O antirracismo é um eixo permanente de luta do movimento feminista para mudar o mundo. Para entender como e porque o racismo é parte da estrutura econômica, é preciso voltar ao ponto de origem do capitalismo tal como o conhecemos. O modo plantation é uma organização econômica e social colonialista que combinou três elementos desde o período colonial: o roubo dos territórios das populações indígenas, a monocultura em larga escala (cana-de-açúcar, por exemplo) e o trabalho sustentado pela força de pessoas sequestradas do continente africano e de povos indígenas.
A palavra em inglês “plantation” significa “plantação” e era como os colonizadores ingleses chamavam esses territórios agrícolas da América do Norte e das Antilhas, arquipélago da América Central. Uma das pessoas que escreveu sobre esse assunto é Angela Davis, em seu livro Mulheres, raça e classe, publicado originalmente em 1981.
Esse sistema fundado na escravidão e exploração da natureza não foi apenas um período histórico que acabou. Foi a base da acumulação primitiva que impulsionou o capitalismo industrial nos países do norte, e que tem continuidades até os tempos atuais. O capital acumulado no lucrativo e nefasto tráfico de pessoas está ligado a bancos e casas financeiras que existem até hoje.
No modo plantation, além de fazer atividades como as dos homens, as mulheres tinham sua capacidade reprodutiva explorada para gerar mais mão de obra para os senhores. O estupro das mulheres escravizadas era tanto uma tática de terror quanto mais uma forma de exploração econômica. A vida sexual e reprodutiva das mulheres negras e indígenas era estratégico para a acumulação de capital.
Havia também o padrão da servidão: pessoas eram tidas como se não tivessem desejos e vida própria, ficando completamente a serviço de outras. Eram consideradas como mercadorias capazes de produzir e reproduzir trabalho. Isso permite que uma classe de pessoas não se responsabilize por quase nenhum aspecto da própria reprodução, no cotidiano e ao longo das gerações. Para a elite servida, a dominação era geral: as pessoas a seu serviço se encarregavam de tudo, da amamentação ao preparo da comida, do cuidado das crianças ao carregamento dos resíduos. A escravidão legal e o tráfico de pessoas eram perpetuados para que a manutenção do trabalho se desse pela substituição das pessoas trabalhadoras e não pela manutenção de suas vidas.
Os padrões do trabalho à exaustão, de descartabilidade e de servidão continuam operando até hoje, em relações de trabalho de serviços como o trabalho doméstico remunerado, nos postos de trabalho como seguranças, motoristas, cozinheiras. O modo como a divisão sexual, racial e internacional do trabalho se apresenta acompanha a forma como o trabalho e a acumulação capitalista estão organizados em cada lugar e momento histórico. Essa história se move e se altera a partir do conflito capital-vida. Mas, mesmo que mudem os trabalhos realizados, essa divisão do trabalho está presente por ser própria do modo capitalista de produção.
Para sustentar esse sistema, é preciso construir também uma estrutura de subjetividades, ou seja, de formas de perceber, classificar e enquadrar as pessoas. A socióloga feminista negra Patricia Hill Collins chama esses estereótipos de imagens de controle: ideias que limitam, discriminam e objetificam mulheres negras, buscando justificar e naturalizar a posição que lhes é imposta. Há imagens que colocam a mulher negra como responsável por maternar a sociedade inteira, inclusive as pessoas brancas. Há também a imagem da hiperssexualização: a ideia de que as mulheres negras devem estar sempre disponíveis para satisfazer os desejos do outro. Também há a imagem da agressividade e do perigo, construída a partir da experiência branca.
Essas imagens organizam subjetividades, definem quem pode ocupar quais espaços e em quais posições. Isso contribui para a naturalizar e manter a posição de servidão das mulheres negras. Também as invisibiliza como sujeito político, assim como ao seu trabalho durante a história e a economia.
A divisão sexual e racial do trabalho hoje
A divisão sexual e racial do trabalho define e hierarquiza quais trabalhos são para mulheres brancas, quais para mulheres negras, quais para homens brancos e quais para homens negros. Nos trabalhos mais precarizados, estigmatizados e associados à ideia de servidão, as mulheres negras estão sempre em maioria. O trabalho doméstico remunerado é o exemplo mais evidente. Ele materializa, nos tempos de hoje, uma estrutura colonial que organiza a sociedade, condicionando as mulheres negras ao trabalho doméstico e ao cuidado dos outros ao seu redor. Não a toa, a luta das trabalhadoras domésticas por direitos inaugura as primeiras reivindicações por melhorias de trabalho no início do século XX, protagonizada pelas mulheres negras.
É essencial que o trabalho doméstico e de cuidado seja desprivatizado — ou seja, que saia dessa relação de mercado no interior das casas de quem pode pagar e se torne uma responsabilidade coletiva e pública. Essa é, portanto, uma luta antirracista. As saídas individuais, que passam pelo mercado, carregam as relações de gênero, raça e classe que estruturam esse mercado. Ao apresentar a vulnerabilidade como uma condição humana, a economia feminista explicita que todas as pessoas precisam de cuidado para continuarem vivas. Essa concepção também contribui para desvelar o racismo que pressupõe a disponibilidade infinita das pessoas negras para servir, e das mulheres negras para aguentar e acolher todas as pessoas.
A rígida separação entre esfera pública (a da produção, da política, da definição e acesso a direitos) e esfera privada (a do cuidado, da reprodução, do âmbito doméstico) está inscrita na própria organização do espaço urbano. A trabalhadora doméstica negra que mora a 20 ou 30 quilômetros do emprego não experimenta a cidade da mesma forma que os patrões brancos que a contrataram. Ela passa horas em transporte para chegar ao trabalho remunerado, pode demorar meses para conseguir uma consulta médica, vive sobressaltada com a precarização do transporte ou com o racionamento de água em algumas temporadas. A cidade organiza essas distâncias e essas precariedades de forma racialmente estruturada. A presença militarizada do Estado também é percebida de maneira diferente pela violência policial e o genocídios das juventudes negras como instrumento de controle dos territórios urbanos.
O racismo ambiental está inserido nessa estrutura: os locais mais arborizados nas cidades são em áreas de elite, enquanto as consequências da degradação ambiental recaem desproporcionalmente sobre as comunidades negras e indígenas. As enchentes destroem mais as casas de quem mora em áreas de ocupação e sujeitas a deslizamento. A perseguição contra comunidades e sua expulsão dos territórios também é racista.
Além disso, o racismo institucional se manifesta nos serviços públicos. A discriminação opera pela ideia de que pessoas negras precisam de menos cuidado, aguentam mais dor. Por isso as mulheres negras são maioria entre as vítimas de violência obstétrica. E há a dimensão da necropolítica, ou seja, de uma política de morte. Essa política define quais vidas importam e quais são descartáveis.
A divisão internacional do trabalho também está presente desde o princípio do capitalismo, por usurpar territórios e explorar as populações colonizadas. Em toda a América Latina, os povos indígenas resistem há cinco séculos, desde a invasão europeia, e travam atualmente lutas importantes em defesa de seus povos, culturas, memórias, territórios e modos de vida. Ao retomarem suas terras ancestrais, confrontam pistoleiros e policiais e são violentamente atacados até os dias de hoje. Além da retomada, há o ressurgimento de povos que haviam se separado após a expulsão. Essa é uma luta que resiste a essa divisão, ao mesmo tempo que propõe outra organização do trabalho, do tempo e dos modos de vidas.
As mulheres negras e indígenas são sujeitos políticos da resistência e da transformação
Assumir que o conflito capital-vida tem movido a história significa contar como se dá a exploração, mas também as resistências e alternativas que sustentam a vida ao longo desse caminho. Desde o período da escravidão, as pessoas negras combinaram estratégias de resistência: fuga, sabotagem, compra da alforria, organização em comunidades autônomas.
Existem experiências históricas de territórios de resistência em toda a América Latina e Caribe: são palenques na Colômbia, cumbes na Venezuela, garífunas na Costa Atlântica, quilombos no Brasil. Essas comunidades autônomas se constituíram como sistemas sociais alternativos, com formas próprias de organizar o trabalho, a terra, a política e a espiritualidade.
A historiadora brasileira Beatriz Nascimento contribuiu para entender os quilombos para além da resistência militar. Ela formulou a ideia de “paz quilombola” para falar de sistemas comunitários que operam como imaginários de liberdade. Com métodos e decisão política próprios, os quilombos não eram só refúgios: eram alternativas econômicas e políticas que recusavam a lógica do capital e afirmavam outras formas de vida.
A luta pelo território é central, ainda hoje, para construir essa alternativa. A pressão fundiária, os conflitos com fazendeiros e corporações e os assassinatos de lideranças quilombolas revelam que a luta pela terra é uma luta antirracista. Miriam Miranda, coordenadora geral da Organização Fraterna Negra Hondurenha (Ofraneh), fala em uma entrevista cedida em 2022 sobre a violência sistemática sofrida pelo povo garífuna: “existe um processo e uma política de genocídio contra os povos que defendem a natureza, que defendem os recursos naturais e a vida”. Ainda assim, ela também fala sobre o processo de autonomia alimentar do povo garífuna em Vallecito, Honduras: “estamos plantando coco para substituir e fazer oposição à plantação de dendê, não só para recuperar a dieta alimentar do povo garífuna, mas também para ajudar nas questões de saúde”. Soberania alimentar, saúde, memória e território são dimensões inseparáveis. A luta pela terra, que atualmente se organiza na luta pela reforma agrária popular e pela demarcação dos territórios quilombolas e indígenas, é uma luta anticapitalista, antipatriarcal e antirracista.
As alternativas econômicas construídas por mulheres negras são muitas. Cooperativas de cuidado, cozinhas comunitárias, iniciativas de economia solidária que tecem redes de apoio mútuo. Nas periferias, vemos muitas iniciativas de auto-organização das mulheres para enfrentar a violência, grupos de artesãs que se articulam na economia solidária, coletivos que combinam geração de renda com resistência cultural, entre outros. Essas experiências materializam a ideia de que a economia pode ser organizada de outra forma: não pela via do mercado capitalista, às vezes apresentada como “empreendedorismo”, que fragmenta e isola, mas pela via da cooperação e da comunidade. Apostamos na concretude de uma agenda de luta antissistêmica, que acumula forças para uma transformação mais profunda.
As mulheres quilombolas propõem uma matriz para entender as mudanças no clima e a resiliência das comunidades que nos ajuda a pensar a economia feminista antirracista. No centro está o território, que elas consideram a base das relações para a sustentação da vida. Também na visão quilombola, o econômico não se separa da política e da cultura. Segundo essa visão, somos corpo-território-memória, inseparáveis da natureza. O aquilombamento como estratégia política é um convite que Beatriz Nascimento fez e que a escritora Conceição Evaristo retomou: “é tempo de nos aquilombar”. Não só construir sistemas paralelos de resistência, mas sistemas que dão força para desmontar todas as opressões. Essa confrontação ganha força quando articulada local, nacional e internacionalmente, pelos movimentos sociais, comunidades e povos organizados ao redor do mundo.
As lutas por reparação e transformação atravessam fronteiras
A luta por reparação dessa processo devastador deve ser coletiva. As experiências dos povos negros da África do Sul e dos movimentos de pessoas atingidas por barragens no Brasil ensinam que a reparação que chega apenas como dinheiro individual pode promover endividamento e desarticular modos de vida. A reparação que fortalece laços e memória reconstrói coletividade e restabelece práticas comunitárias. Aqui conectamos com os aprendizados da economia feminista, que amplia o que é econômico e não deixa que nos contentemos com compensação monetária e individual para uma riqueza que se constrói coletivamente e é sustentada por relações sociais.
A reparação é um tema que articula dimensões territoriais e geopolíticas. Países africanos propuseram nas Nações Unidas a condenação do tráfico transatlântico como o pior crime contra a humanidade. A proposta foi aceita em março de 2026, com votos favoráveis de 123 Estados, votos contrários apenas dos Estados Unidos, de Israel e da Argentina, e abstenções de 52 países, como o Reino Unido e os países que integram a União Europeia. Sobre isso, os trabalhos ainda seguem para determinar diferentes formas possíveis de reparação que envolvem ações, políticas e recursos.
Essa luta se conecta internacionalmente. O panafricanismo é a formulação teórico-organizativa que articula as lutas antirracistas da diáspora e as lutas de libertação e independência dos países africanos. O panafricanismo se propôs a reconhecer e reconectar povos divididos pelo colonialismo. Marcus Garvey, Aimé Césaire e Frantz Fanon se tornaram referências, com formulações sobre a liberação do continente africano, o respeito próprio, a responsabilidade mútua entre povos afrodescendentes e as estruturas sociais do mal-estar psíquico dos homens negros.
O feminismo negro, por sua vez, vem resgatando as trajetórias e contribuições teóricas de mulheres. Um exemplo é o das irmãs Nardal e suas reflexões sobre a negritude que apoiariam as de Aimé Césaire, que podem ser encontradas no livro As irmãs Nardal: a vanguarda da causa negra (2025), de Léa Mormin-Chauvac. A feminista Patricia McFadden também fala sobre esse processo em uma entrevista: “à medida que cada país africano conquistou independência, as mulheres negras adentraram o espaço público como aspirantes a cidadãs, apresentando demandas às novas elites negras e rejeitando, em geral, as limitações que o colonialismo nos impôs durante séculos”.
Outro exemplo é o de Amy Ashwood Garvey, que deu suporte à organização, na Jamaica, da Associação Universal para o Progresso Negro [Universal Negro Improvement Association and African Communities League – UNIA], organização pan-africanista que projetou Marcus Garvey. Uma das referências sobre isso é Rhoda Reddock, com o texto (em inglês) The first Mrs Garvey: Pan-Africanism and feminism in the early 20th century (2014).
Lélia Gonzalez formulou a ideia de amefricanidade, que pode apoiar nossas lutas. Amefricanidade é o reconhecimento de que o que construímos na diáspora não é uma justaposição de culturas africanas, mas um conjunto de sínteses próprias, criativas, que afirmam nossa humanidade e nossa potência. “Ao reivindicar nossa diferença enquanto mulheres negras, enquanto amefricanas, sabemos bem o quanto trazemos em nós as marcas da exploração econômica e da subordinação racial e sexual. Por isso mesmo trazemos conosco a marca da libertação de todas e de todos”, formulou Lélia. Dessa forma, ela contribui com o debate sobre a diáspora negra que conecta regiões, histórias e lutas.
A economia feminista antirracista é uma prática política que se constrói em uma crítica à economia capitalista, bem como em propostas e práticas alternativas. Mergulhadas no fazer, aguçamos nossa leitura do contexto, e na luta percebemos os limites impostos pela ordem hegemônica, assim como as possibilidades abertas pelas fissuras da resistência. Este texto, portanto, parte de um processo de elaboração e organização coletiva, mas não é um ponto final: ele se alimenta de todas as nossas práticas de construção do feminismo anticapitalista e antirracista — estando, assim como nós, em movimento.

A SOF Sempreviva Organização Feminista participa do movimento feminista brasileiro e internacional. Compõe a secretaria executiva da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil. Este texto é uma adaptação do material produzido para o curso virtual “Economia Feminista: antirracismo e soberania tecnológica”, realizado em 2026.
