos.
Marite Álvarez, representante de organizações pastoras da Argentina e coordenadora regional da Wamip para a América Latina, destacou o aumento das ameaças contra territórios pastores na região em função da intensificação do extrativismo, do agronegócio e do turismo. Ela expressou um forte sentimento de esperança de que 2026, Ano Internacional das Pastagens e das Pessoas Pastoras (IYRP), servirá como momento crucial para tratar desses desafios, incluindo a falta de reconhecimento do valor da pastorícia na América Latina, a ausência de políticas de proteção aos direitos territoriais e a necessidade de haver maior apoio a organizações pastoras por meio de modelos alternativos de desenvolvimento e da visibilidade global de experiências e demandas de pessoas pastoras da América Latina. Ela enfatizou a importância da participação em espaços globais para identificar problemas comuns e garantir que a visibilidade do IYRP se traduza em programas concretos de apoio a organizações e famílias pastoras, reconhecendo sua contribuição para a soberania alimentar, o combate à mercantilização, a garantia de alimentos de qualidade e o acesso a direitos.
O webinário também destacou a importância fundamental da pastorícia para a sustentabilidade do ecossistema, a preservação cultural e a soberania alimentar. Por ser um modo de vida sustentável, resiliente e ancestral, a pastorícia exemplifica a soberania alimentar em ação, mas está sendo cada vez mais ameaçada pelo acaparamento de terras, as mudanças climáticas e as políticas que favorecem o agronegócio. Nesse contexto, o processo do Nyéléni, nascido a partir do fórum de 2007 no Mali, foi mencionado como um farol de esperança para os movimentos que lutam por soberania alimentar. O 3.o Fórum Global Nyéléni, que acontecerá no Sri Lanka em setembro de 2025, foi destacado como um momento-chave para a unidade e a ação popular, inspirando o caminho para o IYRP 2026.
O papel central das mulheres pastoras e de outras pequenas produtoras de alimentos ao redor do mundo é fundamental para a sobrevivência de suas comunidades e a gestão sustentável dos recursos naturais. É crucial garantir seus direitos à terra e a recursos, promover sua liderança e participação em processes decisórios e implementar políticas que reconheçam e valorizem seus saberes tradicionais, assim como suas contribuições para a soberania alimentar e a preservação do ecossistema. Neste mês da Luta das Mulheres Trabalhadoras, as vozes das mulheres pastoras da Wamip nos lembram da importância de amplificar e apoiar sua liderança e resiliência em escala global.
Este artigo foi produzido pela equipe de comunicação do Nyéléni e foi originalmente publicado no site do 3.o Fórum Global Nyéléni.