América Latina no tabuleiro geopolítico: desafios e caminhos para a transformação

27/03/2026 |

Stephanie Weatherbee

Stephanie Weatherbee, da Assembleia Internacional dos Povos, faz análise sobre contexto político latino-americano

Vivemos um momento histórico de inflexão. O mundo que conhecemos está em transformação, e as placas tectônicas da geopolítica global se movem sob nossos pés. Para entender onde estamos e para onde podemos ir, precisamos primeiro compreender as forças que moldam o cenário internacional – com a clareza necessária para agir. Os Estados Unidos, potência hegemônica das últimas décadas, adotam hoje uma visão mais realista dos desafios colocados à unipolaridade que pretendem manter.

Antes de 2025, a estratégia estadunidense era de máxima extensão. Pretendiam simultaneamente debilitar a Rússia através do conflito na Ucrânia, intimidar a China com guerras tarifárias, preservar a hegemonia no Oriente Médio através do apoio irrestrito a Israel e proteger seus interesses na América Latina a partir de governos aliados. Uma ambição desmedida que supunha recursos ilimitados e um mundo passivo diante de suas investidas.

O ano de 2025 demonstrou a inviabilidade dessa empreitada. A Rússia não foi debilitada como esperado. A China enfrentou a guerra econômica com resiliência impressionante. O apoio incondicional ao massacre do povo palestino teve um custo que os estrategistas de Washington não calcularam adequadamente.

Diante dessa realidade, a postura adotada foi de recuo tático. Não um recuo por convicção, mas por necessidade. Uma postura mais focada nas necessidades centrais que visam a preservação da hegemonia. E isso significa reorganizar o mapa das prioridades.

Na Ásia, os Estados Unidos reconhecem que, neste momento, não é possível contrabalancear a hegemonia chinesa em sua própria região. Sim, continuam os acordos econômicos com Japão e Coreia do Sul. Sim, continuam as tarifas punitivas contra Vietnã e Malásia. Sim, fortalecem-se as bases militares em Diego Garcia, nas Filipinas, e amplia-se a presença militar na Austrália. Porém, a aproximação entre Índia e China, a consolidação da unidade entre China, Coreia do Norte e Rússia, assim como a força econômica do bloco ASEAN, demonstram que a China não será deslocada de seu papel central na Ásia neste momento. O império foi forçado a aceitar essa realidade.

O continente africano se mantém em disputa, mas não como prioridade fundamental. Os Estados Unidos perseguem uma rota de desestabilização política na região – estratégia que, convenientemente, permite a extração irrestrita de recursos. Onde há caos, há oportunidade para o saque. Atualmente, o único projeto no continente africano que se opõe frontalmente a essa estratégia é a Aliança dos Estados do Sahel, que conta com apoio importante da Rússia e relações estratégicas com a China e outras potências. Um farol de resistência em meio à tempestade.

Na Europa, o trumpismo vê aliados fracos que, na visão de Washington, não merecem toda a benesse do império para patrocinar sua defesa. A Casa Branca de Trump também entende que a China representa o adversário principal, e que para enfrentar sua estratégia em relação a Rússia será necessário buscar outros meios para alcançar o que não conseguiu através do conflito na Ucrânia – meios que não necessariamente requerem o alinhamento total da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). É uma mudança significativa na estratégia: priorizar o inimigo principal e buscar caminhos alternativos para neutralizar adversários secundários.

No Oriente Médio, os Estados Unidos preservaram e conquistaram espaços de influência, mas de maneira profundamente instável, que não garantiu os objetivos almejados tanto pelos EUA como por Israel. Preservou-se a integridade da ocupação israelense da Palestina. Conquistou-se influência na Síria e no Líbano. Mas, frente à impossibilidade de derrubar o governo do Irã após o lançamento de mísseis em 2025 e a provocação à insurreição no começo do 2026, se recorreu a uma guerra frontal. O povo iraniano e seu governo reagiram com resistência e unidade ao assassinato do aiatolá Ali Khamenei, desenhando um cenário desfavorável para a vitória dos Estados Unidos e Israel. Assim, o Oriente Médio permanece com uma ferida aberta que não cicatriza, porque as injustiças não foram resolvidas, apenas reprimidas temporariamente.

Nesse cenário de reajuste estratégico, as grandes necessidades do império são três: ampliar o campo de influência onde ainda é possível; conter o crescimento do campo multipolar antes que se consolide; e acumular força para um cerco militar e isolamento econômico da China.

O papel da América Latina no rearranjo geopolítico

Nesse cenário de reconfiguração global, a América Latina reemerge como uma prioridade geopolítica para os Estados Unidos. Isso não é simplesmente Trump sendo errático ou imprevisível. Por trás da retórica agressiva há um cálculo estratégico do novo consenso que está sendo construído dentro das cúpulas do poder.

É verdade que a dominação da América Latina tem uma história que busca se reproduzir nos tempos atuais, embora com outras formas. A Doutrina Monroe – aquela velha máxima da “América para os americanos”, onde por americanos se entende exclusivamente os estadunidenses – nunca foi enterrada. Ela hiberna em períodos de menor atenção imperial e ressurge com força quando o império precisa consolidar seu quintal.

Também é verdade que, no imaginário ideológico estadunidense, a América Latina e o Caribe são posse do império. Uma posse natural, inquestionável, que faz parte da ordem das coisas. Essa mentalidade colonial nunca desapareceu – apenas se modernizou em seu vocabulário.

Porém, o que mais favorece a retomada da Doutrina Monroe no continente é um fato prático: os Estados Unidos já possuem instrumentos para exercer influência, aliados políticos estabelecidos e alavancas prontas para serem acionadas. Não precisam construir do zero. O terreno já foi preparado ao longo de décadas.

Primeiro, foram feitos tratados comerciais, como o que existe com o México, que tornam nossas economias dependentes e vulneráveis à pressão de Washington. Em segundo lugar, garantiu-se o controle exercido através do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial e da dívida externa – instrumentos que disciplinam nossos governos e limitam nossa soberania econômica. 

Em terceiro, está o domínio do sistema financeiro internacional baseado no dólar, que permite aos Estados Unidos impor sanções e estrangular economias inteiras. Venezuela e Cuba conhecem bem o peso dessas sanções.

Quarto, espaços institucionais como a Organização dos Estados Americanos (OEA) – essa velha ferramenta de intervenção – e o Grupo de Lima, que já operaram abertamente em nome da estratégia dos Estados Unidos, são fóruns que vestem roupagem multilateral para legitimar políticas unilaterais. 

Quinto, o exercício de controle e direção direta dos meios de comunicação e das instituições de produção de conhecimento é fundamental para a batalha das ideias. O império não domina apenas com armas e sanções, mas com narrativas, com a capacidade de definir o que é verdade e o que é mentira, o que é democracia e o que é ditadura. 

Sexto, as bases e alianças militares espalhadas pelo continente estão prontas para serem acionadas quando a persuasão não for suficiente. Para operar esses instrumentos, os Estados Unidos vêm nutrindo, historicamente, a existência de uma direita submissa e de uma burguesia que coloca seus interesses de classe acima de qualquer projeto nacional. Ambos os partidos estadunidenses – democratas e republicanos – possuem relações fraternas com partidos de direita na região. Mas o Partido Republicano em particular tem estimulado diretamente a direita da Argentina, do Chile, do Brasil, do México, da Colômbia, de Cuba e da Venezuela. É uma rede continental de aliados ideológicos.

As diásporas de classe média de Cuba e Venezuela, em particular, se tornaram aliadas instrumentalizadas do imperialismo, com sede nos próprios Estados Unidos. De Miami a Houston, essas comunidades fornecem legitimidade doméstica para políticas de agressão contra seus países de origem.

Embora nem sempre sejam aliadas diretas do império, as forças social-democratas no continente também colaboram, muitas vezes, com a estratégia imperialista ao isolar a esquerda e propor uma linha moderada que, na prática, não desafia as estruturas de dominação. Essa observação é delicada, mas necessária.

Boric foi, concretamente, um aliado dos Estados Unidos. Prestou-se ativamente a fazer campanha contra Maduro no continente, assumindo um lugar polêmico, porque era considerado uma figura do progressismo. Justamente por isso, sua postura foi tão danosa. A confusão semeada pelas posturas hesitantes da social-democracia acaba servindo de alicerce para o imperialismo.

Quando figuras supostamente progressistas legitimam a narrativa imperial, o efeito é devastador. Porque se até os “progressistas” concordam que Venezuela é uma ditadura, então deve ser verdade, não é mesmo? Essa é a lógica perversa que se instala.

O imperialismo não funciona apenas por meio de conspirações elaboradas, como se um teatro fosse montado para servir seus interesses. Não devemos cair em teorias simplistas que veem a mão de Washington por trás de cada evento. O imperialismo funciona de maneira mais sofisticada: ele busca oportunidades da mesma forma como a esquerda busca contradições que abram caminhos para nossa luta. O império busca fragilidades e brechas que permitam intervenção.

No período dos golpes realizados a partir do lawfare [guerra jurídica]– como foi o caso do Brasil, da Argentina e do Equador –, os Estados Unidos aproveitaram a captura do poder judiciário por setores da elite, instrumentalizando-a para seus fins. No último período, o império tem aproveitado debilidades do projeto progressista e de integração que viemos construindo na região. Precisamos olhar para nossas próprias falhas se queremos superá-las. Um exemplo é a falta de compromisso real com a integração regional – falamos muito, mas avançamos pouco em projetos concretos de infraestrutura e complementariedade produtiva.

Outro exemplo é a falta de projetos econômicos que reindustrializem nossos países. A partir dos nossos projetos desenvolvimentistas, quisemos ser economias emergentes, mas o que precisamos é ser economias independentes. Emergir dentro de um sistema de dependência não é o mesmo que conquistar autonomia real.

E talvez o mais importante: os projetos progressistas se canalizaram de forma quase exclusiva ao poder institucional, abandonando a construção de organização popular a favor de criar máquinas eleitorais. Ganhamos eleições, ocupamos palácios, mas não construímos poder popular enraizado. Assim, faltam quadros de relevo da segunda geração para o progressismo inaugurado na primeira década do século XXI.

Precisamos encarar com honestidade as derrotas eleitorais que a esquerda sofreu em 2025 na Bolívia, na Argentina, em Honduras e no Chile, onde recém se inaugura um presidente que defende a ditadura do Pinochet. O desgaste de lideranças que não souberam se renovar, a incapacidade de responder às demandas concretas da população, a falta de formação política das bases – tudo isso criou as condições para que a direita avançasse. O império aproveitou brechas que nós mesmos abrimos.

Se derrubar um projeto depende apenas do ataque contra seu principal referente, a tarefa do imperialismo fica mais fácil. Foi o que evidenciamos com a derrota do MAS na Bolívia, que dependeu fundamentalmente do desgaste de Evo.

E vemos assim como Venezuela e Cuba continuam resistindo: porque construíram organização para além de seus referentes e partidos. A revolução venezuelana não foi derrubada nem com o sequestro de seu presidente. Cuba sobrevive há mais de seis décadas porque está enraizada no povo, inclusive frente à pior crise da sua história causado pelo recente bloqueio de combustível.

Multipolaridade e o papel da China

Como bem sabemos – até pelas próprias declarações de Trump –, para os Estados Unidos, as relações econômicas entre a América Latina e a China devem ser eliminadas ou, no mínimo, severamente debilitadas. O comércio com a China, os investimentos chineses em infraestrutura, os acordos de cooperação, tudo isso é visto como uma ameaça existencial à dominação estadunidense em sua área de influência tradicional.

Apesar dos limites que possui, o BRICS também é analisado pelos Estados Unidos como uma ameaça futura que precisa ser contida hoje, antes que se consolide. A expansão do bloco, a discussão sobre moedas alternativas ao dólar, os mecanismos de cooperação Sul-Sul – tudo isso acende alarmes em Washington.

Isso comprova algo importante: a multipolaridade está emergindo como uma força potencialmente contra-hegemônica. O próprio império reconhece a ameaça e age para neutralizá-la. Quando nosso inimigo se preocupa com algo, é porque esse algo tem substância.

No entanto, existe entre nós uma frustração sobre a suposta falta de solidariedade das grandes forças contra-hegemônicas durante os ataques imperialistas. A esquerda tem perguntado – e criticado – porque a China e a Rússia não intervêm para defender a Palestina, o Irã, a Venezuela.

Não creio que essa falta de intervenção revele simplesmente a imaturidade do processo multipolar. Ela revela que esse processo ainda se manifesta como uma possibilidade a ser potencializada, não como uma realidade dada e consolidada. A multipolaridade está em construção, mas sob ataque frontal após as agressões do império.

O mais importante é que a multipolaridade não é um mecanismo de salvação dos nossos projetos de transformação incompletos. Não vai cair do céu uma solução mágica que resolva nossas contradições internas.

O conteúdo político da multipolaridade emergente depende do sucesso e avanço das revoluções em todos os continentes do Sul Global. A multipolaridade será tão progressista quanto forem os processos que a compõem. Se for apenas uma disputa entre elites de diferentes países por espaços de acumulação, ela não nos servirá. Se for alimentada por revoluções e projetos de transformação social, ela pode se tornar um instrumento de libertação.

Dito de outra forma: o projeto de transformação social e revolução latino-americana, assim como o projeto de integração regional, não é tarefa da China nem dos BRICS. É tarefa nossa.

Não podemos terceirizar nossa libertação. A história mostra que povos que conquistaram sua independência real o fizeram por seus próprios esforços, por sua própria organização, pela sua própria luta. Aliados externos ajudam, abrem espaços, podem fornecer recursos, mas a luta fundamental é sempre travada em casa. Ter clareza sobre as oportunidades que a China e os BRICS outorgam para alimentar e fortalecer nossos projetos também não pode ser negligenciado.

A China oferece alternativas de financiamento que não vêm com as condicionalidades do FMI. Os BRICS oferecem espaços de articulação política que não são controlados por Washington. O comércio Sul-Sul abre possibilidades de diversificação que reduzem nossa vulnerabilidade. Esses são instrumentos que podem ser utilizados estrategicamente para fortalecer nossos projetos, desde que tenhamos projetos próprios para fortalecer.

Urgência e esperança

O cenário não é simples. O império está se reajustando para evitar o colapso. A América Latina está na mira por cálculo estratégico. A multipolaridade oferece oportunidades, não garantias. 

E o que fazemos diante disso? Primeiro, abandonamos qualquer ilusão. Não haverá solução fácil, não haverá atalho, não haverá salvador externo. A libertação de nossos povos será obra de nossos povos ou não será.

Segundo, aprendemos com nossos erros. Cada brecha que deixamos aberta será explorada pelo império. Cada quadro que não formamos, cada comunidade que não organizamos, cada aliança regional que não consolidamos representa uma vulnerabilidade.

Terceiro, construímos com o que temos, onde estamos, agora. Cada organização de base fortalecida, cada processo de formação política, cada laço de solidariedade concreta entre nossos povos é uma pedra no edifício que queremos erguer.

O momento é de urgência porque o império não espera. Enquanto debatemos, Washington age. Enquanto hesitamos, nossos adversários avançam. Não temos o luxo do tempo infinito.

Mas o momento também é de esperança. Porque o império, apesar de sua força, não é invencível. Porque Venezuela resiste, porque Cuba resiste e porque o MST continua ocupando terra e fazendo reforma agrária. Porque Palestina segue lutando e os gringos não podem contra a China por agora.

O caminho é longo. A luta é dura. Mas, como disseram aqueles que vieram antes de nós: o dever de todo revolucionário é fazer a revolução.


Stephanie Weatherbee é coordenadora da Secretaria da Assembleia Internacional dos Povos (AIP).

Revisão e edição por Bianca Pessoa e Helena Zelic

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